Quanto mais quente melhor

Copio a ideia da Bloomberg em seu “Cinco assuntos quentes para o mercado hoje”, embora os temas aqui não sejam assim tão quentes, apenas refletem ideias para levar em conta antes ou no processo de investir.

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Quanto mais quente melhor

Não dá para competir com a Marilyn Monroe. Se ela está no filme, topo até os musicais. No clássico “Quanto Mais Quente Melhor”, dois músicos de jazz assistem, por acaso, ao Massacre do Dia de São Valentim, quando, na época da Lei Seca, lá por 1929, sete pessoas foram executadas em Chicago pela gangue de Al Capone.

Para fugir dos gângsteres, as duas testemunhas, interpretadas no filme por Tony Curtis e Jack Lemmon, travestem-se de mulher, sob vestidos longos e muita maquiagem, entrando para uma banda de donzelas na Flórida.

Sou um sujeito de mente aberta, mas quando frequentava as baladas mais undergrounds de São Paulo, no começo dos anos 2000, tinha certo receio de me envolver com Tony Curtiss ou Jack Lemmons da vida – se é que você me entende…

Mais vale um bêbado conhecido do que um alcoólico anônimo, não é mesmo?

Esse é o primeiro tópico de cinco que seguem hoje conforme abaixo. Copio a ideia da Bloomberg em seu “Cinco assuntos quentes para o mercado hoje”, embora os temas aqui não sejam assim tão quentes, apenas refletem ideias para levar em conta antes ou no processo de investir.

Às vezes, copio tanta gente que me pego com medo de copiar a mim mesmo.

1. Mais vale um bêbado conhecido do que um alcoólico anônimo

Os dois leitores desta newsletter talvez já entendam de primeira o que quero dizer com o termo Pós-História. É uma espécie de reação autocrática em vários lugares do mundo à hegemonia da tese da democracia liberal e aos valores ocidentais, como um todo, presentes desde a queda do Muro de Berlim.

O que mais me preocupa nisso tudo é que adentramos mares nunca dantes navegados. Estamos em terreno desconhecido, sem saber como a democracia liberal de EUA, Europa e Japão vai conviver com antíteses de Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Bashar al-Assad (Síria), Recep Erdogan (Turquia), Nursultan Nazarbayev (Cazaquistão).

Não sabemos o que esperar. A cada manhã, checamos o Twitter de Donald Trump antes mesmo de olhar o Instagram da Gabriela Pugliesi – e eu falo por experiência própria: whisky e 140 caracteres formam uma combinação perigosíssima.

Os riscos desconhecidos, justamente os mais problemáticos, aumentam em volume e intensidade. Somos como Luke Skywalker na Estrela da Morte sem seu sabre de luz. Perdemos a perspectiva história para servir-nos de guia sobre o futuro, justamente porque estamos diante de uma situação absolutamente nova e sem precedentes.

Não me preocupo tanto com o aumento da subida dos juros nos países desenvolvidos, nem com as eleições brasileiras – esses são riscos conhecidos, devidamente monitorados e escrutinizados. Ninguém escorrega na casca de banana à frente se sabe de sua presença ali. Os riscos realmente relevantes são aqueles que sequer sabemos que existem. Os tais “unknown unknowns” de Donald Rumsfeld, em referência às coisas que sequer sabíamos que não sabíamos sobre a guerra do Iraque.

A Pós-História pode nos trazer cisnes negros (eventos de alto impacto, imprevisíveis e considerados raros) com mais frequência do que julga a nossa vã filosofia.

Como corolário prático, talvez estruturalmente devamos conviver com mais hedge e ativos livres de risco no portfólio, ainda que isso possa representar abrir mão de retorno potencial num primeiro momento, em troca de muito mais proteção.

2. Uma aposta sobre o bitcoin

Com a educação e a supercialidade que lhes são costumeiras, há vários haters das criptomoedas apregoando o estouro da bolha do bitcoin. São as viúvas de Warren Buffett, críticas de moedas digitais e da Tesla – todos príncipes na vida, sempre campeões em tudo.

Não tenho a menor ideia se bitcoin vai subir ou cair, sinceramente. Pra falar a real, acho que ninguém tem, sobre nada aliás. Tudo acaba decidido no final do dia por alguma força aleatória que chega atropelando tudo de maneira contumaz. Ninguém sabe nada e os preços acabam definidos pela narrativa predominante, não pela suposta realidade material, que até hoje questiono se existe mesmo. Penso, logo desisto.

Nesta internet sem lei, proponho hoje uma aposta. Eu estou aqui long (comprado) em meus seis bitcoins, atraído pela convexidade de seu perfil de retornos – posso ganhar muito mais do que perder; e, sim, estaria bastante “ok” se viesse a perder tudo que investi, pois sei dos riscos e estou de acordo com eles.

Acho que seria razoável aos críticos assumir uma aposta short (vendida) contra as moedas digitais valendo pelos próximos dois anos; olho no longo prazo, como gostam os fundamentalistas. Sei que por aqui não é possível na prática, mas poderia ser algo firmado no fio do bigode, como costumam fazer os homens de verdade, frente à frente, olhando nos olhos e apertando as mãos firmemente (fique claro: não se trata de questão de gênero, mas de honra). Teriam coragem?

Uma opinião sem exposição vale zero.

Nunca assuma uma posição em que seu perfil de retornos seja côncavo, em que você pode perder muito mais do que ganhar. Isso pode quebrar você e expulsá-lo do jogo de forma definitiva. Aposte centavos para ganhar dólares, nunca aposte dólares para ganhar centavos.

3. Quem é o presidente?

Com o início formal da campanha eleitoral e todo esse rolo da candidatura do PT, surge a pergunta: Haddad é ou não é Lula? E outra: O que seria melhor pra ele?

Acho fundamental refletirmos sobre isso, num momento em que os mercados dividem maiores preocupações entre a crise na Turquia e um eventual segundo turno entre PT x Bolsonaro.

Minha crença, ao menos neste momento (até que aconteça um black swan logo ali na frente), é que a transferência de Lula para seu poste não será tão grande.

O cidadão representativo parece cansado do PT e dessa chicana jurídica, que agrada os convertidos mas causa ânsia de vômito nos demais, justamente aqueles que precisam ser convencidos.

Tento me colocar na posição do eleitor.

Se Haddad é Lula, ora, então estou votando num candidato que não será o presidente de fato. Pragmaticamente, elegeremos um sujeito que está preso e vai governar da cadeia. Não parece razoável.

Já se Haddad não é Lula, a transferência de votos necessariamente não será automática. Lula é maior do que o PT, principalmente depois do governo Dilma – um dos efeitos colaterais dos laxantes prescritos pela dieta da ex-presidente foi causar a inesperada evacuação também de seu cérebro.

O voto na pessoa (não no partido) não é ideológico, é um voto estomacal. É o sujeito que vota pela lembrança da melhora da qualidade de vida do Lula 1 sobretudo, com evolução do Gini, incremento das transferências aos mais pobres e rápido crescimento econômico. Quando eu participei daquela fatídica reunião em que discutia-se o apoio do PT à candidatura de Ciro Gomes, a expectativa otimista ali era de que o apoio de Lula renderia 10 pontos percentuais nas pesquisas de intenções de voto. Ou seja, hoje com 2%, Haddad iria para 12%. Ainda precisaria de mais um pouco para ir ao segundo turno.

4. Mesmo que me aperte essa sensação sem nome, Ou que me faça engolir a seco a minha sede é de Ângela, Ângela, Ângela

Matéria da brilhante Ângela Bittencourt, para quem já declarei meu amor profissional privado e agora faço publicamente, chama atenção para a enorme posição comprada em derivativos cambiais por investidores institucionais. A aposta na alta do dólar seria um “crowded trade” (concentração muito grande na mesma ponta, o que torna o técnico da posição ruim).

Com isso em mente, não subestimaria um “overshooting para baixo”(existe isso?) no caso de eleição de um candidato reformista, indo rapidinho para casa de 3,50. Aos níveis atuais, e ponderando a matriz de probabilidades à frente, não vejo assimetria no dólar (o que é diferente de não recomendar a compra de moeda estrangeira como hedge e instrumento de diversificação – vale ler o último Palavra do Estrategista).

No mesmo jornal Valor, também se fala de “posição técnica mais leve” em ativos de risco brasileiro, o que pode amenizar eventual potencial de desvalorização de Bolsa e juro longo.

É aquela ideia de que o mercado é um teatro grande com uma porta pequena. Se alguém grita “fogo”, pode dar pânico – mas se não houver ninguém dentro do estabelecimento, não há pânico algum. Vamos perder algumas cadeiras e uma tela grande para o incêndio, mas vida que segue.

5. Hoje vai ter uma festa

Encerro com uma novidade muito prazeroso. Depois de muito esforço da faz-tudo (e muito bem feito!) Priscila, conseguimos mais 50 cadeiras para nosso evento de final de ano com o Richard Thaler, Pedro Malan e José Cordeiro, sendo o primeiro o keynote speaker, por razão óbvia de um prêmio Nobel nas costas.

Não sou defensor xiita das finanças comportamentais. Em alguns aspectos, é uma espécie de protociência, como alerta Taleb. Como esclareceu Gerg Gigerenzer, os vieses cognitivos apontados pelas finanças comportamentais não são nada além de racionalidade ecológica – o único conceito possível de racionalidade precisa se ligar à sobrevivência.

Mas gosto muito das finanças comportamentais, principalmente porque tratam o ser humano como ele é, como ele age de fato, como toma atitudes e estabelece relações. Elas não estudam o homem como gostariam que ele fosse ou como deveriam ser. Saímos do platonismo do homo economicus para lidar com o que somos, com as virtudes e as mazelas que isso representa. Ponto final.

Se as instituições e organizações do mercado financeiro se comunicassem com a pessoa física cientes do que ela é, em vez de apoiarem-se num cartilha sobre como deveria ser essa interlocução, não teríamos tanta gente na caderneta de poupança.

Agenda local é fraca, apenas com IPC-S e relatório Prisma da Fazenda. Nos EUA, saem pedidos de auxílio-desemprego, construção de casas iniciadas em julho e atividade na região da Filadélfia.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,7%, dólar e juros futuros caem.