8 ou 80 (mil pontos)? Keep calm

Alimentar o desejo de retornos muito grandes em 2018 pode ser um caminho bastante direto para o sofrimento, no caso representado materialmente por um belo prejuízo financeiro.

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8 ou 80 (mil pontos)? Keep calm

“Se vives de acordo com as leis da natureza,
nunca serás pobre;
se vives de acordo com as opiniões alheias,
nunca serás rico.”
Seneca

Amigo meu virou budista. Parece que está na moda. Aquele estilão: Vila Madalena, barbearia gourmet, camisa xadrez, tênis de cano alto, maconheiro, crítico da direita golpista e, claro, comprador de bitcoin. Ah, não, com seu típico discurso progressista, acaba de me alertar: a onda agora é o ripple.

O que os parças têm apresentado de revelação este ano não está escrito. Cada barbaridade, tá louco. Na minha adaptação do clássico de MC Pelé, “bitcoin já é coisa do passado, a moda agora é namorar pelado.”

Robson está inebriado pelos ensinamentos de Sidarta Gautama e suas quatro nobres verdades. “O segredo está em controlar seus desejos.” Entrou nessa pegada panfletária e quer me convencer de que o desejo é o que nos causa dor. Supostamente, ficamos aprisionados aos apegos, à cobiça e às posses. Cria-se um ciclo de impossibilidade de satisfação, frustração e sofrimento. Cessamos o desejo, cessamos o sofrimento.

Ele insiste na argumentação, eu aumento o som do rádio. Está tocando Loki, Arnaldo Baptista: “hoje percebi, que tenho me apegado às coisas materiais, que me dão prazeeeer.”

O que você deseja para 2018? Talvez ganhar mais dinheiro do que em 2017? Entre as cansativas resoluções de final de ano, essa aí costuma aparecer.

Lembro mesmo é dos estóicos. “A virtude consiste em um desejo que está de acordo com a natureza.” Desculpe frustrar seus desejos, mas as forças da natureza impõem um 2018 de retornos menores relativamente àqueles do ano passado. “É parte da cura o desejo de ser curado”, nos lembra Seneca.

Precisamos encarar a realidade tal como ela é. Alimentar o desejo de retornos muito grandes neste momento pode ser um caminho bastante direto para o sofrimento, no caso representado materialmente por um belo prejuízo financeiro.

O ano de 2017, apesar do fatídico 18 de maio, foi formidável para os mercados brasileiros. Volatilidade esteve muito baixa ao longo de todo período e a caminhada dos ativos foi praticamente unidirecional.

Ficamos mal acostumados. O sujeito ganhou mais de 1.000% com bitcoins ou Magazine Luiza. Acha que isso é normal. Ele agora tem certeza que é um gênio. Não poderia ser diferente. Acontece nas melhores famílias.

Veja o John Paulson, representado no livro “The Greatest Trade Ever”. De repente, o cara virou o maior gênio da humanidade, porque acertou o trade na crise do subprime americano, ajudado pra caramba pela Goldman Sachs. Ninguém questionava aquela entidade mitológica e, em 2011, sua firma de investimentos tocava nada menos do que 38 bilhões de dólares – após sucessivos prejuízos e um tsunami de resgates de clientes, tinha menos de 8 bi de dólares sob gestão no ano passado, dos quais a maior parte dele mesmo.

Parece uma coisa meio “one hit band”, aquelas bandas que fizeram um sucesso estrondoso com uma música e depois sumiram. “One trade billionaire”. Você acertou uma. Isso não o faz um gênio. Aliás, no mercado, você é tão bom quanto seu último trade. Vamos de heróis a vilões como num passe de mágica. Se você vem influenciado por um histórico recente muito positivo, o desejo e a autoconfiança excessiva provavelmente vão lhe empurrar para a assunção de riscos excessivos.

O cenário agora é de prováveis retornos menores. A taxa Selic vai a 6,75% ao ano e entregar expressivos 150% do CDI representará 10% ao ano. Talvez possa lhe parecer pouco, mas se você ganhar 10% em 2018 pode estourar rojão. Isso não existe hoje em nenhum lugar do mundo.

O começo do mês de janeiro dificulta a compreensão do quadro mais geral. Olhando para as nervuras das folhas, dificilmente conseguimos enxergar a floresta toda. A velocidade e a magnitude dos retornos não têm sido normais. Possivelmente, você já fez boa parte do rendimento esperado para o ano – a Carteira Empiricus, por exemplo, sobe quase 2% nessas primeiras semanas de 2018. Já dobramos o capital daqueles que apostaram no produto desde sua criação, sem assumir riscos desnecessários e esse é um motivo de satisfação.

Aproveitamos essa gordura para estudar alterações marginais. O que estamos pensando agora? Primeiramente, em usar essa vantagem sobre o CDI para comprar mais hedge e seguros sobre nossas posições – o ano não vai ser fácil e a supressão recente da volatilidade permite comprar proteção sem pagar muito por isso. Em paralelo, avaliamos a forma mais adequada de acrescentar um pouco de commodities ao portfólio – não temos nada e seguimos resistindo a isso, mas o cenário global, ao menos na fotografia, sugere possibilidade material de mais uma pernada das matérias-primas. Provavelmente, continuaremos underweight (abaixo do peso do índice) em commodities, mas fato é que alguma coisa precisamos ter, sem perder a visão do todo: portfólio diversificado e balanceado, preservando a filosofia do Barbell Strategy.

Como diria Seneca uma vez mais, “uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas.”

Mercados brasileiros iniciam a terça-feira com ligeiro otimismo, amparados na alta das bolsas europeias e dos futuros de Wall Street. Perspectiva de resultado fiscal melhor ao final de 2017, conforme matérias da imprensa, e sinalização de que Lula, na eventual hipótese de ser eleito, pode retomar a ortodoxia econômica de seu primeiro mandato ajudam a manter o clima recente favorável. Segundo Gleisi Hoffmann à Bloomberg, o ex-presidente prepara uma nova Carta ao Povo Brasileiro.

Inflação é destaque na agenda doméstica, com IPC-S e IGP-10 ligeiramente acima do esperado. Lá fora, bolsas norte-americanos reabrem após feriado na véspera. Entre os indicadores, temos NY Empire State Index e inflação ao consumidor na Alemanha e no Reino Unido.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,2%, juros futuros tentam definir tendência e dólar está perto da estabilidade contra o real.