Refletindo sobre a lenda de Eno Yad

"Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas." Porém, envaidecido por seu ultracontrole inflacionário, o Copom se viu “confortável” em reduzir a Selic para 6,5% ao ano.

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Refletindo sobre a lenda de Eno Yad

Escrevi o Day One de terça-feira e cá estou de novo.

Aliás, não é a segunda vez que compartilho páginas em branco com o Felipe.

Fizemos juntos o livro “Contra o Financismo” – que eu definiria como um mapa sobre como investir em ações, voltado para quem não precisa de mapas.

Minha avó gostava de calcular que quatro mãos lavam oito vezes mais louças do que duas mãos, mas meu avô fingia não entender enquanto assistia ao Tricolor na TV. Depois, de castigo, foi ter um filho corintiano e um neto pontepretano.

Bioy dizia sobre sua parceria com Borges: “Quando duas pessoas escrevem juntas, e não são vaidosas, o resultado é melhor do que quando trabalham separadas”.

A condição é fundamental aqui. A vaidade, assim como a excessiva modéstia, arruína qualquer parceria.

Envaidecido por seu ultracontrole inflacionário, o Copom se viu “confortável” em reduzir a Selic para 6,5% ao ano.

Talvez, muito provavelmente, se estenderá aos 6,25%.

Quando a política monetária corrige para baixo, o faz com conforto. Quando corrige para cima, se vê “obrigada” a elevar a Selic.

Tecnicamente, não há diferença. O erro simétrico, para cima ou para baixo, deveria valer a mesma culpa.

Mas, dado o incômodo histórico de inflação sobre a meta, Ilan se viu obrigado a confortavelmente segurar a escorregada da Selic desde os 14,25%.

Isso significa que, de modo subjacente, há uma meta sobre como a meta de inflação é perseguida. Aquilo que podemos chamar de uma meta-espelho.

Agora, uma pergunta a você que é Top 5 do Focus: há uma curva de Phillips capaz de explicar a curva de Phillips no seu modelo preditor da Selic?

Se não há, você precisa atualizá-lo, ou jogar nele uma pedra.

Bioy e Borges sabiam dessa questão, de que o vidro nos espreita.

“Se entre as quatro paredes do quarto existe um espelho, já não estou sozinho. Há outro. Há o reflexo que arma na aurora um sigiloso teatro.”

“Tudo acontece e na memória é perda dentro dos gabinetes cristalinos onde, como fantásticos rabinos, lemos livros da direita à esquerda.”

Ao ler este Day One em frente ao espelho, você verá revelada a história de Eno Yad – um trader lendário nas antigas Bolsas de arroz em Osaka, no Japão.

Conta a história que Eno era arquirrival de Munehisa Honma.

Enquanto o primeiro prezava pelos fundamentos da arte de investir, o segundo enfatizava a técnica.

Um dia, assim como tantos de nós, ambos se encontraram pacificamente, por obra de um amigo em comum, e decidiram fazer as pazes.

Assim nasceu a estratégia hoje conhecida como Double-X, combinando o alvo fundamental com o alvo técnico.

Seu resultado é oito vezes melhor do que quando Yad e Honma trabalhavam separados.