Reminiscências do Edifício Detroit

Financistas engomados transformam a pessoa física em uma abstração estúpida e pensam que ela não sabe comprar uma ação de dividendos para complementar a renda.

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Reminiscências do Edifício Detroit

Era manhã de evento na Faria Lima.

Eu estava ali, pegando minha terceira xícara antes de entrar no auditório, quando um sujeito dá dois tapas no meu ombro esquerdo, e pergunta:

“Você é o Rodolfo da Empiricus, certo?”

Ele vestia terno e gravata, trabalhava em um banco grande (20% de chance de você acertar qual banco).

“Acho que sim, sou o Rodolfo da Empiricus”, respondi, agora tentando equilibrar a xícara.

Foi quando ele emendou:

“É simplesmente um absurdo isso que vocês fazem, induzindo um investidor pessoa física a comprar ação de dividendos, e ainda chama por um nome engraçadinho, tipo vaca leiteira“.

Um absurdo de ruim?

Ou um absurdo de bom?

“Absurdo de ruim, lógico! Você acha que o brasileiro médio sabe o que é uma ação? Sabe o que é um dividendo? O cara mal investe na poupança!”

Confesso que, depois disso, até entrei no auditório, mas não consegui prestar tanta atenção no evento.

Na melhor das hipóteses, um evento é sempre tão bom quanto o menor nível de sua audiência.

Mas suspeito que eu sei, mais ou menos, quem é o brasileiro médio (se é que ele existe).

Já aquele financista de terno e gravata não tem a mais puta ideia. Ele nunca tomou uma breja com os manobristas do prédio.

Hoje, não conseguimos mais, infelizmente. Os manobristas do Malzoni foram institucionalizados, “men in a mission”. Você pode ser algemado aqui por esquecer o crachá, ou por andar na contramão, mesmo que sóbrio.

Eu mesmo, no primeiro dia de garagem, soterrado debaixo do décimo subsolo, comecei a suar frio. Saí correndo em busca de uma única catraca que me cuspisse para fora dali… em vão.

As câmeras eventualmente me pegaram (elas sempre me pegam) e fui parar na sala de segurança, onde tive que emitir uma certidão negativa de qualquer coisa.

Quando trabalhávamos no saudoso Edifício Detroit, tudo era mais afirmativo e natural.

A cada happy hour de sexta, o Bigode insistia em oferecer sua cachaça de pneu para mim, pro Beto e pro Andrezão.

Aquilo era horrível, tinha gosto de borracha e 68% de álcool, mas tomávamos mesmo assim, porque o Bigode era demais.

Subindo e descendo rampa, uma média de cem carros por dia, motor 1.0, Land Rover, todo tipo de carro, com pneu na cabeça de segunda a sexta, sem nunca precisar acionar um seguro em trinta anos de profissão.

Se esse cara não souber comprar uma ação de dividendos para complementar a renda, quem é que sabe?

O PhD em Finanças da GV, que treme antes de investir em B-26 com cupom?

Financistas engomados transformam a pessoa física em uma abstração estúpida, pois nunca tomaram cachaça com os manobristas do Detroit.

Só posso lhe contar o que eu vi: o Bigode toma cachaça de pneu misturada com leite de vaca leiteira.

Não por acaso, o maior investidor da Bolsa brasileira também é fã dos pelos faciais entre o nariz e o lábio superior.

Restam dúvidas?

Clique no bigode abaixo para entender do que eu estou falando, de fato.