Você está preparado para um colapso dos mercados?

A combinação de bons resultados nos últimos meses e de uma taxa Selic cada vez mais baixa vem gerando uma tendência ao investidor em atrair-se pela tomada excessiva de risco. Veja seis riscos que devem ser considerados.

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Você está preparado para um colapso dos mercados?

Eu não acho que os mercados vão colapsar no curto prazo.

Mas e daí que eu não acho? Já achei tanta coisa errada nesta vida. Até os 16, achava que seria jogador de futebol. Felipe, Vampeta, Rincón, Marcelinho e Ricardinho… que meia-cancha! Reprovado na triagem das peneiras, na pior das hipóteses, viraria guitarrista dos Stones, embora já desconfiasse ser mais provável morrer antes do Keith Richards. Ah, gosto mesmo é do Mick Taylor.

Cinco anos depois, tudo que consegui foi: Exile on Wall Street.

Aqui estou eu, trabalhando no coração do mercado financeiro, embora, para minha mãe, insista numa versão mais bonita de mim mesmo; digo que toco piano num bordel.

Warren Buffett costuma dizer que, se você não está preparado para ver sua ação caindo 50%, você não deveria estar em renda variável.

Mark Spitznagel afirma que, se sua tese de investimento depende de uma projeção, você está fazendo isso errado.

Ainda que eu projete dias de Sol à frente, meus racionais para você investir seu dinheiro não podem depender disso.

Desde o final de 2015, tenho mantido uma postura construtiva para as ações brasileiras e nossos juros longos. Com muita ajuda da sorte, ao menos por enquanto (e essa sempre é uma ressalva importante), tem dado certo.

Os ganhos recentes aumentam os níveis de testosterona. Todos passamos a nos achar heróis. Sentimos que poderíamos ter lucrado ainda mais caso tivéssemos assumido ainda mais riscos, concentrado em apostas consideradas perigosas e nos alavancado.

Na semana passada, o assinante Bruno César, um grande pesquisador sobre o comportamento em finanças e os níveis hormonais, enviou artigo muito interessante publicado na “Economics and Human Biology”, chamado “Decision-making, financial risk aversion, and behavioral biases: The role of testosterone and stress”, de John R. Nofsinger, Fernando M. Patterson e Corey A. Shank.

Entre as conclusões, aparece que, conforme os lucros do investidor aumentam, cresce também o nível de testosterona. Isso torna o sujeito (ou a sujeita, ou sujeitx, sei lá) mais confiante e agressivo, dispondo-se a arriscar mais. Então, enquanto as coisas vão indo bem, um ciclo vicioso de mais lucros e mais risco vai sendo retroalimentado.

A combinação de bons resultados nos últimos meses e de uma taxa Selic cada vez mais baixa vem gerando uma tendência ao investidor em atrair-se pela tomada excessiva de riscos.

Confesso aqui minha própria parcela de culpa. Com reiterados prognósticos favoráveis às ações e às NTN-Bs 2050, possivelmente eu mesmo não tenha sido tão explícito sobre a necessidade de desconfiar de si, de nunca alocar um percentual exagerado em ativos de risco, de jamais se concentrar demais ou alavancar-se e de sempre, e também sempre, carregar-se de seguros e de ativos que vão salvar sua pele no caso de uma catástrofe.

Com tudo dando certo desde o final de 2015, vamos sendo atraídos pelo canto da sereia. Viramos cavaleiros de Tânatos sendo atraídos pela Pulsão de morte. Sabemos que os mercados são ciclotímicos e alternam de forma súbita entre a euforia e a depressão. Se a alternância em direção à tristeza profunda acometer os mercados num momento em que você está excessivamente alocado em ativos de risco, todos os lucros recentes serão dizimados.

Há uma série de riscos no horizonte – sempre há. Não podemos nos esquecer disso. Eles precisam ser ponderados mesmo por aqueles que, como eu, permanecem otimistas com os ativos de risco. A qualquer momento, a estratégia que vem dando certo pode simplesmente começar a dar errado. Como diz o brilhante Zeca, da Tarpon (e o brilhantismo verdadeiro permanece incólume nas horas ruins): “Neste nosso mercado, vamos de toalha felpuda a pano de chão num piscar de olhos”.

Entre os riscos mapeáveis mais significativos, destaco:

i. Donald Trump está imparável. Acaba de demitir o secretário de Estado Rex Tillerson, contrário às suas medidas de taxação e ao recrudescimento das relações com a China. Para seu lugar, vem o linha-dura Mike Pompeo. Isso aumenta significativamente a incerteza ao despertar uma tensão geopolítica importante;

ii. Estágio avançado do ciclo das economias e dos mercados desenvolvidos. Estamos há basicamente nove anos subindo lá fora. Caminhamos para a mais longeva recuperação da economia norte-americana. Cedo ou tarde, esse cenário internacional muito positivo vai terminar. Infelizmente, costuma ser mais cedo do que tarde;

iii. Comportamento da inflação norte-americana. Embora os indicadores mais recentes, como a pressão sobre os salários e os preços ao consumidor, tenham sido mais positivos do que as projeções sugeriam, as trajetórias não são lineares. Com o mercado de trabalho dos EUA mais apertado, podemos ter a qualquer momento uma súbita disparada da inflação em algum momento deste ano, forçando o Fed em apressar-se na subida dos juros por lá. A implicação seria expressiva: redução abrupta da liquidez internacional e interrupção súbita do fluxo de recursos para mercados emergentes, no clássico “Sudden Stop”, de Guillermo Calvo (antigo, mas ainda poderoso);

iv. Emergência de valores autocráticos, principalmente no Oriente, sendo a China o maior expoente. Ainda que isso possa ser positivo no curto prazo por garantir a manutenção das medidas de Xi Jinping, sabe lá Deus o que isso pode se tornar lá na frente. Boa parte dos analistas achava que, à medida que a China se desenvolvesse, ela se aproximaria da democracia liberal do Ocidente. Temos observado na prática justamente o contrário, o afastamento desses valores. Pode até ser que nada aconteça, mas que dá medo, isso dá;

v. Eleições presidenciais no Brasil, claro. Ainda que esteja bem confiante na vitória de um candidato alinhado à pauta reformista e liberal, sempre é um risco e um fator de incerteza. Uma eventual surpresa negativa aqui, com um segundo turno Ciro x Bolsonaro, por exemplo, poderia ser um desastre. (Sempre que escrevo coisas parecidas com essa, o exército de bolsominnions, muito bem organizado, se revolta contra mim. Eu respeito vocês. Por mim, tudo bem. Mas também gostaria de ter minha crença respeitada: eu não acredito na conversão bolsonarista ao liberalismo); e

vi. Trajetória fiscal brasileira. Mesmo com a eleição presidencial de um reformista liberal, há muita coisa a ser feita para dimensionar adequadamente o Estado brasileiro e nossa caminhada fiscal. Embora seja factível e até diria provável dar um plano de voo crível para a dívida pública brasileira, não vai ser fácil. Nunca é.

E temos, acima de tudo isso, os riscos desconhecidos, aqueles que nem sequer conseguimos mapear. Os chamados “unknown unknowns” de Donald Rumsfeld, justamente aqueles que dão origem aos cisnes negros e são os mais problemáticos. Como não conseguimos mapeá-los, estamos totalmente despreparados para sua ocorrência e, portanto, somos mais afetados.

Ditas essas coisas, a imagem que gostaria de passar hoje é a do mito de Anteu, filho de Poseidon e Gaia. Obrigava a todos que passavam pelo deserto da Líbia a brigar com ele. Ganhou de um por um, pois era extremamente forte quando estava com os pés no chão, em contato com sua mãe Terra (Gaia). Foi derrotado somente por Hércules, em um de seus 12 trabalhos, quando foi levantado do chão e segurado suspenso no ar até a morte.

Mantenha os pés no chão. No bull market, sobram gênios por aí – lembre-se: é só um bull market. Por mais otimista que esteja, não há por que manter mais de 30% de alocação do capital em ações e algo entre 10 e 15% em juros longões. Combine isso com um pouco de dólares e outros seguros contra catástrofes. Se os mercados colapsarem subitamente, você vai se lembrar disso para o resto da vida. E se não colapsarem, ainda terá ganhado bastante dinheiro. Você pode lidar bem com o fato de ganhar 50% em vez de 100%. Mas dificilmente vai sobreviver se perder 100% em vez de 50%.

Mercados abrem a quarta-feira retomando o otimismo – gosto de frisar sobre a necessidade da diversificação e dos seguros justamente quando tudo parece bem. Falar coisas assim em dias de tensão é somente oportunismo, aquele tipo de pessoa insuportável que adora repetir “não falei?”.

Otimismo com crescimento da economia chinesa eleva commodities e dispara disposição a tomar risco. Produção industrial na China cresceu 7,2%, bem acima dos 6,1 esperados. Vendas ao varejo vieram em linha com projeções e investimentos aumentaram mais do que a expectativa.

Agenda é bem relevante nos EUA, com inflação ao produtor e vendas ao varejo. Por aqui, somente fluxo cambial semanal.

Encerro o texto de hoje com um convite bastante sincero para a assinatura da série Palavra do Estrategista. Se você é uma das duas pessoas que gosta desta newsletter diária gratuita, eu, humildemente, gostaria de lembrá-lo que só é possível escrevê-la todos os dias por conta das assinaturas pagas da Empiricus. Custa somente R$9,90 por mês e, sinceramente, vale muito mais do que isso. O salto que se dá em termos de acesso a informação com a assinatura de um plano essencial da Empiricus é desproporcional ao valor pago. É para ser assim mesmo.

Na edição de hoje do Palavra do Estrategista, comento as perspectivas do mercado e o que me permite continuar otimista com os ativos de risco. Falo também de até onde podem ir as ações de empresas do setor de papel e celulose, em meio às especulações e notícias materiais sobre consolidação, com chances de bons ganhos no curto prazo. Por fim, comento um pouco sobre aquele que tenho chamado de melhor cavalo para surfar O Segundo Mandato Temer.

Ao menos teste por um mês o relatório. Se você não gostar, nem esses míseros R$9,90 você vai perder. Basta cancelar a assinatura e devolveremos seu dinheiro integralmente. Não há risco ou custo. Totalmente assimétrico. Talebiano. Nossa cara. Jogo limpo, transparência radical.

Clique na imagem abaixo e você será levado diretamente a uma aproximação com seus sonhos financeiros da infância.