Quanto vale um negócio deste?

No mundo dos investimentos, nós sempre saberemos menos do que gostaríamos e precisaríamos. Em outras palavras, as respostas perfeitas são inatingíveis. Mas, se pudermos formular as perguntas certas, conectando causas e efeitos adequadamente, poderemos escolher melhor.

Compartilhe:
Quanto vale um negócio deste?

Hoje é um dia de grande realização pessoal. Nesta segunda-feira, 2 de abril, voltamo-nos a nós mesmos, àquilo que temos de mais íntimo.

Há várias Empiricus dentro de uma só. Não tenho a pretensão de impor a minha a ninguém, nem mesmo internamente a meus sócios. Cada um dá a uma obra a interpretação que julgar apropriada. Você a vê como quiser. E tudo bem. “Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar”, copiando Clarice Lispector.

Todos nós aqui, porém, nutrimos um propósito: publicar ao investidor pessoa física ideias de investimento tão boas quanto aquelas adotadas pelos profissionais de mercado. Essa é nossa razão de existir. Wall Street e Main Street no mesmo nível, sem espaço para negociação.

Isso se choca com a visão mais tradicional, que pretende alijar o investidor de varejo de aplicações e estratégias supostamente mais sofisticadas e arriscadas. Parte da Faria Lima parece acreditar ser dotada de certos poderes especiais, de que só ela pode acessar determinadas categorias de investimento. Os outros, não. É o narcisismo das pequenas diferenças. Pessoalmente, carrego uma tese muito particular: acho que, sob determinadas circunstâncias, as pessoas físicas podem até estar em vantagem sobre as demais. Mas isso é assunto para outro dia.

Hoje estamos em festa, um misto de realização e gratidão. Encontrar-se consigo mesmo é uma das minhas maiores motivações. Por isso, a comemoração. O agradecimento vem a quem se dispõe a ajudar. Não a ajudar a Empiricus . Mas a colaborar com o desenvolvimento do investidor pessoa física, por vezes sem acesso ao mesmo nível de informação e de estratégias do investidor profissional. Compartilhar visões com o varejo é, em última instância, ajudar o próprio mercado de capitais brasileiro e sua democratização.

Por isso, Rogério, muito obrigado. Sei que você não precisava fazer isso. E como já te disse direta e sinceramente, nem me acho digno de mantermos essa conversa. Não pode haver diálogo aqui, no sentido de troca de ideias entre duas pessoas. Você fala, eu aprendo. Só. Via de mão única.

Gratidão não é um sentimento para todo mundo. Felizmente, papai me ensinou a ter. Foram poucas pessoas que me estenderam as mãos ao longo da vida. Dessas, não esqueço. Nunca esquecerei.

Os assinantes do Tesouro Empiricus e do Renda Fixa ganham hoje acesso a um relatório escrito pelo gênio Rogério Xavier. Considerando o período de existência da SPX, Rogério é, para mim, o melhor gestor do Brasil e top 10 mundo.

Procuro as palavras para transmitir meu sentimento nesta manhã. Não sei se consigo passar a dimensão disso. É o sujeito que gerou o melhor retorno ajustado por risco do Brasil, que não dá entrevistas, totalmente discreto, world class, falando diretamente para você. Isso não está disponível em lugar algum.

Quanto vale um negócio deste?

Informação é a coisa mais valiosa para a tomada de decisão de investimento. Na escala de valor desse negócio, funciona assim: dados valem zero. É totalmente commodity e isso não vai te levar a lugar algum. Notícia vale quase zero. Segue basicamente o mesmo princípio. Opinião já oferece algum valor. Por sua vez, recomendação merece um bom dinheiro. E sabedoria vale infinito.

Hoje você tem a oportunidade de conversar com um sábio. “Sinta a força”, recomenda o mestre Yoda.

Recado dado, preciso escrever minhas próprias palavras diárias. E se o faço agora é por mero dever de ofício, disfarçando certo constrangimento em ter de redigir algo no mesmo dia do Rogério. Respeitado um minuto de silêncio e pedidas as necessárias desculpas por equivocadamente transmitir, mesmo sem querer, alguma ideia de paralelismo aqui, começo meu texto (do Felipe) diário.

Vamos lá…

“E a crítica que não toque na poesia
O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones
Já não cabem no mundo do Time Magazine
Mas eu digo
Que o que já não cabe é o Time Magazine
No mundo dos Rolling Stones, Forever Rockin’ And Rolling”
Ela me deu um beijo na boca – Caetano Veloso

Quando eu dava aulas no mestrado da FGV, sempre encerrava minhas provas com as seguintes questões: “Qual a pergunta mais relevante que se deve fazer sobre o conteúdo do curso até aqui? Por quê?”.

Os alunos estranhavam aquilo. Na era da Wikipédia e das redes sociais, estão todos dispostos a vomitar respostas prontas, polarizadas e superficiais. Não há espaço para a ponderação, o contraditório e a contemplação sobre o que poderia ter sido, mas não foi, por mera imposição aleatória da maré das circunstâncias.

Da minha parte, era uma forma de forçar o rigor analítico e, talvez com certa pretensão, mostrar como a ciência, junto à tecnologia e ao dinheiro, era apenas o deus moderno, com as mesmas fragilidades do Original. Também sobre ela deveriam recair o ceticismo e o questionamento sobre a imposição do que estava consolidado na “fronteira do conhecimento”. O viés do pesquisador carrega os mesmos vícios dos fiéis mais dogmáticos. Sob tortura, os dados confessam qualquer coisa. E, se a realidade não couber nos modelos, problema da realidade, claro.

Enquanto os alunos estavam prontos para cuspir respostas imediatas – todos especialistas em tudo, desde Stephen Hawking aos 50 anos de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (completados agora) – eu queria ensinar a fazer as perguntas certas.

Curiosamente, fui descobrir só há pouco como essa capacidade passou a ser valorizada pelo mainstream. No já clássico “Organizações Exponenciais”, aparece escrito assim: “Estamos entrando em um mundo de dados abertos, APIs abertas e até algoritmos (aprendizado profundo) de código aberto. Se tudo isso é gratuito, o que é especial? Máquinas (IA) são ótimas para oferecer respostas, mas os seres humanos são melhores em fazer as perguntas certas. Políticas de RH se concentrarão em pessoas que sabem perguntar e cultivam um ambiente no qual as perguntas, perspectivas, arte e cultura são profundamente respeitadas”.

No mundo dos investimentos, nós sempre saberemos menos do que gostaríamos e precisaríamos. Jamais poderemos fazer a incerteza desaparecer. Em outras palavras, as respostas perfeitas são inatingíveis. Mas, se pudermos formular as perguntas certas, conectando causas e efeitos adequadamente, poderemos escolher melhor.

Nunca saberemos o que vai acontecer. Porém, poderemos nos perguntar: “E se ocorrer isso, como fica meu portfólio? E se rolar aquilo?”. E assim você vai se posicionando, calibrando as apostas a partir da multiplicidade de cenários potenciais, com os respectivos impactos para sua carteira, escolhendo as estratégias de maior assimetria entre perdas e ganhos esperados em cada um dos casos.

O guia prático de atuação, portanto, obedeceria à seguinte ordem:

  1. Formule as perguntas certas.
  2. Conecte os resultados possíveis de cada pergunta aos retornos potenciais em cada cenário.
  3. Procure as estratégias de assimetria convidativa entre o quanto você pode perder caso o cenário negativo se materialize frente ao quanto pode ganhar caso contrário.
  4. Anote seus critérios de decisão, sistematizando o processo. Isso vai mostrar-lhe ao longo do caminho se você estava mesmo certo ou não. Caso as coisas não caminhem na direção esperada, revisite sua prancheta (ok, seu tablet).
  5. Se estiver certo sobre alguma coisa, pergunte-se: como eu posso saber que estou certo?
  6. Lembre-se de que você pode estar terrivelmente errado.

Somente você pode saber as perguntas certas para suas decisões de investimento. As necessidades e os sonhos são sempre muito particulares. Se há a intenção de o filho fazer faculdade na Ivy League, provavelmente você terá de saber quanto as despesas em dólares vão representar dos seus gastos mensais. Isso pode ajudá-lo a saber quanto alocar na moeda norte-americana hoje, de tal modo a fazer o hedge perfeito de seu padrão de consumo futuro.

Já se suas pretensões são de ganho de capital e não ensejam necessidade de resgate a curto prazo, talvez possa incorrer num pouco mais de risco, comprando títulos longos e small caps de alto potencial de valorização, como as muito bem escolhidas pelo Max Bohm em sua série Microcap Alert.

Em contrapartida, possivelmente deseje aumentar sua renda, fazendo o dinheiro trabalhar para você. Então, uma carteira com muitos fundos imobiliários, ações de dividendos e NTN-Fs pode lhe ser útil.

Encerro com uma lista de perguntas que tem me sido cara. Não a tome como necessariamente caras também para você. Cada um convive com seus próprios demônios. Eu tenho vários e eles são terríveis.

Deixo aqui cinco deles como companhia:

  1. O Brasil terá condições de realizar as necessárias reformas fiscais para dar à dívida pública uma trajetória não explosiva? Ou, melhor, sendo um pouco mais rigoroso, e talvez aqui você já note certo direcionamento, o Brasil terá condições de não realizar nas necessárias reformas fiscais?
  2. A recuperação da economia brasileira, na ausência de cisnes negros no meio do caminho (receio de que essa seja uma premissa muito restritiva), está contratada para os próximos dois anos. Mas o que acontecerá com a inflação quando preenchermos a brutal capacidade ociosa hoje presente na economia brasileira? Quais seriam as implicações para a taxa Selic?
  3. Não estaria o ciclo das economias e dos mercados internacionais avançado demais? E poderíamos resistir a uma correção vigorosa no exterior? Desta vez é diferente ou o retorno da inflação norte-americana se trata de mera questão de tempo?
  4. Com o escândalo do Facebook, vai haver regulação muito pesada sobre as redes sociais e o Google? Trump irá mesmo para cima da Amazon agora? Esses gigantes, que caminhavam para uma espécie de oligopólio global, estariam prestes a encarar uma nova realidade?
  5. Com a hegemonia inquestionável da democracia liberal do Ocidente colocada à prova pela emergência de valores autocráticos, principalmente na China, mas também na Rússia, quais consequências podemos ter diante de mares nunca dantes navegados, naquilo que tenho chamado de Pós-História?

A parte boa dos demônios é que eles garantem a eliminação da monotonia. Replicando Ray Dalio, outro magnífico gestor e aqui, sim, arrisco certo paralelismo, “sempre temi mais o tédio e a mediocridade do que o fracasso. Para mim, grande é melhor do que medíocre, e terrível também é melhor do que medíocre, porque o terrível ao menos confere à vida certo sabor”.

A semana começa com expectativa por análise do habeas corpus de Lula no STF na quarta-feira – dá um certo tédio a promessa messiânica de jejum do procurador Deltan Dallagnol, mas… fazer o quê? As questões realmente importantes ainda importam: desdobramentos para as eleições do julgamento, a capacidade de transferência de votos do ex-presidente Lula e impactos sobre o risco institucional brasileiro.

Nesta segunda-feira em particular, mercados amanhecem no vermelho, acompanhando clima negativo no exterior. Bolsas asiáticas sentiram fraqueza, em dia de liquidez menor por conta de feriado na Europa. Retaliações chinesas à política tarifária norte-americana gera mal-estar. Wall Street sofre com ofensiva de Donald Trump sobre custos e impostos da Amazon.

Agenda doméstica traz prévia do Ibovespa, IPC-S e relatório Focus. Nos EUA, temos PMI manufaturas e gastos com construção.

Ibovespa Futuro registra queda de 0,4%, juros futuros avançam e dólar sobe contra o real.