Post Lula ergo propter Lula

Dólar e Bolsa brasileira podem ter respondido a uma série de fenômenos de cunho aleatório, técnico, conjuntural ou estrutural. Numa abordagem agnóstica, poderíamos substituir o trecho "com Lula preso" por uma infinidade de outros motivos.

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Post Lula ergo propter Lula

Na capa da “Folha de S.Paulo” de hoje, você lê a manchete principal:

Obs.: nada específico em relação à “Folha”, poderia ser qualquer outra publicação.

Qual é a conclusão imediata que se extrai daí?

Ou melhor: qual é a conclusão que o jornal oferece de pronto aos seus leitores?

A prisão de Lula desagradou o mercado.

Ao abrir a reportagem, descobrimos a tese defendida: a saída de Lula da disputa eleitoral deixa o cenário eleitoral mais incerto.

Assim, somos levados a intuir que a certeza de Lula era preferível à incerteza do ex-Lula, que agora dá margem a candidatos extremistas.

Dólar e Bolsa brasileira podem ter respondido ontem a uma série de fenômenos de cunho aleatório, técnico, conjuntural ou estrutural.

Fenômenos – devemos admitir – que transbordam nosso senso de compreensão enquanto indivíduos, e que só podem ser alcançados quando todas as nossas mãos, abraçadas, se tornam invisíveis.

Ainda assim, tais fenômenos são ignorados em prol de uma causa única, perfeitamente verossímil: a prisão de Lula.

Numa abordagem agnóstica, poderíamos substituir o trecho “com Lula preso” por uma infinidade de outros motivos.

“No primeiro dia útil com Aretuza Lovi lançando o single ‘Arrependida’, dólar sobe e Bolsa cai”.

“No primeiro dia útil com Camaro de novo visual e câmbio do Mustang, dólar sobe e Bolsa cai”.

Por que essas duas versões lhe parecem malucas, enquanto a versão de Lula cabe como uma luva em seus anseios causais?

What You See Is All There Is – o WYSIATI de Daniel Kahneman.

Em tese, correlação não deveria implicar causalidade.

Mas quando teimamos em ver apenas uma correlação, apenas uma, por toda parte, what you see is all there is, a causalidade fica tentadora demais, principalmente para os jornalistas e analistas de mercado.

Em algum momento de sua vida passada, você deve ter se deparado com um livro de “Onde Está Wally?”.

Enquanto você procura Wally obstinadamente, outros elementos absurdos da cena são completamente ignorados por seu cérebro.

Então deixe eu lhe contar mais um segredo por hoje: não existe “stock screening”.

Ninguém puxa um ranking de ativos com base em filtros de seleção e simplesmente resolve investir no topo da lista.

Nós, investidores, nos apaixonamos por certos ativos, graças a certos motivos, que pouco devem ao primeiro dia útil com Lula preso.

No momento – devo confessar –, estou apaixonado por esta ideia aqui.

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