Viva la muerte

Caminhamos para a menor taxa Selic da história. O mercado financeiro brasileiro, tal como nós conhecemos, e as oportunidades de investimento que dele decorrem, é um cavaleiro medieval marcham em direção à morte.

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Viva la muerte

É possível enganar a morte?

O pessoal da Singularity diz que sim. O falecimento seria uma doença como outra qualquer e, portanto, poderia ser tratado, interrompendo o envelhecimento celular. A partir de 2045, já teríamos, supostamente, tecnologia pra isso.

Eu não sei. Acho um papo estranho. Ao menos até agora, tentativas ao longo da história nesse sentido não se mostraram bem sucedidas. Há exceções, claro. Uma vizinha lá do prédio deve ter, chutando por baixo, seus 200 anos, o que a coloca indiscutivelmente como a primeira brasileira Highlander. Entra no elevador e começa a tocar “Who wants to live forever….”

Ingmar Bergman retratou com brilhantismo a tentativa de driblar a morte, pelo menos ganhar algum tempo. Em O Sétimo Selo, um cavaleiro regresso da Cruzada da Fé volta para sua terra para encontrar peste e morte. Ao chegar na Suécia medieval, ele se vê diante da figura da morte, bem na sua frente – eu ia escrever em carne e osso, mas vai saber de que a morte é feita, né? Eu imaginaria mais osso do que carne, o que de certa forma me anima, principalmente se pudermos classificá-la dentre as falsas magras.

Ao se deparar com a morte, o protagonista propõe uma negociação: vamos jogar xadrez. Com isso, ele ganha tempo e, quem sabe, com alguma sorte pode entender o sentido da vida. Em certas interpretações, o jogo de xadrez aparece como uma alegoria para retratar a tentativa de entender a vida por meio da racionalidade. Evidentemente, não há como vencer a morte, tampouco entender a vida por meio da razão. Talvez Bergman fosse um cético, igualzinho o Sextus Empiricus, autor de Contra os professores e desconfiando dos poderes mágicos da razão.

Todo este papo tétrico a esta hora da manhã tem um objetivo. Eu gostaria de imputar uma imagem na cabeça do investidor. O mercado financeiro brasileiro, tal como nós conhecemos, e as oportunidades de investimento que dele decorrem, é um cavaleiro medieval marcham em direção à morte.

Ou nós mudamos a forma com que encaramos nossos rendimentos, ou estamos necessariamente fadados a pegar carona com Caronte, o barqueiro do Hades.

Ontem, confirmando as expectativas, Copom reduziu taxa Selic em 0,75 ponto percentual, para 7,5% ao ano. Deixou clara nova diminuição em sua próxima reunião, de 50 pontos, para 7%. Não há, neste momento, sinalização para passos posteriores. O comitê retirou a expressão “encerramento gradual do ciclo”, e deixou em aberto quedas abaixo de 7% ao ano para o juro básico. Resumindo, vamos até 7% e então avaliamos. Não vou chutar o que acontece a partir daí porque essa não é minha profissão.

Caminhamos para a menor taxa Selic da história. E ficaremos em patamares baixos por bastante tempo. Isso que importa.

Pra ser bem sincero, nem acho que a inflação brasileira vai ficar baixa por muito tempo. Esse País é uma bagunça, ano que vem tem eleições, o dólar pode subir lá fora com o Fed apertando o torniquete monetário, temos um problema fiscal gravíssimo e as razões são sempre não lineares – ninguém enxerga a recuperação do PIB, de repente, boom! Assim também é com a inflação.

Mas não há dúvida de que existe em curso uma revolução em curso no mercado de capitais brasileiros. Acabou a farra do CDI. Essa coisa de 15, 20% ao ano não vai existir mais – a não ser que você incorra em alguma sorte e/ou adicione mais risco em sua carteira.

Agora, 10% ao ano representa 150% do CDI e isso é formidável. As pessoas precisam entender que os rendimentos mensais de 1% que elas tiveram ao longo da vida inteira sem se levantar do sofá não vão mais existir. Essa é a primeira vez que isso acontece na história brasileira – até tivemos uma janela breve de 7,25% ao ano. Mas não de forma sustentada, num cenário destruído pela criativa nova matriz econômica.

É inexorável para o investidor:

1. alongar o prazo de sua carteira de renda fixa soberana. Depois de muito tempo, voltei a ouvir bons gestores falando de NTN-B 2050 (Tesouro IPCA+). De fato, num cenário externo ainda de juros baixos, alta liquidez, crescimento global sincronizado, inflação mundial baixa, parece haver sustentação para prêmios de risco menores aqui, principalmente se Rodrigo Maia, conforme sugere, de fato, assuma a pauta de reformas fiscais e consiga avançar com a Previdência, menos mais enxuta, e se tivermos um candidato reformista vencedor em 2018 – as condicionantes são fundamentais, mas prováveis. Num ambiente assim, não faz sentido pagar um juro real de 5% ao ano.;

2. considerar renda fixa corporativa em suas aplicações. Debêntures, manja debêntures? Esse ainda é um mercado ilíquido, mal coberto e cheio de nuances, para ser generoso e eufêmico com as plataformas de distribuição, mas, mesmo assim, oferece boas oportunidades. A Marília Fontes tem uma lista importante de recomendações nesse segmento – material referência mesmo.

3. aumentar ações em seu portfólio. Pegue o cenário macro do item i). Adicione que as empresas devem passar por uma brutal alavancagem operacional nos próximos anos. Com a economia crescendo mais de 3% em 2018, vai vir aumento de receita. Isso num ambiente de empresas bem enxutas e com controle rígido de custos e despesas, tendo feito a lição de casa por conta da crise. Não há mais aquela esdrúxula pressão de salários, típica das tentativas de conceder aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade, uma das características da política econômica heterodoxa anterior. Os juros são muito menores e o câmbio está mais estável, permitindo melhora expressiva do resultado financeiro. Corolário: teremos aumento dos lucros e aumento dos múltiplos.

Num ambiente como esse, todos deveriam se unir em prol de iniciativas de democratização da informação financeira e da popularização de mecanismos que fomentassem acesso mais amplo para o investidor pessoa física. Infelizmente, caminhamos na contramão da história.

Hoje mesmo, eu penso: estou otimista com Petrobras, mas não muito otimista com petróleo. Como seria bom se pudesse dar acesso à pessoa física a um long em PETR4 e short em petróleo, por exemplo. Os doutos logo diriam: “ora, mas é o investimento errado para a pessoa errada.” Precisamos abandonar essa arrogância, esse ar de superioridade. Estamos sendo apenas ridículos.

Volto a questões mais interessantes, minha posição sobre a morte continua a mesma de sempre: sou radicalmente contra.

Se há uma coisa boa sobre a morte de um ambiente antigo é que normalmente surge um outro melhor. Copiando outra frase de Woody Allen: “tenho um interesse particular pelo futuro porque é o lugar onde passarei o resto da minha vida.”

O varejo é o futuro, mas o futuro é um assunto pra depois.

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Após vitória de Michel Temer sobre a segunda denúncia contra si e a decisão do Copom de novamente reduzir a Selic, Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,25%. Otimismo com commodities no exterior, sinalização de Rodrigo Maia em prol de reformas e resultados corporativos pautam o dia – Vale e Ambev estão entre aquelas que soltam balanço. Dólar regista leve alta contra o real e juros futuros sobem.

No exterior, destaque para reunião do BCE e entrevista de Mario Draghi, com sugestões potenciais sobre futuro dos estímulos monetários na Europa. Nos EUA, temos pedidos de auxílio-desemprego, vendas de casas pendentes e estoques no atacado.

Agenda local reserva INCC levemente acima do esperado (0,19 contra 0,14%), nota do setor externo e resultado primário do governo central.

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