Exodus ou Catch a fire?

Depois de um começo de ano espetacular, os estrangeiros estão batendo em retirada da Bolsa brasileira. Somente em março o êxodo do capital gringo ultrapassa 5 bilhões de reais. Há uma boa e uma má notícia sobre isso.

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Exodus ou Catch a fire?

Ainda tinha cabelos e liberdade quando inaugurávamos o fim de semana tomando uns birinaits e outros negocitchus na casa do Andrezão em Perdizes. Entre um cigarro e outros, a mente transitava loucamente pela bolha pontocom e pelo Bob Marley que rolava ao fundo: “Exodus, movement of Jah people! (Oh, yeah!) Men and people will fight ya down (Tell me why!)”.

Os pensamentos, literalmente, obedeciam a um andar do bêbado, a metáfora típica para se descrever um passeio aleatório. O som entrava como uma faca cortante nos ouvidos sensíveis, estimulados por um montão de coisa: “Exodus, Exodus, Exodus!”

Amanhã não venho. Nóis temém é fio de Deus. Você estará na ótima companhia do Rodolfo, que, quando estimulado por conversas de caráter etílico, insiste em atender apenas por Dorrrrfo, caprichando no “r” para enaltecer a alma de Valinhos. Nóis é jeca, mais é jóia.

Isso faz com que hoje seja minha última oportunidade de escrever sem partir para a Páscoa.

Antes de ir a Perdizes nas noites de sexta-feira, tínhamos de encarar as aulas de religião. Escola jesuíta, aquele papo todo. As coisas mudam tanto que até o Colégio São Luís está mudando da Paulista. Eu achei uma loucura. Aprendíamos com a turma da Pastoral que a Páscoa era um período de renovação e renascimento, quando celebra-se a ressureição de Cristo.

Na Companhia de Jesus, você é muito treinado no Novo Testamento, sabe pouco do Velho. Fui saber só depois que a Páscoa era comemorada muito antes do nascimento de Jesus. A própria Santa Ceia, nos apresentada exclusivamente como uma espécie de prenúncio da crucificação e momento de se apresentar a forma de se eternizarem o corpo e o sangue de Cristo, era, em si, uma comemoração ao Pêssach, que significa “passar por alto”, em referência à libertação dos escravos israelitas do Egito.

Está tudo lá, no livro do Êxodo, você pode conferir. Para evitar que os filhos primogênitos fossem mortos, Deus teria orientado os judeus a passar um pouco do sangue de um cordeiro na entrada de suas casas. Ao ver aquele sinal, o primogênito daquela morada seria poupado.

Na interpretação mitológica do Novo Testamento, o próprio Jesus seria o cordeiro pascal, entregando sua vida para tirar o pecado do mundo.

O livro do Êxodo, uma referência explícita à partida, saída, fuga, narra a libertação dos judeus sob a liderança de Moisés, com direito a travessia do Mar Vermelho. Você come o pão que o diabo amassou, mas no final chega em Canaã, a terra prometida.

Depois de um começo de ano espetacular, os estrangeiros estão batendo em retirada da Bolsa brasileira. Somente em março o êxodo do capital gringo ultrapassa 5 bilhões de reais.

Ontem, o efeito na variação das ações foi mais significativo. Teríamos interrompido a capacidade de atravessar razoavelmente bem uma eventual correção das bolsas internacionais?

Preciso qualificar um pouco melhor a coisa, dividindo em duas possibilidades. Vou me apropriar da ideia de um dos mais brilhantes gestores brasileiros, que me enviou por e-mail considerações valiosíssimas – nutro profunda admiração pelo sujeito e só não cito o nome aqui por respeito à privacidade alheia.

Uso a taxonomia dele. Vamos separar o mundo em dois.

O primeiro é o cenário em que obedecemos aos pressupostos do VaR (Value at Risk). Ou seja, de alguma forma, podemos até passar por uma correção, mas os movimentos estão dentro de certa razoabilidade, obedecendo a um comportamento semelhante àquele descrito por uma distribuição Normal (gaussiana; só para ser tecnicamente preciso, nada impede a adoção de um VaR paramétrico utilizando-se de uma outra distribuição, mas, em termos práticos, não se usa no mercado financeiro uma distribuição leptocúrtica para fins de VaR, de tal modo que não muda nada aqui).

O segundo se liga a um quadro de stress, em que vamos além do VaR. Sem linguagem técnica, se as variações negativas passam a não ser bem-comportadas, se vão além do razoável e do que nossas mentes lineares poderiam supor a priori. Falando o português claro, se atingirmos o terreno do pânico, em que ordens de stop são acionadas e nego sai vendendo sem ver preço.

Talvez aqueles mais treinados em Nassim Taleb tenham percebido o paralelismo com a divisão de Mediocristão, que aqui corresponderia ao cenário de respeito ao VaR, e Extremoistão, ligado ao cenário de estresse. É a mesma ideia.

A conclusão pragmática é: se nós cairmos num cenário tal como descrito pela obediência ao VaR, mesmo com queda de Wall Street, temos boas condições de nos descolarmos do mau humor externo. Já se adentrarmos o quadro de stress, daí não terá jeito. Seremos arrastados juntos pelo tsunami do pânico, com grande êxodo de investidores estrangeiros.

Qual a boa notícia? Para rompermos com os preceitos do VaR, tipicamente precisamos de algo sistêmico, que pegue o sistema financeiro e se desdobre em uma recessão. Hoje, os grandes bancos americanos estão muito bem capitalizados, reduzindo o espaço para uma crise desse tipo. A China, que também era grande fonte de preocupação, volta a crescer bem e tem endereçado seus problemas internos. Isso parece reduzir as chances de algo que nos jogue no cenário de stress.

Qual a má notícia? Dificilmente conseguimos antever as crises que nos jogam no cenário de stress. Os principais riscos são os escondidos, aqueles que não conseguimos ver ou antecipar. Não nos esqueçamos que há um ciclo muito avançado nas economias desenvolvidas, estamos encerrando uma era de hegemonia total norte-americana para um mundo de bipolarizado (antítese autocrática chinesa à tese da democracia liberal norte-americana) e vínhamos num mundo sem lei para gigantescas oligopolistas como Google, Facebook, Twitter, que pode estar prestes a se encerrar após o escândalo recente envolvendo a Cambridge Analytica.

Em resumo, o que conseguimos ver indica a preservação do cenário VaR, sem apertarmos o botão do pânico. Isso faz com que sejamos estruturalmente otimistas com nossas posições de risco. O problema é justamente o que não podemos ver. Daí viria um grande estresse.

Corolário pragmático: vamos de Bolsa e juro longo, 10 por cento de dólar, ouro e umas belas puts fora do dinheiro.

Assim você pode despreocupar-se com o eventual êxodo do capital estrangeiro, sem abrir mão de potencial de valorização. Catch a fire.

Depois da tensão da véspera, mercados abrem a quarta-feira ainda demonstrando certa cautela. Ações de tecnologia caem novamente lá fora, pressionadas uma vez mais pelos eventuais desdobramentos do escândalo do Facebook. Por aqui, há desconforto com cenário eleitoral e incerteza sobre comportamento do STF. Tensão com caravana do ex-presidente Lula e fragmentação de candidatos do centro, com filiação do ministro Meirelles ao MDB, não ajudam a desanuviar as coisas.

Na agenda econômica, IGP-M marcou inflação de 0,2 por cento em março, em linhas com projeções basicamente. Atenção para resultado consolidado do setor público, com dados de arrecadação surpreendendo positivamente.

Nos EUA, PIB apontou crescimento de 2,9 por cento, acima das projeções de 2,7. Estoques de petróleo norte-americanos completam a gama de indicadores do dia.

Ibovespa Futuro registra ligeira alta de 0,3 por cento, dólar está perto da estabilidade contra o real e juros futuros avançam.