O in-crível Huck

Além do fator in-crível Huck, há uma hipótese de um novo corte na Selic em março. Se o juro básico for mesmo levado a 6,5%, isso pode forçar mudanças em sua carteira de investimentos para 2018.

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O in-crível Huck

Luciano Huck desistiu da candidatura à Presidência. Pelo que me recordo, já havia feito isso em novembro. Daquela vez não valeu, mas agora é sério, né? Desculpe, mas não pode ser crível.

Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa.

Ontem foi mesmo um dia estranho. Fico me perguntando: poderia a ata da última reunião do Copom apoiar-se em informações disponíveis somente depois do encontro?

Talvez eu esteja incorrendo na falácia lógica post hoc, propter hoc – depois disso, por conta disso. Pode ser, não descarto. Mas que foi esquisita a mudança de tom entre a decisão sobre a Selic e o documento disponibilizado ontem, isso foi. No meio do caminho, havia um IPCA notadamente abaixo do esperado, no que acabaria vir a ser corroborado ontem pelo IGP-10. Por mim, rebatizava o relatório para “ata de depois da última reunião do Copom”.

Fato é que agora o mercado passa a considerar de forma contundente, embora ainda não majoritária, a hipótese de um novo corte na Selic em março. Se o juro básico for mesmo levado a 6,5%, isso pode forçar mudanças em sua carteira de investimentos.

O maior risco é não correr risco algum, já resumiu Mark Zuckerberg. Para ficar exatamente igual, o investidor vai precisar mudar. Esse é só um aparente paradoxo. Aqui está a essência do devir de Heráclito. Tudo é movimento, num grande fluxo perene, e nada pode ficar parado. Nunca se entra no mesmo rio duas vezes – por conta da correnteza, a água sempre será outra. Não há o que você possa fazer, por mais esforçado, para mudar isso. Nunca será suficiente e a tentativa vai lhe sugar até a última gota de suor.

Se quiser continuar tendo os mesmos retornos dos últimos anos e meses, precisará fazer algo diferente. Se o juro básico rende 6,5% ao ano e permanece nesse patamar por 12 meses, você apura um retorno líquido (depois do imposto) em torno de 5%, assumindo sua capacidade em alcançar 100% do CDI. Descontada a inflação de 4%, está praticamente no zero a zero 12 meses depois.

O Ibovespa sobe 10% no ano, já recuperando os níveis pré-“flash crash” da Bolsa dos EUA. Se você montou uma grande posição passiva na Bolsa brasileira em 2018, poderia agora vender tudo e colocar em LFT. Chegaria ao final do ano com 200% do CDI. O ano está feito. Pode sair de férias.

Mas você merece mais do que isso. Obviamente, com os devidos cuidados. O alerta de Bill Gates encaixa com precisão no argumento: “O sucesso é um péssimo professor. Ele induz pessoas inteligentes a acharem que não podem perder”.

Eu imagino que você seja um gênio. De verdade. Mas há muitos gênios por ai nos mercados, que são informacionalmente bastante eficientes. Tough ain’t enough, ao melhor estilo Menina de Ouro. Competência e genialidade não significam necessariamente bons retornos nos investimentos. Uma das pessoas mais inteligentes que conheci, por exemplo, era um péssimo gestor de ações.

Ao se deparar com os ganhos de sua carteira em 2018, tente não perder de vista: é só um bull market. Eles costumam desmanchar-se no ar da forma mais súbita e inesperada, levando consigo toda sua genialidade e, mais importante, seu dinheiro.

Não acho que a tendência estrutural de alta tenha se esgotado. De todo modo, vale o alerta. Vamos de heróis a vilões num piscar de olhos. Você é tão bom quanto seu último trade.

Felizmente, as evidências ainda pavimentam a via em prol de mais valorização dos ativos de risco. Hoje tivemos mais indicadores de inflação abaixo do esperado no Brasil, enquanto o rali continua lá fora. O petróleo tem sua terceira alta seguida e, ao menos aparentemente, Wall Street superou a disparada súbita da volatilidade vista nas semanas anteriores.

Com o Ibovespa subindo 10% no ano, talvez você possa realizar, na margem, um pouco dos lucros e comprar um pouco mais de proteção. Não porque eu anteveja uma correção iminente. Aliás, ninguém pode, além dos charlatões, identificar ex-ante picos e fundos do mercado. Mas simplesmente porque é prudente.

Se for para falar o que eu acho, entendo que, apaziguada a situação das Bolsas norte-americanas, volta a se formar uma case interessante em favor de commodities e small caps, depois de termos percorrida a fase inicial do rali muito focada em blue chips capazes de absorver o fluxo estrangeiro.

Hoje, a Vale solta dados de produção e pode reforçar o argumento de atratividade no valuation e enorme fluxo de caixa livre a partir dos volumes e do nível de preço atual do minério de ferro.

Jornais voltam a sugerir possibilidade de união entre Fibria e Suzano. A primeira já era uma recomendação do Palavra do Estrategista, feita no começo do ano. A união não entra no meu cenário-base, mas pode ser um upside risk muito convidativo.

E como sexta é dia de maldade, até mesmo Usiminas, quem diria, pode ficar interessante. Aqui, claro, com mais risco e perfil especulativo, conforme identificou muito bem Sergio Oba no Serious Trader.

A agenda do dia é relativamente fraca em termos de indicadores. IPC-Fipe apurou inflação de 0,03%, contra expectativa de 0,15. IPC-S trouxe alta de 0,46%, frente a 0,60 esperado. Aguarda-se ainda pesquisa do setor de serviços.

Nos EUA, saem relatório Baker Hughes, construção de moradias e preços de importação.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,2%, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.