Referência Circular

Corretoras pressionam por mais eventos e empresas pressionam por recomendações favoráveis, no esquema “uma mão lava a outra”. Aqui, a referência circular joga a seu favor: quando você ganha, nós ganhamos.

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Referência Circular

Agradeço ao Felipe pelo espaço no Day One de hoje. Foi um belo presente de Natal!

Após ter vivido por alguns anos como analista de sell side de bancos e corretoras, hoje trago aqui um testemunho de uma realidade distinta. Imagino que isso seja relevante para você porque somos isentos de qualquer tipo de pressão.

O maior drama do analista de sell side é que ele não pode escrever tudo o que pensa.

Há pressão de todos os lados: do IB (Investment Banking), do Corporate, do management das empresas listadas na Bolsa e, muitas vezes, dos próprios investidores institucionais.

Ainda bem que a única pressão que há hoje sobre mim é a de gerar retorno para você. Esse é o meu ofício e minha única responsabilidade!

Os bancos até que fingem bem proteger seus analistas. Criaram até uma área chamada de Compliance, uma espécie de corregedoria, responsável pela construção da tal da Chinese Wall, um “muro virtual” que, teoricamente, blinda o analista de influência de outras áreas. Mas, cá entre nós, na prática, isso não funciona tão bem assim.

Não digo isso só porque ouço por aí ou porque li em livros e códigos de conduta e de ética. Digo isso porque vivi essas pressões no meu dia a dia. Digo isso porque senti a pressão sobre meu lombo.

O intuito não é criticar os sell sides dos bancos (aliás, ainda tenho grandes amigos por lá), meu alvo são os seus vieses. Não os culpo por isso. Eu estaria cuspindo no prato que comi. A minha intenção é criticar os bancos. O problema está no sistema!

Funciona mais ou menos da seguinte forma:

Existe o IB, área responsável por originar o “deal”. Esses caras ganham muito dinheiro com M&As (transações de compra e venda de companhias) e IPOs (lançamentos de ações na Bolsa). Por exemplo, o IPO da BR Distribuidora no montante de 5 bilhões de reais gerou nada mais, nada menos que uma receita de 100 milhões para os bancos.

Como sabemos, um deal gera outro, que gera mais dinheiro, e a roda vai girando. No meio dessa roda de deals, negócios e fees milionários, temos o analista, que é responsável pela precificação das empresas.

Será que ele sofre ou não pressão para aumentar o valor da empresa? Depois de banco realizar um IPO, qual recomendação ele vai dar? De compra, é claro.

O banco tem também a corretora, que luta para sobreviver com a receita de corretagem. O lucro vem do giro com a compra e venda ativos na Bolsa. E, como toda empresa, a corretora também tem metas – a receita é a principal delas.

Quanto mais o investidor girar a carteira (comprar e vender ações), maior será a receita. Os analistas, por sua vez, são pressionados a dar recomendações a todo momento, muitos deles têm meta de recomendação de compra e venda – sempre que há meta, há conflito de interesses.

Investidor institucional não é bobo, ele sabe disso. Aliás, tem dado cada vez menos valor ao trabalho do analista e mais aos eventos realizados com empresas, entidades setoriais, etc.

Sabe quem organiza e/ou é a ponte do evento? O analista, claro.

E será que as empresas realizam eventos sem recomendações favoráveis? O top management topa viajar para fora em reunião com investidor sem recomendação favorável do analista?

Caímos numa referência circular: a corretora pressiona por mais eventos e a empresa pressiona por recomendações favoráveis, no melhor esquema “uma mão lava a outra”.

E os conflitos não param por aí.

Tem o Corporate do banco: a área que origina o crédito. Por coincidência, boa parte dos clientes ou é de empresas de capital aberto ou daquelas que em algum momento podem abrir capital. Você acha que os caras ficam felizes quando o analista recomenda a venda de algum ativo para o qual o banco está prestes a dar crédito?

Enfim, essas são algumas das dezenas de casos de conflitos de interesses.

A boa notícia é que somos isentos deles.

A Empiricus não realiza IPO de empresas, não ganha com o giro dos ativos na Bolsa, não dá crédito a empresas e não sofre pressão do top management de companhias com capital na Bolsa por recomendações positivas.

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Aqui, a referência circular joga a seu favor: quando você ganha, a gente ganha.

E por falar em dinheiro e interesses, encerro por aqui com um presentinho de Natal: a sugestão de compra das cotas do VISC11.

Na última sexta-feira, o fundo anunciou a aquisição de 12,5% do Shopping Granja Viana da BR Malls pelo montante de 32 milhões de reais ao cap rate (NOI Caixa) de 9,4%. Também, realizou o pré-pagamento adicional de CRIs. Ambas as ações incrementam o rendimento do fundo.

O VISC11 é um fundo focado no setor de shopping centers, que segue surpreendendo positivamente. Há um alto alinhamento entre cotistas e gestores do fundo, time top de linha. O valor das cotas está em torno de 100 reais, mantendo o preço do IPO. De lá para cá, o fundo praticamente não se valorizou.

O VISC11 oferece um belo rendimento real e líquido em um setor com baixo risco de 7,5% ao ano, algo raro atualmente.

Passado o Natal e a cinco dias do fim do ano, o mercado segue com baixa liquidez, à espera de 2018 e de olho no feriado prolongado na Europa. Os principais índices das Bolsas mundiais apresentam ligeira queda nesta terça.

No front doméstico, os investidores ficam atentos à decisão da S&P sobre um possível rebaixamento de rating do Brasil – a decisão deve sair nesta semana. Enquanto isso, o presidente Michel Temer ainda tenta encampar discursos sobre a reforma Previdência, enquanto Rodrigo Maia começa a traçar planos de candidatura para o ano que vem.

Entre as notícias de empresas, a Embraer continua sendo o destaque das manchetes. Cogita-se a ideia de um acordo com a Boeing sem que haja mudança de controle da empresa (leia-se governo). A Boeing segue na sua investida pela divisão de jatos comerciais da gigante brasileira no mercado de aviação.

Ainda em clima de Natal, a agenda do dia e da semana seguem fracas tanto aqui quanto lá fora. Hoje, saiu o Boletim Focus trazendo Selic e inflação mais baixas, além de maior crescimento econômico para 2018. O IPC-S também foi bom, com inflação abaixo do esperado. Ao longo dia, o governo divulgará o resultado de novembro.

Tanto o Ibovespa futuro quanto o dólar caem um pouco na abertura, enquanto o DI futuro apresenta ligeira alta em toda a curva.