Por que o PSG perdeu para o Real Madrid? Ou, por que só Tostão casa grande?

Na semana passada uma jogada mudou por completo os rumos da partida e, possivelmente, de toda Champions League, causando a derrota do PSG para o Real Madrid. Os mercados, assim como o futebol, são uma representação da vida, pois refletem a interação social de investidores, seres humanos.

Compartilhe:
Por que o PSG perdeu para o Real Madrid? Ou, por que só Tostão casa grande?

Luiz Felipe Scolari rebaixou o Palmeiras em 2012. Como prêmio pelo mau trabalho, foi promovido a técnico da Seleção Brasileira. Deu no que deu.

Com a desistência da potencial candidatura de Luciano Huck à presidência – ele já escreveu seu artigo de hoje na Folha negando concorrer? -, já teríamos um novo outsider pronto para ser ungido a disputar: Flávio Rocha, dono da Guararapes (Riachuelo).

Como todo mundo sabe, Guararapes é exemplo histórico de governança corporativa aquém do desejável, negociando em Bolsa com amplo desconto sobre seus pares mais imediatos justamente por conta dos problemas de gestão, baixa liquidez das ações e pouco alinhamento ao interesse dos minoritários.

Antes de se lançar candidato, que tal vender o shopping Midway, migrar para o Novo Mercado e equiparar os resultados àqueles de Renner? Quando reduzir a goleada de 7×1 para o Galló e fechar o desconto de valuation sobre os pares, então talvez, quem sabe, poderia pensar na Presidência da República.

Temos o velho empresário tentando representar o novo político, é isso? O Brasil é mesmo o único do mundo onde o mau desempenho significa posterior promoção. Meritocracia às avessas. Papai já dizia: sem o dever de casa, nada feito.

O futebol não sai da minha cabeça. Depois de um final de semana com direito a hospital e muito repouso por uma crise gastrointestinal, decorei todas as futparódias do momento. O hit da semana, a julgar pelo comportamento do João Pedro no YouTube: “tirou Cavani para colocar o Meunier, se acovardou e viu Real crescê-ê”.

É, claro, uma referência à derrota do PSG para o Real Madrid na semana passada. Engraçado como ficam claras as explicações depois do acontecido.

“O técnico do Paris fechou o time com medo do Real e atraiu o adversário para cima.”

“Nessas horas, o peso da camisa faz diferença. Não é à toa que o Marcelo apontou para o distintivo.”

Essa última foi do Casagrande.

Alguém realmente viu o jogo?

O PSG estava matando o Real em pleno Bernabeu. O próprio Casagrande, poucos minutos antes do segundo gol do Cristiano Ronaldo, falara algo como: “O Paris está pressionando. Ele fez uma mexida muito inteligente soltando o Daniel Alves e agora tem mais um homem no meio de campo, passando a dominar as ações.”

Então, subitamente, num ataque isolado do Real Madrid, a bola é cruzada em direção à área, o goleiro rebate erradamente para o meio da área e a bola encontra o joelho de Cristiano Ronaldo, que, com a habilidade que lhe é tradicional, tem o reflexo de posicioná-lo com precisão, de modo a direcionar a gorduchinha em direção à rede.

Uma jogada mudou por completo os rumos da partida e, possivelmente, de toda Champions League. O Imponderável de Almeida marca novamente. Somente Nelson Rodrigues e Tostão parecem entender como o futebol acaba sendo decidido por forças aleatórias. Como sua pontuação é muito baixa, um único lance acaba definindo os jogos – no basquete ou no vôlei, por exemplo, os lances aleatórios são diluídos pela repetição da pontuação mais extensa, de modo que o resultado final acaba convergindo para a lei dos grandes números. A sorte e a aleatoriedade fazem a bola cair de um lado e de outro. Mas, no futebol, é diferente, pois não temos como encontrar a lei dos grandes números se a pontuação dificilmente passa de cinco tentos ao total.

Em coluna de 28 de maio de 2014, batizada “Respeitem o acaso”, Tostão foi brilhante ao descrever a vitória à época do Real sobre o Atlético de Madrid, com aquele gol do Sérgio Ramos na prorrogação:

“O comentarista científico, que admiro, pois a ciência é fundamental, explicaria que o gol foi o resultado de fatos anteriores que se comprimiram em um lance final, e que o Atlético recuou demais, o que aumentou as chances de escanteio e de sair o gol. São bons argumentos técnicos. Mas o jogo é muito mais que isso. Para os operatórios, dar importância ao imponderável é trair a ciência e seus conhecimentos.

O imponderável não é destino nem mistério. Faz parte do jogo, da vida. São lances corriqueiros, frequentes, que não sabemos onde e quando ocorrerão. O imponderável não torce para ninguém. Espero que esteja ao lado do Brasil na Copa.

(…)

Tudo isso beira também a onipotência do pensamento, de achar que tudo o que desejo e penso é a única verdade, a única realidade. É preciso valorizar os adversários e respeitar o acaso.”

Se você pegar ontem o São Paulo x Santos, foi rigorosamente a mesma coisa. Com todo respeito, mas o Santos não havia entrado em campo. Numa bola perdida, o Gabigol dominou na entrada da área e chutou por entra as pernas do zagueiro que o marcava certinho. Pronto. Gol e vitória do time que só se defendeu o jogo todo. Daí vai o gênio Juca Kfouri escrever no UOL: “Bastou um Gabigol”, como se coubessem explicações perfeitamente plausíveis e racionais para a vitória da técnica.

Apenas aparento analisar futebol. Aqui eu falo da vida. A todo momento, somos iludidos pelo acaso, atribuindo causas e consequências. Nos seus investimentos, é também assim. Os mercados, assim como o futebol, são uma representação da vida, pois refletem a interação social de investidores, seres humanos. Se as bolsas sofrem ciclos de boom and bust, tipicamente chamadas de maníaco-depressivas, é porque as pessoas, que compram e vendem ativos, são guiadas por dois sentimentos essenciais: medo e ganância.

Pra mim, há dois grandes culpados no processo. O primeiro é a ideia de materialismo histórico, de se achar que as condições materiais estão postas para que a história siga seu curso de um único jeito. As alternativas são muito mais próximas e factíveis do que nosso desejo de controle gostaria de supor. O cenário otimista está tão próximo do pessimista quanto o ódio está do amor.

Será que Dilma teria sofrido impeachment se Sergio Moro não vazasse o áudio do Bessias? Será que a Previdência já não teria sido aprovada se não houvesse o Friboigate? Lula teria sido eleito sem a quebra do LTCM? Como teria sido a história do século XX se Hitler tivesse nascido mulher (tínhamos 50% de chance para esse cenário, não?)? Você estaria lendo essas linhas se eu não tivesse sido processado por Dilma Rousseff?

Pequenos eventos aleatórios acabam decidindo o curso da história. Claro que, a posterior, cria-se uma narrativa bem pensada para fazer tudo caber num desencadeamento lógico, como se nada pudesse ser diferente, naquilo que as Finanças Comportamentais chamam de Viés de Retrospectiva. O fato é que o passado e, portanto, o presente e também o futuro poderiam ser muito diferentes do observado pela ocorrência de um acontecimento aparentemente pequeno.

O sujeito monta uma tese negativa de China. Naquele momento, parece fazer todo o sentido. Depois, o tempo passa e a tese pessimista simplesmente não se materializa, porque acontecerão eventos totalmente inesperados e aleatórios no meio do caminho. Então, o gestor é, injustamente, quase conclamado a pedir desculpas. E ele mesmo praticamente admite em público que errou. Ora, julgar a posteriori não pode ser adequado. Se concordamos que as coisas são boas ou ruins pela ocorrência de um fator aleatório imprevisível, não pode ser razoável caracterizar algo como erro ou acerto depois do ocorrido.

Num cenário em que as forças aleatórias definem os caminhos, o que sobra para alocação dos recursos financeiros? Como viver num mundo que não entendemos?

Só pode haver um caminho: perseguição obstinada por assimetrias.

Se você não sabe se vai se materializar o cenário positivo ou o negativo, tudo que lhe resta é montar apostas que ganhem muito se a coisa ficar boa e percam pouco se ficar ruim.

Não são teses sobre o futuro que importam, projeções do que vai acontecer. Pode ser um cenário, pode ser outro completamente diferente. Pode ser inverno, pode ser verão, resume “O poder”, de Arnaldo Antunes, que gentilmente me mandou um DVD autografado e agora estou aqui agradecendo publicamente.

Conforme respondeu à Bloomberg Mark Spitznagel, “se sua tese de investimento depende de uma projeção sobre o futuro, você está fazendo isso errado.” Mais detalhes sobre isso no último Palavra do Estrategista.

Assim, expondo-se racionalmente às assimetrias ao longo do tempo, a soma de todos os eventos necessariamente será positiva. Para o real sucesso da estratégia, é necessário que você chegue ao longo prazo. Ou seja, que você não seja expulsa do jogo diante das primeiras perdas, caso elas aconteçam. É fundamental que você chegue vivo às várias rodadas do processo, calibrando adequadamente o tamanho de cada aposta. Quem vai nos ajudar com isso é Ed Thorpe e sua obstinação pelo Kelly Criterion – em breve, teremos mais novidades sobre isso.

Enquanto isso na sala da justiça, mercados brasileiros abrem a semana estendem os ganhos dos últimos dias. Certa calmaria no exterior acompanhada de bons indicadores domésticos dá fôlego aos ativos de risco.

Feriado em NY por conta do dia do presidente soma-se ao ano novo lunar na China para retirar liquidez dos mercados. Petróleo tem quarta alta seguida.

Por aqui, destaque para novos sinais de controle da inflação e recuperação da atividade. IGP-M mostrou inflação de apenas 0,03%, abaixo do esperado, em prévia mensal. Relatório Focus revisou para baixo estimativas para variação do IPCA neste ano, enquanto IBC-Br mostrou crescimento de 1,41% da economia brasileira em dezembro.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,5%, dólar cai ligeramente contra o real e juros futuros recuam.