Teste a B

A clara sinalização em comunicado do Copom de encerramento de ciclo de queda da taxa Selic, joga em favor de diminuição da inclinação e melhora do juro longo.

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Teste a B

Pressiono os olhos com a ponta dos dois dedos indicadores. Comprimo a pele do antebraço com o polegar e o médio até que a dor se torne insuportável, numa esperança de que o beliscão possa despertar-me deste pesadelo.

Estou aqui meio sozinho num call de NTN-B 2050. Ah, sim, você está certo, agora chama Tesouro IPCA+ 2050. Como um dinossauro teimoso, agradeço, mas dispenso a atualização da terminologia. Pra mim, BRF ainda é Sadia e Fibria nunca deixará de ser Aracruz. Notações à parte, revelo o interesse particular pelos indexados que vencem lá na frente. Pode ser também a B 35. Importa mesmo o espírito: gosto muito de posições em juro longão brasileiro neste momento.

Luciana me repreende – ela sempre me repreende: “O Stuhlberger acha cedo demais. O Rogério vê muito risco. E o Appel prefere muito mais Bolsa neste momento”. Faltou o Jakurski para completar o quatrilho inquestionável do argumento de autoridade – não ouvi a opinião dele sobre essa posição específica, mas pelo que pude escutar no Sohn Conference desconfio que não seria muito diferente.

Eu me belisco novamente. Mais forte agora. Tenho medo desse isolamento. Sabe como é: no mercado, é melhor errar com todo mundo do que acertar sozinho. Ironia, claro, embora a ancoragem dos analistas por vezes insista em me dizer que é real.

Quais as minhas chances? Provavelmente, perto de zero. Mas enquanto nos aproximamos da assíntota, temos uma esperança. Antes de até ela morrer, apresento aqui meus argumentos.

O primeiro ponto deriva da percepção de uma inclinação muito acentuada da curva de juros brasileiro. A B50 sempre esteve associada à percepção de risco institucional, à consolidação fiscal e, claro, aos ciclos políticos. É evidente que há temos ainda um problema fiscal e temos eleições no meio do caminho – aliás, várias eleições no meio do caminho até 2050; apenas uma delas no curto prazo.

Mas o ponto é que isso não é segredo para ninguém. Em outras palavras, os fatores de risco já me parecem devidamente embutido nas cotações. Talvez ainda mais importante seja o fato de que o preço dos ativos não se mexa dependa mais de notícias na margem. O nível importa menos do que a derivada. E aqui entra a questão central: com Lula fora da jogada, as eleições podem representar, sim, fator de volatilidade, mas, se confirmada a esperada vitória de um candidato reformista, não configuraria risco no sentido de perda permanente de capital.

Sobre o ponto fiscal especificamente, o próprio parágrafo anterior dá sinalizações sobre minha interpretação. Um próximo presidente reformista poderia dar um plano de voo crível para a trajetória da dívida pública – nem acho que ele resolverá tudo em seu mandato; o buraco é realmente mais embaixo. Mas precisamos mesmo é do prognóstico de que a dívida converge lá na frente. Isso bastaria aos ativos de risco. De novo, eles se movem na margem.

Lembro também que podemos ter uma caminhada um pouco mais favorável para o fiscal do que sugerem as projeções de consenso. Isso porque a elasticidade da arrecadação ao PIB tem se mostrado bastante alta; e o próprio PIB pode crescer mais do que espera o consenso. Não à toa, há seis meses a arrecadação vem surpreendendo para cima.

Se estivermos certos sobre as eleições e o prognóstico subjacente para o fiscal, o juro real de longo prazo necessariamente vai precisar ser outro. E vamos combinar: juro real de 5% ao ano não é ruim em nenhum lugar do mundo.

Talvez aqui entre um elemento interessante na maior atratividade da NTN-B 50 ou 35 para a pessoa física do que propriamente para o gestor de recursos de terceiros. Primeiro por uma questão de alavancagem. O investidor institucional pode colocar 10 PLs na parte intermediária da curva. A pessoa física não vai fazer isso. Depois eu penso até numa espécie de opcionalidade do juro longo para pessoa física.

Pra mim, é quase uma questão estatística, sabe? Em algum momento de hoje até 2050, o juro real de mercado vai estar abaixo do atual. E se não estiver, você carrega até o vencimento. No pior cenário, portanto, assumindo que não haverá calote soberano nem roubadinha no cálculo do IPCA, o investidor pessoa física, que não precisa apresentar cota diária pra cliente, leva 5% real por ano até 2050.

Tenho também argumentos técnicos em prol do juro longo. A volatilidade da B50 por conta de fatores internacionais tem diminuído, simplesmente porque o gringo, que era quem mais comprava antes, saiu do papel. Hoje, a oferta está quase toda dentro dos fundos de pensão. Eles marcam na curva pra não ter que mostrar volatilidade, então têm que carregar até o vencimento. Então, ela não “stressa” tanto mais quanto no passado. Hoje pode ser cedo para comprar B50, amanhã pode ser tarde. Timing é sempre difícil pra burro.

A isso, soma-se o pagamento de cupom no próximo dia 15, num total de 15,32 bilhões de reais. Parece natural esperar que parte disso seja reaplicado, causando demanda adicional para as Bs. Em tese, a maior procura líquida vai se dar na parte intermediária da curva, mas não me surpreenderia se uma parcela se dispusesse a alongar o duration. Se você quer mais detalhes sobre isso, recomendo observar o Dia D.

Para completar, a clara sinalização de encerramento de ciclo de cortes da Selic, dada ontem em comunicado do Copom, joga em favor de diminuição da inclinação e melhora do juro longo.

Talvez seja cedo demais. Talvez a Bolsa seja melhor. Talvez haja muito risco. Mas é o que eu penso. Ainda mais convicto hoje.

 
Em dia de certa instabilidade dos mercados internacionais, ativos brasileiros abrem perto do zero a zero, sem grandes variações. Além da decisão do Copom de cortar a Selic em 25 pontos-base e da sinalização de fim de ciclo, investidores interpretam resultado do IPCA e balança comercial chinesa, com aumento das importações bem acima do esperado. Commodities em queda também afetam mercados emergentes em particular.

Na agenda, IPCA apurou inflação abaixo do esperado, de 0,29%, contra expectativa de 0,41. Talvez volte a discussão sobre mais um corte da Selic, mas ainda é cedo para cravar isso. Há novos indicadores de inflação até lá, vol externa e uma provável derrota com a Previdência no meio do caminho.

Ibovespa Futuro tem leve queda de 0,3%, dólar oscila perto da estabilidade contra o real e juros futuros, no geral, recuam.