Uma hora passa

Diante de correções pontuais dentro de trajetórias estruturais de alta é preciso controlar as expectativas, aguentar o tranco e saber que mesmo o momento de maior desespero, aparentemente insuperável, passa.

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Uma hora passa

Nunca vi problema naqueles que não sabem. Pra mim, ruim mesmo são os que acham que sabem. Nas palavras de Taleb, as pessoas que sabem, mas não o suficiente. Tomam seu conhecimento, finito e delimitado, como amplo, sem fronteiras e superpoderoso, capaz de realizar qualquer coisa. Esses dispõem de um mapa errado, que é sempre pior do que não dispor de mapa algum.

Se as palavras acima são verdadeiras, então seria arrogante incluir-me entre os que não sabem nada. Acho que chegamos num paradoxo. Se é humilde ou pretensioso reconhecer a própria ignorância? Ora, já disse que não sei nada…

Hoje faz três anos que meu filho bateu a cabeça na calçada. Lembro-me com exatidão daquele dia. Ele brincava com as primas de pega-pega na pracinha, correndo feito louco para um lado e para o outro, até que tropeçou e desabou no chão, de cara.

No final, acabou tudo bem – e com uma pequena cicatriz no lado esquerdo da testa. No momento em que passamos por aquilo, porém, foi desesperador.

Tenho muito clara na memória a expressão dele deitado na maca, enquanto aplicavam-lhe uma injeção de anestesia na cabeça. Os olhos arregalados, as sobrancelhas levantadas, com a boca levemente aberta numa combinação de dor e pânico. As lágrimas se misturavam ao sangue que escorria pelas bochechas. Sinto uma angústia só de lembrar a dor que aquelas palavras me transmitiam: “pai, eu não vou aguentar.”

Eu queria tirá-lo dali imediatamente. A vontade era arrancar-lhe daquela maca, pegá-lo no colo e interromper a dor da aplicação da injeção. “Às favas com tudo isso, vamos para casa!” – cheguei a ver a imagem da suposta fuga na minha cabeça.

Sabia, claro, que não podia. Só restava ajudar a segurar-lhe e tentar passar alguma tranquilidade, que eu mesmo não tinha: “calma, João, vai passar rápido. Você é forte.” (pelo menos mais forte do que o pai). Não havia nada a se fazer, ia além de nossa capacidade. Tínhamos apenas de esperar, ainda que a sensação fosse de que o sofrimento nunca terminaria…

Foram algumas horas terríveis, num total de 20 segundos, até que a anestesia penetrasse e os pontos pudessem ser dados sem nova aflição.

O completo desespero, aparentemente insuperável, foi sendo dissipado e, de repente, sem percebermos, logo estávamos rindo da cicatriz, que hoje o pai babão acha até charmosa. Ficou discreta e não gera qualquer constrangimento. Forma caráter, costumo dizer. Agora, superado o susto, faço discurso estóico: “se você quer mesmo jogar no PSG, pode se acostumar com novos tombos….”

Desde meados de outubro, os mercados brasileiros, e os emergentes em geral, foram tomados por um sentimento ruim. Vivemos um momento negativo, talvez até de desespero, com perdas significativas nos mercados de renda fixa e também de ações. O dólar se apreciou em âmbito global e os saques foram generalizados na periferia, potencialmente com repatriação de lucros para garantir o ano bom.

Como fatores locais, as dúvidas sobre a capacidade de aprovação da reforma da Previdência e a possibilidade de um segundo turno Lula/Bolsonaro nas eleições de 2018 ajudaram a dar um contorno mais dramático para os ativos domésticos – o Brasil é sempre um grande beta e vive de forma mais intensa as intempéries da economia e dos mercados globais.

Já há algumas semanas nesta situação, duas perguntas surgem como naturais:

  1. Trata-se de uma mera correção dentro de uma trajetória estrutural ainda de alta ou mudamos, de fato, a rota?
  2. Como nos posicionamos pragmaticamente? Ou seja, como ganhar dinheiro com isso?

Sobre a primeira pergunta, tenho uma boa e uma má notícia. Acho que estamos apenas dentro de uma correção, que, para padrões históricos, ainda é bem pequena, dentro de um bull market (mercado de alta) estrutural. E acho que ela deve durar algumas semanas ainda.

Não vejo drivers para os mercados globais até o final de dezembro, perto do Natal, quando naturalmente os investidores devem voltar a se posicionar para 2018. Por ora, vamos garantir o bom 2017, redimensionar as apostas nos mercados emergentes e evitar riscos desnecessários num ambiente de valuations no geral esticados.

Internamente, a eventual aprovação da reforma da Previdência pode ser catalisador pontual, se vier mesmo a ser votada no dia 6 de dezembro conforme sugerem os jornais hoje. Fora isso, porém, nada.

Temos a pressão do fluxo vendedor internacional por fatores sazonais, fundos macro, tradicionalmente mãos fracas em Bolsa, alocados em ações, e valuations que não são baratos.

Isso posto, a tendência seria imaginar, como proposta pragmática, vender as posições de risco, aguardar a correção e recomprar mais barato, certo?

Errado.

Não acho que temos essa capacidade de saber exatamente quando e até quanto vai a correção. Se sairmos agora, podemos incorrer na possibilidade de ver, subitamente, o mercado correr mais 10, quem sabe 20% na nossa cabeça. Ou, então, mesmo que venha a correção, em que ponto voltamos ao mercado? Com 5% de queda? Talvez seja pouco, vamos esperar cair 10? Ou seria melhor esperar uma queda de 15%?

Não sabemos.

Há uma única coisa a se fazer diante de correções pontuais dentro de trajetórias estruturais de alta: esperar. Controlar as expectativas, aguentar o tranco e saber que mesmo o momento de maior desespero, aparentemente insuperável, passa.

Um brinde à inação. Em momentos de pânico, quanto menos você fizer, menor a chance de fazer besteira.

Lembra se puder: mesmo os maiores bull markets da história passaram por grandes correções no meio do caminho; elas servem para testar sua convicção. Se não der, esqueça. De algum jeito, vai passar.

De repente, quando você acordar, o Ibovespa estará a 80 mil pontos. E a correção de outubro-dezembro terá apenas ajudado a formar seu caráter como investidor.

Mercados brasileiros voltam do feriado mostrando bom humor, ajustando-se ao comportamento dos ativos na véspera e ao maior otimismo em torno da votação da reforma da Previdência – com Rodrigo Maia fortalecido e tomando para si parte das negociações, aumentam as chances de êxito em votação nos primeiros dias de dezembro.

Ontem, Caged apontou criação de postos de trabalho acima das projeções, o que foi comemorado pelo Planalto. IBC-Br, prévia do PIB, mostrou crescimento de 0,4%, em linha com projeções.

Hoje temos vencimento de opções sobre ações na Bovespa, o que pode introduzir um pouco mais de volatilidade. Prévia do IGP-M apurou inflação de 0,37%, marginalmente acima das estimativas.

Nos EUA, saem atividade do Fed de Chicago, vendas de casas usadas e preliminar do PMI Markit. Semana de Thanksgiving pode ter volume reduzido.

Ibovespa Futuro abre em alta de 1%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

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