Segredos de liquidificador: coisas que ninguém vai te falar sobre ciclos de mercado

Quando identifica um ciclo de mercado favorável para determinado setor, o megainvestidor (Soros) compra a melhor ação e a pior ação daquele segmento. A líder de mercado inevitavelmente vai se beneficiar da melhoria, naturalmente. Já a pior ação do setor vai passar a valer alguma coisa.

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Segredos de liquidificador: coisas que ninguém vai te falar sobre ciclos de mercado

“Você por aqui? Só a nata do value investing brasileiro neste evento, né?”

Eu nunca fui da nata do value investing brasileiro. Ele tampouco, embora a autoavaliação arrogante e desprovida de qualquer fundamento insistisse no contrário. Estava tudo errado, a começar pelo hálito daquele cidadão e pelo sequestro relâmpago do meu braço direito – o camarada segurou meu braço de um jeito que passei a temer uma trombose com a falta de circulação.

Gosto mais do George Soros – e aqui falo exclusivamente da sua figura como investidor – do que do Warren Buffett. Além do conceito da reflexividade, de uma intuição refinada e da maior profundidade intelectual, Soros me parece transmitir uma postura com que me identifico muito: ele não quer estar certo, ele quer ganhar dinheiro. “Compre primeiro, entenda depois” é um dos títulos de capítulo de sua excepcional biografia escrita por Robert Slater.

Mamãe sempre dizia: “Meu filho, no casamento, você quer ser feliz, não quer estar certo”. É mais ou menos por aí. Estar certo é para a satisfação do seu ego, ganhar dinheiro é para o seu bolso.

Conectei a história da nata ao George Soros depois de uma longa conversa com o megainvestidor Luiz Alves Paes de Barros, Henrique Bredda e Ney Miyamoto, da gestora Alaska. Fazia parte daquilo que virá a ser sua valiosa contribuição para a série As Melhores Ações da Bolsa, conforme sinalizei há alguns dias. Espero na semana que vem já ter o primeiro conteúdo publicado.

George Soros pensa muito em ciclos. E foi também sobre eles que começou a conversa com LAPB:

“No primeiro estágio do ciclo, existem algumas coisas muito largadas. Empresas boas, negociando muito baratas. Vocês não conhecem isso, porque agora só se bebe leite desnatado, tudo bonitinho na caixinha. Mas é como no processo do leite, para fazer gordura. Quando você chega, há uma espessa camada de nata na superfície. Então, você vai simplesmente raspando e acumulando aquilo. No começo, é muito fácil retirar a nata. Depois, fica mais difícil. Você tem que esperar um pouco, ferver o leite, até formar uma nova nata. Quando a gente comprou Magazine Luiza lá atrás, e essa continua sendo uma grande posição hoje, a nata estava toda na superfície. Estava barato demais. Agora, é uma nova fase. O ciclo está em outro estágio: é o momento das commodities e das ações superlíquidas. Depois vêm as ações boas e menos líquidas, em que as cíclicas domésticas lideram. Por fim, é o momento da euforia e do exagero: as empresas ruins e ilíquidas.”

Lembrei do Soros na hora. Quando identifica um ciclo favorável para determinado setor, o megainvestidor compra a melhor ação e a pior ação daquele segmento. A líder de mercado inevitavelmente vai se beneficiar da melhoria do seu nicho, naturalmente. Mas dificilmente apresentará uma multiplicação do capital. Se num momento favorável ao crédito o Itaú se multiplicar por 10x, ele passa a representar 120 por cento do PIB… do Sistema Solar. Já a pior ação do setor, que estava prestes a quebrar e não valia nada, vai passar a valer alguma coisa. E “do nada para alguma coisa” é muito por cento (ir de 1 para 3 por cento é bem diferente de ir de 10 para 12 por cento).

Expus o argumento e perguntei se chegará o momento de se comprar até mesmo as ações ruins e ilíquidas, ao que LAPB brilhantemente devolveu: “Sabe por que o Soros pode fazer isso? Porque ele não está mais tocando dinheiro de terceiros. Quando o dinheiro é seu, é uma coisa. Você pode fazer o que quiser com aquilo. Já se lida com o patrimônio de outras pessoas, não pode se dar ao luxo de comprar uma empresa ruim, jamais. Precisa de responsabilidade, da capacidade de explicar com números, linha por linha, por que você está fazendo determinado investimento. O momento ainda é das boas e líquidas. Daqui a pouco a gente pode pensar em ir para as boas e ilíquidas. E não vai para as ruins e sem liquidez, não”.

O que ele explicava em ondas de forma intuitiva era, para mim, a aplicação prática do modelo de Rudi Dornbusch, inicialmente proposto para o overshooting de câmbio, mas que pode ser aplicado a qualquer situação em que há dois mercados com velocidades de ajustamento diferente.

Dornbusch separa a economia em dois mercados: de capitais e de bens. O primeiro é muito mais rápido para reagir a um choque, a uma notícia nova. Os fluxos de capitais caminham muito mais rapidamente do que a construção de uma fábrica, certo?

Então, num primeiro momento em que acontece um choque, somente o mercado de capitais se mexe. O mercado de bens está paradinho ainda. Ou seja, as variáveis desse mercado se movem de tal sorte a atingir um novo equilíbrio, que contempla o dinamismo instantâneo dos fluxos de capitais e a paralisia inicial do mercado de bens. Portanto, as variáveis financeiras se movem, nesse momento inicial, por si e também pelo mercado de bens, que ainda não se ajustou por mera rigidez temporal. É isso que explica, racionalmente, o overshooting do câmbio. Ele vai além do razoável, do que seria seu equilíbrio de longo prazo, porque se mexe por si e pelo mercado de bens inicialmente. Com o tempo, o mercado de bens começa a se mexer e retira a pressão adicional das variáveis financeiras, devolvendo ao lado monetário seu equilíbrio de longo prazo (desfaz-se o overshooting inicial).

Troque mercado de capitais e de bens por líquidas e ilíquidas e temos rigorosamente a mesma dinâmica. Como as blue chips carregam muito mais cobertura, informação, capacidade de atrair fluxo, elas se ajustam muito mais rápido, se mexendo inicialmente por si e pelas demais. Então, elas ficam caras. A informação e a flexibilidade vão chegando às menos líquidas num momento seguinte e elas começam a se valorizar também.

A chata explicação teórica poderia ser resumida na prática assim: “Felipe, a geração de riqueza doméstica funciona assim: primeiro, há uma renda gerada exogenamente a partir da valorização das commodities. Depois de apropriada, ela passa a ser distribuída internamente. Para produzir e escoar soja e minério de ferro, você precisa de caminhão, estrada, porto. Cíclicos globais arrastando de maneira subsequente os cíclicos domésticos. Depois desse empurrão externo e da infraestrutura é que a riqueza vai se transformar em roupa na Hering e apartamento na Gafisa. Assim é o ciclo. Ele começou na segunda quinzena de janeiro de 2016. Deve morrer com uns sete anos de idade, mas isso, o timing em si, é um grande chute”.

Do meu lado, coloco sempre três pilares para fundamentar a essência do ciclo positivo: i) cenário externo favorável para mercados emergentes; ii) recuperação da economia doméstica; iii) migração do espectro político em direção à agenda de centro-direita e liberal.

Tivemos um reforço importante ao último item com a decretação da prisão de Lula pelo juiz Sergio Moro, mais rápida e ágil do que se supunha pelo consenso. A esquerda sai enfraquecida e também a direita mais radical, que precisa de um antagonista claro e de certo extremismo no debate para se viabilizar. Cria-se um pouco mais de substrato para potencial aglutinação, que ainda não aconteceu, em torno de um candidato de centro alinhado aos interesses do mercado.

Em contrapartida, a sexta-feira encontra um cenário externo mais nebuloso, com Donald Trump anunciando novas medidas tarifárias contra a China, que emerge como potência capaz de rivalizar com a soberania da democracia liberal ocidental, naquilo que batizei de Pós-História e que meu amigo Marcos Troyjo (não confundir com Marcos Trojillo, que estará no evento da XP) chama de O fim do Fim da História.

Agenda nos EUA é pesada, com o importante Relatório de Emprego e fala do presidente do Fed. Por aqui, nada muito relevante entre os indicadores econômicos.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4%, dólar e juros futuros sobem.