Risco eleitoral?

Ainda é muito cedo para cravar quem vai ser o presidente propriamente dito. Mas para mim, o julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula muda completamente o ambiente das eleições 2018.

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Risco eleitoral?

Ouço que os principais gestores brasileiros estão preocupados com o risco eleitoral. Não faço a menor ideia do porquê, mas neste ano não fui ao evento do Credit Suisse. Luciana que me contou.

Não sou Padre Antonio Vieira para desafiar Deus, mas tenho cá meu conceptismo. Respeito, admiro e só tenho a aprender com essa gente, muito mais competente – e ainda mais rica – do que eu.

Infelizmente, porém, dessa vez preciso discordar – e é provável, dada a excelência da capacidade intelectual alheia, que isso me conduza a um erro. Paciência. O compromisso consigo mesmo é insuportável. Lá vamos nós.

Pra mim, o julgamento em segunda instância do Lula acabou com o risco eleitoral. Corrigindo para ter um pouco mais de rigor científico, tornou o risco eleitoral muito pequeno. Não conseguirmos medir explicitamente um candidato reformista competitivo ainda nas pesquisas não significa que ele não exista. Ausência de evidência não é evidência de ausência.

Tenho argumentado há algum tempo que o espectro político pendular migrou em direção à direta liberal, no que foi corroborado pelo TRF-4 e sacramentado depois por Cármem Lúcia. Com Lula fora da disputa, não vejo um candidato da esquerda viável, nem espaço para que venha a surgir até lá. Sob inflação baixa e emprego aumentando, o sentimento de bem-estar da população estará em outro nível.

Ainda é muito cedo para cravar quem vai ser o presidente propriamente dito. Mas o ambiente parece ter nos livrado da condenação de um candidato irresponsável do ponto de vista fiscal.

Importa muito mais o perfil do que a pessoa em si. O próprio Temer, em si, é uma figura pessoal lamentável, mas do ponto de vista estritamente pragmático, está possivelmente entre os presidentes que mais fizeram pelo País, com melhoria brutal da governança das estatais, reforma trabalhista, controle da inflação, juros na mínima histórica, adequação do balanço de pagamentos, etc. Se emplacar a reforma da Previdência, então, nossa, daí é golaço.

Mas se insistem para que eu explicite um nome para vitória nas eleições apontando uma arma na minha cabeça, chuto Luciano Huck (muito embora eu mesmo pretenda votar no João Amoêdo).

Pelo que se diz por aí, ele acaba de encomendar pesquisa para testar seu nome e a capacidade de herdar votos de Lula. Então, se as coisas vierem conforme o esperado, ele registra sua filiação em março e lança a candidatura em abril.

Na minha imaginação criativa, funcionaria assim: Armínio na Fazenda, Marcos Lisboa no Planejamento, formando uma espécie de Pelé e Coutinho na política econômica. Enquanto isso na sala de Justiça, Ayres Brito. Marina Silva de vice, para atrair todos os hipsters descolados.

Assim, leva no primeiro turno. Primeiras medidas de governo:

• Decreta-se o 13o do Bolsa família;
• Fica liberado o consumo de maconha na esquina da Aspicuelta com Fidalga;
• Está lançada uma turnê mundial com a Pablo Vittar e Anitta, com participação especial da diva Daniela Mercury, sob patrocínio do governo;
• Fica liberado o consumo de maconha no baixo Gávea;
• Destinam-se seis mil hectares de terras para a Funai na fronteira do Pará;
• Fica liberado o consumo de maconha em Santa Tereza (de BH, não do RJ);
• Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil terão acesso amplo e irrestrito à Lei Rouanet. Maria Bethânia também, se pedir de maneira insistente;
• As barbearias gourmets passam a contar com linhas de crédito subsidiadas no BNDES;
• As vitrolas e os discos de vinil serão incorporados ao “cartão reforma”.

Acho que você entendeu o espírito. Pequenos acenos para a esquerda menos raivosa, atraindo toda a turma da Vila Madalena e, metaforicamente, suas adjacências. Com a mesma bondade com que reforma carros, casas e a residência em Angra dos Reis, Luciano Huck vai aprovar a Previdência, a Tributária, o setor externo e finalmente focar no supply side, fazendo com que a recuperação cíclica ganhe contornos estruturais e empurre o PIB potencial.

Tudo, claro, com a autoridade de quem sempre fez as coisas pelo pobre. Como se finalmente entendêssemos Deirdre McCloskey, associaremos as práticas liberais e as instituições inclusivas (aqui peguei do Acemoglu) à melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos.

Concordo que, sim, pode haver volatilidade no processo eleitoral. Lula vai entrar com 200 recursos, Luciano Huck vai negar a candidatura, Ciro Gomes vai esbravejar, Bolsonaro vai estimular seu exército virtual, Marina vai sugerir um governo sonhático, etc. e tal. Mas volatilidade não é risco, no sentido de perda permanente do capital.

Esperar a completa definição do presidente representa, sim, uma decisão em prol da montagem de posição num período de muito menos risco e maior visibilidade. Contudo, pode assistir à volatilidade eleitoral fazendo o Ibovespa sair de 110 mil pontos para 95 mil pontos ou o juro longo saltar de 4 para 4,4% ao ano.

A Angélica já está dando pinta…Tum dum tss..(hoje não funcionou, desculpa).

Pressionados por um movimento de realização de lucros, mercados brasileiros abrem a quinta-feira no vermelho. Variações são modestas e catalisadas por uma preocupação com aumento do rendimento dos títulos em nível global, que acaba reduzindo apetite por ativos de risco.

Na véspera, o banco central dos EUA fez comentários considerados, na margem, um pouco mais hawk (sugerindo juros subindo), empurrando para cima os yields em escala mundial.

Por aqui, destaque para aceleração da produção industrial, em alta de 2,8%. IPC-S e balança comercial mensal completam a agenda brasileira.

Nos EUA, saem pedidos de auxílio-desemprego e dados de manufatura.

Ibovespa Futuro registra leve queda de 0,10%, dólar está próximo à estabilidade e juros futuros avançam.

PS.: àqueles que acompanham nosso trabalho mais de perto, recomendo atenção à manhã da próxima segunda-feira, quando lanço meu projeto mais importante na Empiricus. Deixo aqui a minha palavra: está ficando realmente especial. Podem me cobrar.

PPS.: hoje estarei no evento do LIDE 2018 do Mato Grosso, em painel com mediação de Augusto Nunes e participação de Marcos Troyjo, que deveria ser ministro das Relações Exteriores no próximo governo.