Princípios: ainda somos os mesmos, nove anos depois

Levaremos até a pessoa física ideias iguais ou melhores do que as cultivadas entre investidores profissionais, embora sob uma linguagem mais simples e direta do que a praticada entre os financistas.

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Princípios: ainda somos os mesmos, nove anos depois

Nesse final de semana, a Empiricus completou nove anos de vida. Olhando para trás, tenho uma certeza: foi uma grande irresponsabilidade. Não tínhamos processos, tecnologia, business plan. Nem mesmo escritório nós tínhamos – eu e o Rodolfo trabalhávamos, literalmente, na garagem de uma casa abandonada de um dos sócios à época.

Empresarialmente, o objetivo era muito claro: sobreviver. Se pudéssemos, sei lá, ter uns cem clientes, que nos pagassem as contas, estaríamos ok com aquilo. Não tínhamos a menor ideia, nem mesmo a pretensão de sermos o que somos hoje. Não tome isso como arrogância – sei de nossa insignificância e do quanto fomos ajudados pela sorte no processo (nada contra; venha sempre!). Além disso, encaro esses nove anos apenas como o início de uma caminhada na direção de outros 90. Mas eu mentiria se dissesse não estar surpreso com os mais de 300 mil assinantes que consolidamos no Grupo Acta.

Também não quero romantizar em excesso a caminhada. Essa história de “começar na garagem” parece sempre muito saudosista e heroica, quando, na verdade, foi um tanto sofrida e real demais para permitir uma narrativa hollywoodiana. Até hoje, isso aqui é tiro, porrada e bomba. Você pode imaginar como era antes…

Naquele começo, éramos analistas de ações, administrativos, financeiros, copeiros, faxineiros. Todas as atividades feitas com a mesma dedicação e afinco, o mesmo sorriso no rosto.

Varrer o próprio lugar de trabalho e esfregar as sujeiras do chão com o material de limpeza mais barato que você encontrou no Pão de Açúcar formam caráter. Lembro de um dia em que o mundo parecia acabar. De onde vinha tanta chuva? A casa não tinha estrutura alguma. Estávamos com a água pelos joelhos e tivemos de sair às pressas carregando computadores, impressora e telefone.

Era quase tudo que tínhamos. Fora isso, carregávamos apenas uma lista de e-mails de amigos do mercado e também de desconhecidos, que roubamos da internet contendo os endereços eletrônicos de alguns financistas – acho que já prescreveu, né?

O intangível era muito mais importante: dispúnhamos de um propósito e muita coragem. Obedecíamos a uma vocação: levar à pessoa física investimentos tão bons ou melhores do que aqueles realizados pelos profissionais do mercado, de forma não conflitada e totalmente transparente. Além da sorte, tenho certeza de que foi essa obstinação, realizada de forma até doentia e obsessiva em alguns momentos, que nos permitiu chegar até aqui. Uma espécie de “força estranha”, para usar as palavras do Caetano.

A etimologia de “coragem” remete ao latim “coraticum”, composto por COR, em referência ao coração, e pelo sufixo “aticum”, usado para indicar uma ação relativa ao radical anterior. Contamos a história de quem somos com todo nosso coração, agimos de forma apaixonada (a paixão mora no coração, não é?).

Encerramos o primeiro relatório Empiricus, lá em novembro de 2009, assim: “Em seu início de operações, a Empiricus presta uma homenagem ao tenente Aldo Raine, líder de uma milícia que combate nazistas no filme Bastardos Inglórios. Com poucos soldados sob sua tutela, a personagem de Brad Pitt coloca o terror no Eixo. Queremos algo semelhante”.

Parece até premonitório. Não desviamos um milímetro do espírito do parágrafo acima. Se há um motivo de orgulho nessa vida profissional, é de termos nos mantido fiéis a nós mesmos.

Hoje eu preciso agradecer àqueles que permitiram isso aqui. Primeiro, a todos os colaboradores da Empiricus, aos atuais e aos que simplesmente passaram por aqui, deixando sua marca e sua ajuda nesta trajetória.

Mais importante, porém, é o agradecimento ao assinante das nossas publicações. Você é a nossa razão de existir – não é apenas um papo cafona, repetido para soar politicamente correto. Esta newsletter se chama Day One em referência a Jeff Bezos, que mantém na Amazon uma máxima inabalável: “Foco no cliente; é só ele que interessa”.

Não estamos aqui preocupados com suposto regulador, com a imprensa, com os ditos concorrentes, com a política, nem mesmo com a nossa reputação. O nosso foco é o assinante. E ponto final.

Se eu tenho alguém que gostaria de homenagear hoje, para ocupar o lugar de Aldo Raine nove anos atrás? Eu penso no Mick Jagger, que está fazendo rock’n’roll há mais de 50 anos. O sujeito que é cavaleiro da coroa britânica ao mesmo tempo em que é um transgressor indomável. Todo dia, um novo começo, com a mesma disposição, o mesmo ímpeto. Que os nove anos sirvam para nos trazer mais serenidade e sabedoria, sem que nos institucionalizemos e nos tornemos obedientes. Day One sempre. A pior coisa que pode acontecer a um investidor, ou a um empreendedor, é ele ser domado. Não percamos a fome. Há muita coisa pela frente. I can’t get no satisfaction.

Ao longo dessa caminhada, formulamos os princípios que norteiam a Empiricus. É um documento interno, distribuído aos novos colaboradores e revisado periodicamente. Por ocasião de nosso aniversário, divido com você nossos 10 mandamentos. Antes lhe convido para conferir a promoção de aniversário, com o maior desconto já praticado por nós no oferecimento de novas assinaturas. Confira aqui.

Finalmente, aos princípios:

1.0 Somos movidos pelo propósito de ensinar a pessoa física a investir conscientemente, de forma autônoma e mirando a mais alta performance.

1.1 Levaremos até a pessoa física ideias iguais ou melhores do que as cultivadas entre investidores profissionais, embora sob uma linguagem mais simples e direta do que a praticada entre os financistas.

1.2 Se pudermos fazer isso com leveza e diversão, tanto melhor.

2.0 Somos contra o Financismo; isto é, somos contra os traços de arrogância, vaidade, cientificismo, oportunismo e culto ao dinheiro (pelo dinheiro) que caracterizam a cultura estereotipada da Faria Lima.

2.1 Somos contra a visão preconceituosa de que o investidor pessoa física não tem condições de compreender e replicar ideias “arrojadas” de investimento.

2.2 Se o investidor pessoa física não consegue compreender e replicar, a culpa é de quem está apresentando a ideia, e não do investidor.

2.3 Sim, pessoas físicas podem investir em opções, desde que estejam devidamente cobertas em suas posições, com perdas limitadas.

2.4 Partimos sempre da premissa de que nosso leitor é mais inteligente, mais responsável e mais interessado do que o financista médio da Faria Lima.

3.0 Temos skin in the game. Ou, numa linguagem informal, gostamos sempre de botar o nosso na reta.

3.1 Se as ideias de investimento que concebemos são ruins, nossos leitores perderão dinheiro e nós perderemos leitores. Não devemos atribuir isso ao azar.

3.2 Se as ideias de investimento que concebemos são boas, nossos leitores ganharão dinheiro e nós ganharemos leitores. Ainda assim, devemos ter em mente que a sorte cumpriu um papel importante aí.

3.3 Se algum sócio, colaborador ou fornecedor presenciar qualquer tipo de fraude em nosso ambiente de trabalho e não gritar “fraude!”, então podemos assumir que esse mesmo sócio, colaborador ou fornecedor também é uma fraude.

4.0 Somos uma empresa de pessoas, muito antes de sermos uma empresa de processos.

4.1 Pessoas inteligentes e de caráter sabem desenvolver e implementar os melhores processos para si mesmas, para suas áreas e para a empresa como um todo.

4.2 Pessoas inteligentes e de caráter não são escravas de processos. Bons processos existem até que se encontre um processo melhor.

4.3 Processos e controles nunca serão mais importantes do que vender assinaturas e cultivar um bom ambiente de trabalho.

5.0 Somos uma empresa laica e cética, sobretudo no sentido epistemológico.

5.1 Nosso nome é inspirado em Sextus Empiricus, o pai do ceticismo e do empirismo.

5.2 Não devemos nos apaixonar por ideias paradisíacas antes que elas sejam mundanamente testadas.

5.3 A única ditadura que apoiamos é a ditadura do teste. Ninguém está certo a priori. Não existe hipótese nula, todas as hipóteses são alternativas e devem ser testadas em paralelo.

5.4 Números e estatísticas são essenciais para a tomada de decisão, mas não tomam a decisão por si mesmos. “Decidi dessa forma por causa dos dados” é a versão século 21 para “estava apenas obedecendo às ordens do meu superior”.

5.5 Sabemos que ideias formidavelmente aplicadas em outras empresas podem ser um lixo para nós, e vice-versa.

5.6 Tentamos nortear nossas decisões na meritocracia de ideias, em que muitos votam e o voto de cada um é ponderado pela experiência e expertise no respectivo tema, e não em hierarquia ou networking.

5.7 Controle seu ego e seu desejo de controle. Nosso negócio é altamente complexo. Ninguém, por si só, consegue lograr êxito com ele. Confie nas decisões dos outros. Sinta-se feliz em tocar na banda e sinta-se parte do sucesso da banda.

5.8 Não fazemos previsões. Pensamos em termos de assimetrias e payoffs. Gostamos de apostar centavos para ganhar reais, e não o contrário.

5.9 Como corolário, não sabemos onde vai estar o dólar em dezembro de 2059.

6.0 Ready, fire, aim. Apontamos, atiramos e só depois preparamos. Não adianta dedicar meses a um novo projeto se você não sabe ainda, no nível mais básico, se aquilo funciona.

6.1 Primeiro dê um tiro (rápido e barato) e depois sintonize sua mira. Fazer é mais importante do que ter uma ideia genial. Fazer é mais importante do que se vestir bem.

6.2 Se você falhar, dane-se. Ninguém vai te achar pior por isso. Ao contrário, pior é quem nunca topa falhar.

6.3 Sob o risco de falha, sinta-se seguro de que está falhando rápido e em proporção pequena, para que você possa tentar outra ideia em breve. Fail fast, fail small.

6.4 Ready, fire, aim não significa fire, ready, aim. Aprenda a domar sua ansiedade.

7.0 Prezamos pela transparência radical. Ainda que ela não possa ser alcançada integralmente, devemos tê-la como norte.

7.1 Discutimos e discordamos de maneira respeitosa, sempre visando uma decisão final que seja a melhor para a empresa.

7.2 Se essa decisão final não lhe agrada, mas foi eleita pela meritocracia de ideias, não tente boicotá-la.

8.0 Queremos atrair pessoas boas e que têm tesão em trabalhar.

8.1 Estamos cagando para currículos, cargos e salários. Você pode ter enorme sucesso aqui com um MBA em Harvard ou sem curso superior.

8.2 Julgados pelas metas e pelo desenvolvimento, todos participam dos bônus semestrais e todos são candidatos a virar sócios um dia.

8.3 Sabemos que processos seletivos não servem para nada.

8.4 Prezamos pelo respeito às oito horas de trabalho por dia útil. Use o restante do tempo para curtir sua família, estudar, fazer esportes, etc. Volte descansado e empolgado para trabalhar no dia seguinte.

8.5 Prezamos pela informalidade sadia. Fale sobre trabalho como se estivesse falando com um amigo ou familiar (de quem você gosta).

8.6 Não jogamos ping pong no escritório e não trabalhamos de bermuda.

8.7 Estimulamos a capacitação e os instrumentos de trabalho necessários para que cada colaborador possa dar o melhor de si.

8.8 Valorizamos e reconhecemos o mérito. Produtividade é mais importante do que relacionamento e ambos são mais importantes do que tempo de casa.

9.0 Somos liberais no sentido clássico. Somos contra o intervencionismo, contra o desejo de controle. Somos a favor da eficiência do livre mercado e a favor da tentativa & erro.

9.1 Somos a favor da diversidade. Somos contra os intolerantes.

9.2 Somos a favor da igualdade de oportunidades. Somos contra privilégios.

9.3 Somos a favor da concorrência (inclusive, nossa própria concorrência). Somos contra monopólios.

10.0 Somos diferentes da média.

10.1 Somos contra o mainstream. Somos contra as capas de jornais e contra a espiral de silêncio da imprensa.

10.2 Somos contra discursos moralistas e regulatórios que visam preservar o status quo.

10.3 Somos contra o consenso geral. Nunca seremos amados por todos.

10.4 Sem problemas, pois não queremos ser amados por todos. Queremos ser muito amados por alguns.

10.5 Jamais venere a Empiricus. Não somos uma religião, não somos exemplo para ninguém. Estamos aqui tentando conviver com nossos graves defeitos.

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