Os Bancos Centrais e a geração mimimi

É difícil comparar coisas em que há um ganho imediato e tangível contra outra em que os benefícios são difusos e indiretos, dispersos no longo prazo. A gestão de política econômica enfrenta exatamente o mesmo problema.

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Os Bancos Centrais e a geração mimimi

“Eu não fiquei em casa fazendo tortas de maçãs deliciosas e delicadas. Eu a tornei uma campeã mesmo sabendo que me odiaria. Esse é o tipo de sacrifício que uma mãe de verdade faz. Eu queria ter tido uma mãe como eu em vez de uma mãe boazinha. (…)”

Isso é a personagem de Allison Janney, no filme “Eu, Tonya”, respondendo à filha Tonya Harding se ela já a amou alguma vez na vida. Rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Janney. A mãe de Tonya Harding exagerou na dose, não há dúvida. Mas sem disciplina e a imposição de restrições talvez seja impossível educar.

Uma vez por mês, normalmente aos domingos, vou ao cemitério conversar com meu pai. Não sou ingênuo a ponto de achar que ele está ali, de fato, de corpo ou alma. Mas é uma espécie de homenagem e uma maneira de me conectar mais visceralmente com ele, com as lembranças e as lágrimas; ou talvez só comigo mesmo.

Na quadra 18 do Getsêmani, jazigo 38, já chorei muito, ri, reclamei, briguei, xinguei, pedi desculpas. Ah, várias vezes pedi perdão por ter fracassado em ser aquilo que ele gostaria que eu fosse no devido tempo. Ontem foi diferente. Fui apenas dizer obrigado. Agradeci por cada “não”, por cada porrada”, metafórica ou física, e por cada frustração que ele ou a vida me impuseram ao longo da caminhada – e foram várias, uma seguida da outra.

Não conseguia sentir os benefícios na hora. Somente a tristeza e a neurose estimuladas pela impossibilidade de conseguir a aprovação paterna. Talvez me falte a própria aprovação, porque me vejo distante daquele que sonhava ser, aquele que me encarava no espelho aos 18 anos cobrando uma alma livre.

É difícil comparar coisas em que há um ganho imediato e tangível, mesmo que pequeno, contra outra em que os benefícios são difusos e indiretos, dispersos no longo prazo.

Freud dizia haver três tarefas impossíveis: governar, analisar (no sentido psicanalítico) e educar. Acho que estava certo. Diante da impossibilidade, porém, eu agradeço à educação que recebi, com os benefícios e as mazelas que as restrições imediatas trouxeram, em prol de algo maior lá na frente.

Esse é um grande desafio não somente na educação familiar. A gestão de política econômica enfrenta exatamente o mesmo problema. Essa é inclusive uma das razões porque a narrativa da esquerda costuma ser mais atrativa, ainda que superficial.

No liberalismo, com o mercado atuando, os benefícios não são sentidos de forma direta e na hora. Já se você confere um subsídio para uma determinada indústria, ele é mensurável, direto e instantâneo. O governo bonzinho salva aquele setor da indústria nacional! A minoria histriônica representada por esse grupo beneficiado vai ao Congresso e à imprensa elogiar as medidas extremamente importantes e profícuas.

Os efeitos colaterais são óbvios e normalmente muito maiores, porém de longo prazo e não perceptíveis numa relação direta. A maioria silenciosa da população acaba afetada pelo descontrole das contas públicas e da inflação.

Meia dúzia de seis pessoas vai à Paulista pedir incentivos para a indústria ou uma nova bolsa para chamar de sua. A maior parte da população, contrária àquelas medidas, fica em casa quieta, precisa pagar as contas. Ninguém a vê, não há notícia no jornal sobre o silêncio da maioria. E assim vamos alimentando o país da meia-entrada.

Agora transponho a discussão para a política monetária. Também aqui estamos diante de um trade off entre ganhos de curto prazo e potenciais problemas lá na frente.

Recupere Alan Greenspan, tido originalmente como o grande Maestro, aquele que tirou a economia norte-americana da recessão decorrente da bolha pontocom e conduziu a orquestra no período conhecido como Grande Moderação. Com o passar dos anos, o maestro Greenspan foi transformado no grande estimulador da bolha das hipotecas subprime nos EUA. Manteve as taxas de juro muito baixas e por tempo excessivo, no que desembocou em alavancagem exagerada, especulação imobiliária e o samba do crioulo doido na mensuração de riscos. Deu no que deu.

Sentado na cadeira do Fed, você não quer ser aquele que sobe mais do que deveria o juro e estoura a bolha com a agulha do aperto monetário intenso. Você quer ser o maestro, aquele que mantém economia, empregos e mercados em alta. Então, vai se dando um estímulo humano a uma política monetária um pouco mais frouxa do que merecia. E assim a bolha vai sendo inflada mais um pouco, até que, de repente, alguém se lembra de que já passamos do razoável há certo tempo. Subitamente, numa reação não linear, a inflação ressuscita e os BCs têm que correr. Aí já é tarde. Ou, antes mesmo da inflação ressurgir, aparece alguma baleia boiando na superfície, disfarçada de instituição financeira que se alavancou em excesso e vendeu volatilidade.

A grande preocupação dos investidores nas últimas semanas vinha sendo justamente com uma eventual subida mais rápida dos juros nos EUA. O Relatório de Emprego divulgado no mês passado alimentou exatamente esse temor, ao sugerir salários aumentando mais do que o esperado. Com a economia norte-americana supostamente além do pleno emprego, seria inexorável um aperto monetário mais vigoroso. Sob quatro anos do juro básico dos EUA em 2018, a liquidez global seria reduzida de maneira vigorosa e seríamos forçados a um de-rating (reavaliação para baixo) no preço dos ativos financeiros em todo o mundo.

Aqui entra a importância do ocorrido na sexta-feira. A nova edição do Relatório de Emprego norte-americano pintou um quadro bem mais favorável para a pressão sobre os salários. Ainda que a criação de postos de trabalho tenha sido bem mais forte do que o esperado (313 mil contra 205 mil projetados), os salários aumentaram 0,15%, contra 0,2 da previsão. Imediatamente, foram reduzidas as apostas de quatro altas do juro básico em 2018 e o mercado correu para o risco.

Por óbvio, se trata de um único indicador e em frequência mensal. Mas gostaria de dimensioná-lo adequadamente para o comportamento dos mercados no curto prazo. Foi exatamente o Employment Report anterior que disparou a correção vigorosa em Wall Street no mês de fevereiro, alimentada no momento subsequente por questões técnicas – muitos fundos de algoritmos apoiados em estratégias que usam volatilidade como proxy de risco, alavancagem de ETFs e institucionais vendidos em vol.

Da mesma forma, agora o Relatório de Emprego pode contar a disparada mais forte do rendimento dos títulos do Tesouro norte-americano, que vinha sendo o grande driver para os mercados nas semanas anteriores. A maior preocupação era com a possibilidade de que o yield do papel de 10 anos superasse a marca de 3% ao ano e seguisse em sua trajetória ascendente. O documento da sexta-feira ameniza essa preocupação e fomenta a caminhada em direção a risco no curto prazo.

Essa é a grande mensagem de hoje: os juros internacionais, ainda que subam na margem, encontraram evidências de que podem continuar baixos para patamares históricos no curto prazo. Isso é ótimo para os ativos de risco e para a tese do bull market. Lá na frente, porém, o excesso de ração diária e benevolência dos Bancos Centrais cobrará o seu preço. Mas isso é assunto para lá na frente. Ainda podemos continuar a festa.

Agora como reforço à ideia da Pós-História, o PC da China aprovou a reeleição ilimitada para a presidência do país, restrita desde 1990 a dois mandatos de cinco anos. Assim, Xi Jinping basicamente se perpetua no poder. Também uma boa notícia de curto prazo, pois é garantia de previsibilidade e continuidade da política econômica por lá, essa mesma que afastou a hipótese de “hard landing” que pesou sobre o país mais fortemente em 2016.

Em contrapartida, traz uma eventual fonte de instabilidade. Havia uma expectativa entre boa parte dos analistas de que o crescimento e o desenvolvimento da China a aproximassem dos preceitos da democracia liberal do ocidente. A movimentação mais recente aponta justamente na direção oposta, na caminhada rumo a autocracia e no afastamento dos valores ocidentes, com a China se colocando como antagonista dos EUA de forma cada vez mais clara. De novo, porém, assunto para lá na frente.

Por enquanto, a gente se entretém com os mercados alimentados ainda pelo bom Relatório de Emprego dos EUA divulgado na sexta-feira. Sob a perspectiva de continuidade de ampla liquidez internacional com juros ainda baixos, bolsas estendem o movimento do pregão anterior e se valorizam nesta segunda-feira.

Internamente, ganha espaço discussão sobre uma redução mais vigorosa da taxa Selic depois da divulgação mais recente do IPCA. Conforme matéria do Valor, já tem gente falando em 6% para a taxa básica. Ainda que não cheguemos lá, os juros vão ficar baixos por bastante tempo aqui – e isso também é ótimo para os ativos de risco.

Na agenda, relatório Focus trouxe nova revisão para baixo nas estimativas para inflação, enquanto IPC-Fipe marcou deflação de 0,42%, bem mais intensa do que as projeções sugeriam. Balança comercial semanal completa a lista de indicadores.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,4%, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.

P.S.: Com muito orgulho, publicamos para os assinantes do Palavra do Estrategista hoje o primeiro conteúdo do brilhante Marcos Troyjo (futuro ministro, pode anotar), diretor do BRICLab em Columbia. Ele aborda as perspectivas de crescimento da China e como isso pode afetar nosso bolso. Seria a hora de comprar commodities? Não perca: Decifrando o Dragão China.

PPS.: Esclarecendo o burburinho das redes sociais sobre o anúncio de que Luiz Alves Paes de Barros dividirá suas ideias e análises com os assinantes da série As Melhores Ações da Bolsa, é evidente que ele não vai recomendar ações. Primeiro porque isso feriria a regulação vigente. Segundo porque representaria conflito de interesses. Luiz Alves vai falar do momento de mercado, quais ações gosta, quais não gosta, por que está otimista com Bolsa, o que o faria ficar pessimista e tudo mais que ele quiser. Para mim, é uma honra muito grande trazer este gênio para escrever para o varejo brasileiro. Honestamente, eu mesmo só tenho a aprender com ele e estou ansioso pelos relatórios. Lembro ainda que aqueles que torceram o nariz para isso e enxergaram uma criativa relação comercial entre as partes podem simplesmente ignorar os relatórios, sem qualquer prejuízo da série original, tocada com primor por João Piccioni e Max Bohm. Fica aqui meu agradecimento público e de coração ao Luiz Alves, que com a gentileza de sempre atendeu a um convite meu. Se ainda houver qualquer crítica sobre a movimentação, ela pode ser enviada diretamente para mim. A responsabilidade é minha. Numa boa, no meu humilde entendimento, o investidor de ações, qualquer que seja, iniciante ou profissional, que não gostaria de ao menos ouvir/ler as opiniões do gênio Luiz Alves precisa rever muita coisa. Eu só tenho a agradecer.