Por que é proibido questionar o BC?

É fácil falar mal da ex-presidente, ex-ministra e ex-tudo-mais Dilma Rousseff. Também se criticam com facilidade Arno, Guido ou mesmo Paulo Rabello de Castro - sempre com razão, aliás. Eu, que nunca a vi pessoalmente, apaixonei-me à primeira vista televisiva por Maria Silvia e dela sinto saudades profundas.

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Por que é proibido questionar o BC?

É fácil falar mal da ex-presidente, ex-ministra e ex-tudo-mais Dilma Rousseff. Também se criticam com facilidade Arno, Guido ou mesmo Paulo Rabello de Castro – sempre com razão, aliás. Eu, que nunca a vi pessoalmente, apaixonei-me à primeira vista televisiva por Maria Silvia e dela sinto saudades profundas.

Mas repare como é diferente em relação ao BC. Talvez por Ilan ser “um dos nossos” – ciente do simbolismo dessa representação, agora escrevo em primeira pessoa pois não consigo afastar-me nem geograficamente da Faria Lima -, resistimos fortemente a qualquer apontamento negativo sobre erros da autoridade monetária.

 

Não estou, de maneira alguma, alinhando cada um desses personagens. Colocar no mesmo parágrafo Ilan, Pombini, Arno, Guido e Dilma é certamente uma ofensa com o primeiro. O atual presidente do Banco Central é excelente economista, tem currículo brilhante e, sim, fez um bom trabalho em domar a inflação e ancorar as expectativas, pavimentando a via para uma taxa Selic estruturalmente baixa, e por bastante tempo – provavelmente mais baixa do que supõe o consenso de mercado; já chego lá.

Isso não significa que o sujeito não tenha cometido erros, como, de fato, cometeu. Constrangidos pela alma intocável da autoridade monetária, todos parecem resistir a apontar publicamente os equívocos – gestores comentam a boca pequena em reuniões reservas, economistas sugerem um pouco mais de espaço aqui e ali. Publicamente, porém, ninguém. Como diria o filósofo Ramiro, o saco é o corrimão do sucesso.

Se olharmos o relatório Focus divulgado ontem, a mediana Top 5, ou seja, daqueles que mais acertam, já aponta uma inflação oficial bem perto de 3 por cento para este ano. Se confirmada a projeção, estaríamos bem abaixo do centro da meta de 4,5 por cento e muito próximos inclusive de descumprir a meta – se estourarmos o limite inferior da banda, teremos o constrangimento de ver o Banco Central escrevendo cartinha pro Congresso dando explicações para o não atingimento da meta.

Podemos recorrer à retórica que quisermos. “Foi um choque exógeno, fora do controle do BC. Os administrados se comportaram excepcionalmente bem. Além disso, a safra recorde trouxe uma oferta inesperada de alimentos. O câmbio não se depreciou fortemente mesmo nos momentos de maior stress.” Por ai vai. O fato objetivo, porém, é que estaríamos 1,5 ponto percentual abaixo do centro da meta. Ponto final.

Tudo isso num momento em que tentamos, aos trancos e barrancos, sair da maior recessão da história e as empresas encontram-se altamente endividadas, clamando por uma queda de juros um pouco mais intensa que as pudesse fazer respirar, ao menos momentaneamente, sem a ajuda de aparelhos.

Do alto do platonismo típico dos economistas, o Banco Central demonstra insensibilidade aos problemas tangíveis das famílias e das empresas brasileiras. O homo economicus, este super herói que inventamos para poder aproximar a ciência jovem da física, não tem coração.

Aprofundando um pouco o argumento, a autoridade monetária tem sistematicamente errado em suas projeções de inflação – o erro acumulado desde setembro de 2016 monta a 1,81 ponto percentual. E mais: não há nenhum indicativo de que vai parar de errar.

A isso se soma uma comunicação bastante errática. Ele se amarra em determinados movimentos, sejam em comentários que acompanham a decisão estrita sobre a Selic ou em eventos no exterior, e depois tenta consertar, indo atrás de graus de liberdade que ele mesmo perdeu por declarações próprias.

A última decisão do Copom foi sintomática nesse sentido. Ele sinalizou claramente que reduziria o ritmo de cortes na Selic por conta da incerteza gerada pelo efeito do áudio Temer-Joesley, que poderia dificultar as reformas fiscais, depreciar o câmbio e gerar pressões inflacionárias.

Escrevi na época que se tratava de uma interpretação equivocada. Que o choque era, na verdade, desinflacionário. Com o câmbio bem comportado, simplesmente abortaríamos uma incipiente recuperação ou, ao menos, essa perderia força, e os efeitos, em termos líquidos, seriam de menor inflação, não maior.

Com efeito, a realidade pareceu se impor e agora as projeções de corte de um ponto percentual na Selic na próxima reunião do Copom já são predominantes, desafiando a própria sinalização oficial do BC.

O próprio Ilan tenta corrigir-se, embora finja não precisar fazê-lo. Em entrevista recente, acaba de dizer que a soma dos efeitos inflacionários e deflacionários daquele 18 de maio parece neutra. Ora, se o tal áudio Temer-Joesley não tem efeito líquido para qualquer um dos lados, como o próprio presidente do Banco Central admite, por que ele se comprometera com uma desaceleração do ciclo de cortes da Selic?

Com essa comunicação errática, o Banco Central fere um dos princípios primordiais para a conquista de credibilidade da autoridade monetária. No clássico Central Bank Credibility: Why Do We Care? How do We Build It?, Alan Blinder é claríssimo: o Banco Central deve sinalizar o que vai fazer, e fazer o que havia sinalizado.

Não é o que tem acontecido. As sinalizações são truncadas, marcadas por idas e vindas.

Talvez o mais problemático da coisa seja o fato de que, quando se propõe um debate mais aprofundado sobre a atuação do Banco Central, como fez André Lara Resende com seu brilhantismo e sua erudição de sempre, os invejosos da Física insurgem-se rapidamente e tentam defenestrar o mensageiro.

Embora eu resista fortemente a acreditar na aplicação prática da ideia de que juros altos causam inflação mais alta, se até o Banco Central admite que o problema estrutural é fiscal, talvez o argumento de André Lara Resende mereça maior carinho.

No mesmo sentido, se as empresas estão altamente endividadas, o juro mais alto pode atrasar a recuperação, implicando arrecadação cadente ou estagnada e dificuldades adicionais para o ajuste fiscal, novamente dando forças, por via indireta, à hipótese de André Lara Resende.

A punchline, como diria o querido professor Evaristo, é a seguinte: o Banco Central continuará atrás da curva. Com a realidade se impondo aos poucos, ele será obrigado a cortar a Selic mais do que se supõe no momento. O apreçamento dos prefixados em torno de 2019 me parece bastante fora do lugar, pois não há razão de se esperar alta de juro para frente em meio à inflação abaixo da meta em 12 meses e tanto desemprego.

Esta terça-feira trouxe novos indícios de completa ausência de pressões inflacionárias. Primeira prévia de julho do IGP-M trouxe deflação brutal de 0,95 por cento, contra expectativas mais moderadas de queda. Trata-se de mais uma evidência em prol de corte de 1 ponto percentual na Selic. Juros futuros reagem ao indicador com ligeira queda, contrabalançada por exterior um pouco mais negativo e aumento dos yields lá fora.

Petróleo recua no exterior com investidores questionando capacidade da Opep equilibrar oferta e demanda. Dados da API hoje nos EUA são monitorados de perto.

Brainard, do Fed, discursa em dia de agenda fraca, marcado por estoques no atacado norte-americano.

Por aqui, reforma trabalhista deve ser aprovada, o que é claramente boa notícia, embora bastante apreçada pelo mercado. Cena política segue monitorada de perto, com crescente especulação de troca de governo – o próprio Rodrigo Maia teria dito que a queda de Temer, cedo ou tarde, é inexorável. Em sendo o caso, me parece boa notícia. Vai ter volatilidade, mas evita um custo fiscal maior da permanência do atual presidente e aumenta chances de aprovação de uma reforma mínima da Previdência.

Ibovespa Futuro abre perto do zero a zero, buscando tendência, enquanto dólar sobe ligeiramente contra o real, em linha com o comportamento de moedas emergentes no exterior.

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Encerro este texto com o convite para a festa de aniversário de 1 ano da Luciana Seabra na Empiricus. Temos muito orgulho do que ela produziu neste período, simplesmente revolucionando a cobertura da indústria no Brasil, com portas abertas em todos os gestores e muita, mas muita mesmo, dedicação. O resultado de tudo isso você acompanha aqui.

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