Enquanto olham para a Previdência

É impressionante como, depois de o mercado andar para um lado e para o outro, sempre temos desculpas ressaltando a obviedade ex-post do movimento.

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Enquanto olham para a Previdência

Nos jornais do último mês só se falava em Previdência.

No final de outubro, tivemos a votação da segunda denúncia contra o presidente Temer. Na época, os jornais diziam que o mercado estava melhorando, pois estava entrando no preço que a segunda denúncia seria rejeitada, e que isso poderia aumentar as chances de a reforma da Previdência ser aprovada.

Depois do fato (ou da notícia), o mercado não melhorou; na verdade, piorou até, contradizendo algumas dessas matérias.

Agora, o papo é outro. Apesar da votação da segunda denúncia ter sido favorável ao governo, a mídia “entrou numas” de que a reforma não vai passar, e o mercado está de olho no “risco fiscal brasileiro”.

Detalhe que, na margem, com o papo de reforma ministerial, a chance da Previdência, mesmo que enxuta, certamente aumentou em relação a dois ou três meses atrás.

Eu confesso que acho tudo isso um pouco engraçado.

É impressionante como, depois de o mercado andar para um lado e para o outro, sempre temos desculpas ressaltando a obviedade ex-post do movimento.

Vocês que acompanham o Day One há mais tempo já estão carecas de saber o nome que Nassim Taleb dá a esse fenômeno. Vamos lá, todos juntos: Falácia Narrativa.

Por que eu não concordo com esse blá-blá-blá?

Embora sejamos um país alegre, cheio de belezas e riquezas naturais, criadores do brigadeiro e da caipirinha, somos quase irrelevantes no mercado mundial.

O “gringo”, quando sai de mercados desenvolvidos para investir em países emergentes, nunca entra seco em apenas um. Ele investe em um pacote de países, exatamente pelo fato de a instabilidade política e econômica desse grupo gerar altos riscos idiossincráticos.

Por conta disso, movimentos de valorização e desvalorização do preço de ativos locais são frequentemente coordenados com pares emergentes mundiais.

Para sabermos se especificamente um país está melhor ou não que os outros, é preciso olhar a performance de seus ativos comparando-os com uma média emergente.

Por exemplo, em 2015, com o segundo governo catastrófico de Dilma Rousseff, o real sofreu uma desvalorização de 47,45%.
Isso foi idiossincrático?

Vamos analisar o resto dos emergentes…

México – 16,27%
Turquia – 23,93%
Rússia – 23,11%
Austrália – 10,86%
África do Sul – 33,87%
Chile – 16,17%

Média (incluindo o Brasil): – 24,52%
DXY (dólar contra uma cesta de moedas): + 9,25%

Ou seja, aqui podemos observar claramente que a desvalorização do real foi o DOBRO da média dos emergentes. Fica claro que a piora extra foi por motivos idiossincráticos. No caso, a Dilma.

Agora, vamos fazer a mesma análise para o período da metade de setembro para cá, quando todos na mídia disseram que a piora do real estava relacionada à baixa probabilidade da reforma da Previdência e do risco fiscal brasileiro:

Brasil – 6,58%
México – 8,53%
Turquia – 13,38%
Rússia – 4,11%
Austrália – 5,6%
África do Sul – 10,38%
Chile – 2,08%

Média (incluindo o Brasil): – 7,23%
DXY (dólar contra uma cesta de moedas): + 2,2%

Aqui fica mais que do claro que o Brasil não só está TOTALMENTE em linha com a desvalorização dos emergentes, como também está abaixo da média.

A título de curiosidade, todas essas moedas, assim como o inverso do DXY, fizeram o seu nível mínimo de cotação em meados de setembro, também de forma conjunta.

Ou seja, não temos na margem nenhuma piora idiossincrática por conta do fiscal ou da Previdência, embora certamente ambos sejam um risco grande para a nossa economia.

O que acontece é uma redução de investimentos nos países emergentes em nível global, por conta do crescimento nos EUA, risco de inflação e medo das políticas de Donald Trump.

Durante o feriado de ontem, enquanto você tomava sol e aproveitava o dia maravilhoso que fez (pelo menos em São Paulo), o mercado americano sofria bastante, com notícias negativas a respeito da aprovação da reforma tributária de Trump – que será votada hoje!

Aparentemente, ele estaria sofrendo resistência do próprio partido.

Os emergentes, por outro lado, gostaram da fofoca, já que essa oposição reduz o risco inflacionário e de aumento dos juros.

Por aqui, Temer elabora sua reforma ministerial, de tal forma que ela viabilize a aprovação da minirreforma da Previdência. A conferir…

Ibovespa abre com alta de 0,6%, real valoriza 0,35%, e juros caem em torno de 5 bps.

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