Você tem medo de quê?

Segundo estudiosos, preferimos ter uma coisa com certeza a outra que envolve risco, mesmo que a segunda implique algum valor esperado menor.

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Você tem medo de quê?

Dizem por ai que as pessoas são avessas a risco. Para usar a expressão dos economistas, nossas funções utilidade são côncavas. Para os formalistas de plantão, concavidade definida como f(x) < [f(x+dx)+f(x-dx)/2]. Parece complicado, mas é simples. Ninguém aguenta aula de funções a esta hora da manhã, eu sei. Vamos pela intuição.

De acordo com a teoria ortodoxa (ser hetero anda meio fora de moda), os investidores gostam de retorno e não gostam de risco, sendo risco normalmente medido pela volatilidade (variância ou desvio-padrão).

Normalmente, segundo esse pessoal, preferimos ter uma coisa com certeza a outra que envolve risco, mesmo que a segunda implique algum valor esperado menor. Esse é um comportamento estável – somos sempre assim, independentemente das circunstâncias. Tecnicamente, as preferências dos agentes são estáveis.

A turma das Finanças Comportamentais e do Behavioral Economics discorda. Veja que aqui já estamos mais descolados – essa galera já levou dos prêmios Nobel, com Daniel Kahneman e Richard Thaler (o último vencedor). Agora, só pode usar camisa xadrez, deixar a barba grande, dizer que vai fazer um curso na Singularity e ouvir discos de vinil se você leu o Dan Ariely, o Thinking Fast and Low e o Nudge.

Para essa onda hipster, estudos de laboratório indicam que as pessoas não são avessas a risco. Elas seriam avessas a perda – daí o nome do viés cognitivo clássico de Loss Aversion.

Funciona assim…

Imagine uma situação 1 em que você ganha 3 mil com 100% de chance ou ganha 4 mil com 80% de chance.

Qual você escolhe?

Após os testes, os estudos indicaram que 85% das pessoas escolhem ganhar 3 mil – veja que isso é inferior ao valor esperado da alternativa, no caso 3,2 mil. Nenhum problema aqui. Essa ainda é uma escolha de acordo com a racionalidade clássica. As pessoas estão apenas sendo avessas ao risco.

Agora pense numa situação 2, que você deve escolher entre uma perda de 3 mil com 100% de chance ou uma perda de 4 mil com 80% de chance.

Os experimentos indicaram que a maior parte das pessoas prefere perder 4 mil com 80% de chance (perda esperada superior). Aqui, elas preferem correr o risco.

Na situação 1, foram avessas a risco. Na situação 2, foram amantes do risco. Isso é inconsistente com a hipótese de preferências estáveis indicando sempre aversão a risco. Haveria aversão a perda, pois esta seria algo como 2,5x mais dolorosa do que o ganho seria saboroso.

Mas será que as coisas são mesmo assim na vida real? Aversão a risco ou aversão a perda, com qual ficamos? Nenhuma das duas. Gostaria hoje de propor um novo termo: ruin aversion (aversão à ruína). Confesso que não estou sendo muito original. Na verdade, nunca sou. A proposição reflete uma combinação das ideias de Nassim Taleb (sim, sempre ele) e Gerd Gigerenzer, o sujeito precursor da chamada Ecological Rationality – basicamente, para simplificar as coisas, só pode haver um tipo de racionalidade e ele se liga à sobrevivência; sempre que estivermos adotando medidas em prol da sobrevivência, estaremos sendo racionais.

Suponha que você está num cassino com outras 26 pessoas. Você será o último a jogar. Se o 26o jogador for à falência, o que acontece com você? Como você é impactado por aquilo?

Não muda nada, certo? Falo financeiramente, claro. Se ele for seu amigo, talvez você se solidarize. Se for um idiota, o que é mais provável, possivelmente você vai dar aquele sorriso de canto de boca, tentando disfarçar. Mas o foco aqui é o lance da grana.

Agora, imagina que estamos no mesmo cassino. Você vai jogar 27 vezes seguidas. O que acontece se você quebrar na 26a rodada?

Acabou o jogo. Não há mais 27a rodada. Game over. O processo de sobrevivência é path dependent (dependente da trajetória do passado) e tudo que queremos é evitar a nossa morte – do ponto de vista da construção de patrimônio, a prioridade número zero é não quebrar; depois vem o resto. Para ser bem sucedido, você precisa sobreviver, insiste Buffett – não há nada além da sobrevivência.

Daí emerge o problema com os testes de laboratório feitos pelo pessoal do Behavioral Economics. Os experimentos são isolados, não há qualquer dependência do passado e todos nós sabemos que continuaremos vivos independentemente da escolha.

Se o foco é mesmo sobreviver e evitar a ruína, faz todo sentido, do ponto de vista de que está perfeitamente alinhado à estrita racionalidade, sermos amantes do risco diante de situações desfavoráveis.

Se você incorre em altas chances de morrer, você toma todo o risco do mundo mesmo. Hoje, se me apresentassem um novo tratamento contra o câncer e me perguntassem se eu toparia servir de cobaia, certamente não aceitaria, porque estou saudável. Mas se eu estivesse em estado terminal, daria fechado na hora.

Em situações de perdas, principalmente grandes, a pessoa vai ser amante do risco mesmo, porque ela quer evitar a ruína. Isso é perfeitamente racional e fere as suposições pseudointeligentes de que o comportamento representa irracionalidade, viés cognitivo ou racionalidade limitada.

Mensagem final para deixar claro: o foco do investidor deve ser sobreviver. Depois vem o resto. Soros era um sobrevivente. Essa é sua maior qualidade. Olhando de longe, acho que o Stuhlberger também – ninguém sobreviveu e superou as crises brasileiras tão bem quanto ele. Qualquer estratégia que implique risco de ruína, independentemente do retorno potencial, jamais pode ser aceita.

Antes de passar às coisas específicas do dia, duas coisas:

1 – Há uma longa matéria no Valor hoje falando das lacunas na educação financeira brasileira e no quão difícil é endereçar o problema. Ainda estaríamos muito distantes da média dos países de renda parecida neste quesito. Sabe o que eu acho que escapa às pessoas sobre educação financeira? Como as pessoas aprendem a cozinhar? Cozinhando! Como você aprendeu a dirigir, a ler, a escrever? Faça as pessoas investirem e elas aprenderão a investir. Em que pesem críticas pontuais, quem mais faz pela educação financeira brasileira hoje é a XP Investimentos – e é por isso que eles (Guilherme em particular) têm meu respeito e minha admiração.

2 – Preciso agradecer publicamente as mensagens de solidariedade recebidas ontem. Compilamos algumas delas aqui. Muito obrigado mesmo. Lembrei à noite que esta foi a segunda vez que a Apimec puniu os analistas da Empiricus. A primeira foi no caso Marfrig, que um ano depois teve de republicar seus balanços e viu seus diretores multados pela CVM exatamente por conta das inconsistências contábeis que havíamos apontado. A vida é um museu de grandes novidades.

Mercados brasileiros iniciam a quinta-feira ponderando discussões e falta de clareza sobre a Previdência, clima predominantemente negativo, mas moderado, no exterior diante de queda de commodities e alguma realização de lucros depois do rali da véspera.

Agenda local é fraca, de tal sorte que todos querem saber do encontro de líderes para debater novas regras previdenciárias. Nos EUA, saem estoques no atacado e pedidos de auxílio-desemprego.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,5%, juros futuros beiram a estabilidade e dólar recua ligeiramente contra o real.

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