Pintou?

Quando escreve-se sobre uma hipótese pela manhã e ela se materializa poucas horas depois, há um bombardeio de perguntas. “Você sabia, né?”

Pintou?

Quando escreve-se sobre uma hipótese pela manhã e ela se materializa poucas horas depois, há um bombardeio de perguntas. “Você sabia, né?”

Claro que eu não sabia. Eu nunca sei de nada. Parei no “de onde vim?”. Ali empaquei e desisti de saber de qualquer coisa pra frente.

Se um chimpanzé escrevesse textos diários ao longo de oito anos, certamente ele faria algumas previsões certeiras no meio do caminho. Então, poderia repeti-las por ai ad nauseam, enfatizando seu rigoroso poder preditivo por meio do mais trivial cherry picking.

Transforma-se a simples aplicação do bom humor da deusa Fortuna, que nunca tem ressaca, em competência individual. A retórica é uma maravilha. Iludidos pelo acaso e sem nunca ter ouvido falar em Deirdre McCloskey, selecionamos pseudoheróis, meramente abençoados pelas forças da aleatoriedade. Os verdadeiros heróis morreram de overdose há muito tempo, a maior parte deles aos 27.

Ontem, recebemos aqui grandes e brilhantes investidores. Um deles, conforme eu mesmo faço com frequência, questionou enfaticamente a habilidade de geração sistemática de alfa. Até onde vai o poder do financista?

Certamente, não há superpoder. Não acredito que ninguém possa, sistematicamente, saber mais do que os outros sobre uma determinada ação ou um título. Não há entendimento ou antevisão superior à dos demais. Claro que o discurso politicamente correto em prol da disciplina, da dedicação e do trabalho árduo de pesquisa adora sugerir que esses atributos levarão o investidor a retornos necessariamente acima da média do mercado. Na prática, porém, não funciona assim. Embora essas coisas sejam, sim, normalmente necessárias para o sucesso (nem sempre! há muito rico sortudo e vários pobres azarados), elas não são condições suficientes.

Claro que sua dedicação em explorar assimetrias de informação pode funcionar uma ou duas vezes. Mas não me parece razoável acreditar que seu superpoder seja algo sistemático e consistente. Isso porque há muitos garotos e garotas superpoderosos(as) por aí.

A geração de alfa, na minha visão, não pode vir de uma capacidade individual de um melhor entendimento ou de uma habilidade em ver o futuro superior à dos demais participantes do mercado. Essa é uma postura altamente arrogante – “eu posso ver as coisas melhor do que os outros.”

Isso não significa também que não possa haver geração de alfa. Pra mim, ela vem do reconhecimento da própria fraqueza e incapacidade. Devemos desistir de entender e antever as coisas. Trata-se de uma verdadeira mudança de mindset (arcabouço mental; desculpe, em inglês fica melhor), em que o entendimento dá lugar à convexidade. Tudo está resumido no clássico Understanding is a poor substitute for convexity, de Nassim Taleb, disponível no edge.org.

Falamos de uma perseguição implacável de retornos assimétricos. A busca pela convexidade e pela antifragilidade. Se você vai repetindo jogadas em que os ganhos potenciais são maiores do que as perdas potenciais, seu resultado no longo prazo é certamente favorável. Não é um superpoder ou qualquer coisa parecida. É a mera aplicação da álgebra, em que a esperança matemática desses jogos repetidos é positiva – ou seja, geradora de valor. Para isso, claro, você não pode morrer no meio do caminho.

 

Se você pegar o melhor fundo de investimento do Brasil e analisá-lo com alguma profundidade, concluirá que seu grande diferencial não veio de acertos de teses econômicas, antecipadas pelo gestor e futuramente concretizadas. A porrada veio das apostas assimétricas, muitas delas feitas sob o conceito de acumulação de seguros-catástrofe comprados oportunisticamente. “O fundo X é igual o fundo Y, mas sem o book de hedge.” Isso significa que o fundo X é completamente diferente do fundo Y. Jogamos fora o bebê junto com a água do banho. Perdemos justamente o que gera alfa, que é a obstinação pela convexidade e assimetria, ainda que tais posições sejam construídas por meio de conhecimento tácito, e não propriamente de racionais e teorias formalizadas.

Penso no exemplo de BRF. Ação caiu muito porque atravessou, por um azar simplesmente atroz, seis ciclos exógenos negativos. Ninguém poderia prever. Eu concordo com isso. Foi uma espécie de tempestade perfeita, imprevisível.  

Mas a pergunta subjacente: você quer comprar uma ação que pode passar por seis ciclos negativos exógenos consecutivos e/ou simultâneos? Parece uma exposição um tanto grande em um nome frágil.

Eu, pessoalmente, prefiro comprar Tarpon (TRPN3), que parece muito barata em Bolsa, completamente abandonada, conta com um gestor absolutamente brilhante, apaixonado e com uma potência intelectual raríssima entre os financistas brasileiros, e que pode vir a surfar a tal onda da desbancarização (eu ainda posso usar este termo?). Se há mesmo esse processo em curso – e eu acho que há; o deal Itaú/XP não é um caso isolado, definitivamente -, as gestoras independentes certamente vão participar disso, implicando múltiplos maiores para os pure plays (o play, na real) listado em Bolsa.

Também vejo uma assimetria interessante para as varejistas com a reforma trabalhista. Gosto mesmo de Guararapes, mas penso em Renner também. Loja tem fluxo das 11h30 às 14h30; e das 18h às 20h. Para esses horários, precisa de 20 vendedores; para o resto do dia, pode ter só cinco, três, sei lá. Isso não está na conta de ninguém e pode ter um impacto importante sobre lucros por ação neste e no próximo ano. Não duvido que se inicie em breve uma rodada de revisão de estimativas de lucro capaz de guiar as ações no curto prazo.

E ainda me sinto atraído pelo IPO do IRB, que pode ser um papelaço para pessoa física saindo a 8/9 por cento de dividend yield. Mesmo que você seja conservador e não suponha growth, o que parece uma premissa beeeem exagerada, já é um retorno interessante via dividendos, com chance de envolver-se numa atividade de M&A lá na frente. 

Por fim, me pergunto: se realmente Caixa – e falo aqui, claro, no contexto da WIZ – não fosse fechar o acordo com os franceses, por que as ações de CNP estariam lá fora em recorde histórico, sendo a operação brasileira correspondente a 30 por cento do lucro consolidado e aquela que mais cresce? Eu não sei de nada. Mas desconfio de muda coisa.

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