Sobre sardinhas e tubarões

Enquanto os tubarões querem ser mais rápidos, mais inteligentes e mais ferozes, espertas mesmo são as sardinhas que se contentam com as médias.

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Sobre sardinhas e tubarões

Há mais ou menos uns dois anos, mergulhei na Baía do Sueste em Fernando de Noronha. Deixei a Pousada Maravilha com uma bermuda preta da Nike, uma camiseta de manga comprida com proteção UV, um par de pés de pato e um snorkel. Caminhei aqueles poucos metros até a praia feliz com a beleza daquele meu encontro, sozinho, com o desconhecido, a imensidão do mar e toda a incerteza ali representada.

Entrei na água munido da convicção de que, quanto mais me afastava da praia nadando, mais me aproximava de mim mesmo. Uma viagem para dentro. Após alguns metros para dentro do mar, esbarrei com tartarugas gigantes, polvos, arraias e peixes em tonalidades que eu sequer sabia da existência. Foi uma das poucas vezes em que pude encontrar a calma e a paz que eu, talvez em postura arrogante, acredito merecer. Podia sentir o diafragma em movimentação serena, transmitindo a sensação de tranquilidade.

A calmaria foi subitamente interrompida por um susto. Eu já via as pessoas pequenininhas lá na praia, indicando uma distância razoável até a terra firme. De repente, percebi ao meu lado um tubarão maior do que meu próprio corpo – parecia ter algo em torno de dois metros; portanto, cerca de uns 10 a 12 centímetros mais do que eu mesmo. Por alguns segundos fiquei atônito, com o adrenalina penetrando feito Velozes e Furiosos em minhas veias. Da total tranquilidade ao medo mais profundo em um sopro de momento.

Sabia da recorrência dos encontros ali entre banhistas e tubarões lixa e limão, normalmente dóceis e sem qualquer risco para os humanos. Por outro lado, há pouco tempo um tubarão tigre tinha arrancado o braço de um mergulhador bem perto de onde eu estava. Deu no jornal e tudo. Eu, um caipira da cidade, como poderia distinguir entre lixa, limão ou tigre àquela altura? Ou, ainda, como garantir que o normalmente dócil significa sempre dócil? E se o bicho não estivesse em seus melhores dias?

Não tinha o que fazer. Olhei de novo para a praia. Naquele momento, pareciam quilômetros de distância. Se o animal quisesse me atacar, não haveria qualquer saída. Seria uma presa fácil. A sardinha (eu) abocanhada pelo tubarão. “Game over”, pensei. Então, resolvi relaxar. Grace under fire. Acho que o animal também. Nadamos bem perto durante uns 45 minutos, que magicamente no relógio marcaram 30 segundos. Parecia até que começávamos a nos divertir. A maior ameaça virou, subitamente, um amigo, que transmitia cumplicidade, mesmo reconhecendo minha fragilidade (ao menos essa foi minha sensação no momento – sinceramente, é o que interessa). Sardinha e tubarão numa convivência harmoniosa.

A verdade é que sempre acreditei nisso. Nunca comprei a dicotomia entre o predador e a presa, o grande e o pequeno, o preto e o branco, o bem e o mal, o investidor institucional/profissional e a pessoa física. Minha sensação – de novo, pra mim, é o que interessa – é que temos uma missão, justamente de aproximar esses dois últimos.

O mercado financeiro é tomado pela crença de que só o investidor profissional pode ter retornos acima da média. Hoje apresento um argumento meramente algébrico para tentar provar o contrário: que normalmente o investidor profissional de Bolsa, dotado de uma certeza de carregar um superpoder de fazer stock picking, encontra retornos abaixo das médias, representadas pelos índices de ações.

Imagine a ação Y pertencendo ao índice Z, com um peso qualquer, desde que minimamente significativo. Suponha que Y tenha subido 10 mil por cento em 2017 – vamos evitar chamar a ação de X para dar o mínimo de verossimilhança à coisa.

Evidentemente, 10 mil por cento se trata de um exagero, mas é indo ao limite que encontramos de maneira mais didática a verdade.

Ao final do ano, a performance positiva do índice Z será explicada em 120 por cento pela multiplicação da ação Y. Ou seja, somente os investidores/fundos que tinham a tal ação Y conseguiram superar a média ponderada Z.

Obviamente, em meio a 342 empresas listadas na Bolsa, a chance de um determinado investidor ter aquele papel que multiplicou por 10 mil por cento é inferior a 50 por cento. A maior parte dos fundos/investidores profissionais não vai mesmo ter a ação Y e é por isso que ficará abaixo da média.

Por conta do perfil convexo das ações (pode se multiplicar por várias vezes, mas nunca pode cair mais do que 100 por cento), a valorização dos índices (das médias) é explicada fundamentalmente por um pequeno número de papéis. Por uma questão trivial de probabilidades, a chance de você ter aquele pequeno número é mesmo pequeno. Entre outros fatores, daí decorre a dificuldade de superar os índices de ações no longo prazo.

Enquanto os tubarões querem ser mais rápidos, mais inteligentes e mais ferozes, espertas mesmo são as sardinhas que se contentam com as médias. Se você conseguir empatar com os índices, já estará melhor do que a maior parte dos investidores. Compre ETFs, comemore seu pertencimento à margem direita da distribuição.

Como diria Dostoiévksy em O Idiota, “é muito fácil viver fazendo-se de tonto. Se o tivesse sabido antes, ter-me-ia declarado idiota desde a minha juventude, e poderia ser que, por esta altura, até fosse mais inteligente. Porém, quis ter engenho demasiado depressa, e eis-me aqui agora, feito um imbecil.”

Mercados brasileiros iniciam a sexta-feira recuperando otimismo, empurrados por um exterior mais propenso a risco, retomada de um prognóstico mais positivo para Previdência e inflação oficial abaixo do esperado.

Jornais noticiam data de 18 de dezembro para início da votação da reforma da Previdência, com discurso mais uníssono em prol da aprovação (embora ainda faltem votos). Na agenda, IPCA mostrou inflação de 0,28 por cento, frente a expectativas de 0,35.

Lá fora, dados da balança comercial chinesa trazem bom humor, bem como menor preocupação com teto de gastos nos EUA. Employment Report, estoques no atacado e confiança do consumidor da Universidade de Michigan completam a agenda norte-americana.

Ibovespa Futuro registra alta de 1 por cento, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.

Dois lembretes antes de encerrar hoje:

1 – Convido para sua inscrição gratuita na Jornada INS, um material muito especial pensado para transformar sua vida financeira em 2018 feito pelo Alexandre Mastrocinque.

2 – Na semana que vem, encerraremos o Reserva Empiricus. Não é que não vamos mais vendê-lo. O próprio plano em si deixará de existir. Portanto, se você tem interesse na adesão, ligue hoje no (11) 4003-3117.