Sobreviver primeiro, entender depois – e lá se vai o ouro

Para nossos fins, Warren Buffett resume: para ser bem sucedido financeiramente, primeiro você precisa sobreviver.

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Sobreviver primeiro, entender depois – e lá se vai o ouro

Escrevo estas linhas do hospital. Mamãe não se sentiu bem e foi ao médico. Não parece nada grave. Estava com uma infecção perigosa na garganta. Dr Queique não conseguiu entender direito o que era e logo encaminhou a internação, por prudência.

Feitos os exames, acham que é pneumonia. Ela deve ficar até o fim da semana, mas está tudo sob controle. Não se preocupe.

Conto isso não para despertar compaixão ou conferir tons dramáticos à narrativa. “Com doença e comida não se brinca”, papai repetia isso exaustivamente. Aprendi da forma dura, com chineladas alternadas em cada nádega, proporcionais às batatas fritas que voavam nas guerras de comida que promovíamos no McDonalds na infância.

A medicina nos oferece uma lição valiosa. Sobreviver primeiro, entender depois. Agora sabemos que se trata de uma pneumonia. Antes, ninguém imaginava. Na dúvida, manda pro Einstein. Lá, ela está bem cuidada, livre dos perigos e tranquila. Já está sorrindo novamente e reclamando da falta de tempero da comida.

Na ciência, uma crença é literalmente uma crença. Está certa ou errada, sem espaço para metáforas. Na vida real, acreditar é o instrumento para a realização pragmática de alguma atitude. Na analogia de Nassim Taleb, nossos olhos têm o propósito de nos orientar da melhor forma possível, para nos tirar dos perigos quando necessário, ou para nos ajudar a encontrar o caminho adequado. Eles não são meramente censores feitos para capturar o melhor espectro eletromagnético da realidade, reproduzindo uma representação precisa e apurada da realidade científica. Trata-se de um mecanismo útil à sobrevivência.

Ela vem à frente de tudo. Depois podem chegar a verdade, o entendimento, a ciência. Você pode sobreviver sem fazer ciência, mas não pode fazer ciência sem sobreviver.

Para nossos fins, Warren Buffett resume: para ser bem sucedido financeiramente, primeiro você precisa sobreviver.

Sendo um pouco mais rigoroso, eu arriscaria ir um pouco mais longe. Ao usar a palavra “primeiro”, damos um ordenamento cronológico à coisa. Em muitas situações, agimos sem entender. Na verdade, na maior parte das vezes é assim mesmo. A vida não é inteligível. Aquelas coisas básicas “de onde vim”, “para onde vou”, bla bla bla. Em linguagem técnica, a realidade é não ergódica. A complexidade e a aleatoriedade dos fenômenos jamais poderão caber em nossos modelos mentais, tentativas ridículas de explicar a realidade.

Como diria Woody Allen, se você quer fazer Deus sorrir, conte a Ele seus planos.

A terça-feira é marcada por importante aumento do grau de aversão a risco, após a Coreia do Norte lançar míssil no mar do Japão e recrudescer a tensão geopolítica internacional. Em resposta, o índice VIX dispara 20%, num termômetro clássico (certo ou errado, não importa neste momento) de elevação das tensões.

Quando alguém grita fogo no teatro, todos correm desesperadamente para a porta, que é normalmente pequena demais para permitir a evacuação total do estabelecimento. Assim é o mercado.

Agora todos estão atrás de um bom seguro. É como se estivéssemos num barco naufragando e todos fossem atrás de um colete salva-vidas. Na hora do caos, vamos puxar os cabelos uns dos outros (aqueles que dispõem de cabelos, claro), nos apoiaremos na pessoa ao lado tentando buscar oxigênio na superfície, pisaremos sobre os demais. Vamos buscar segurança quando possivelmente é tarde demais.

A metáfora é usada para mostrarmos o quanto temos de ter seguros quando as coisas estão boas, não depois que elas explodem. O investidor vai manter sempre 5 a 7 por cento de seu portfólio em ativos que andam bem quando as coisas vão mal. Pela maior parte do tempo, vai perder dinheiro com isso. Aliás, não é este o propósito do seguro? Pense no seu carro. Você, na maior parte do tempo, ganha ou perde dinheiro com o seguro automotivo?

Mas na hora que mais precisar lá vai estar aquele negócio pronto para lhe salvar.

Quais são os seguros tradicionais e mais adequados? Essa parece ser uma pergunta natural em face ao exposto até aqui.

A literatura tradicional aponta moedas fortes (dólar, iene, franco suíço), armas, terras e metais preciosos como seus maiores representantes. De maneira mais atual e moderna, os derivativos, mais precisamente as opções, foram adicionados à lista.

Vou desprezar as armas, por razões óbvias. Peço atenção especial ao ouro. Ele volta a subir vigorosamente nesta terça-feira, já na casa de US$ 1.320/onça. É curioso como o investidor brasileiro, mesmo o mais sofisticado, passou a ignorar o ouro como alternativa de hedge nos últimos tempos. Ninguém fala sobre isso internamente. Antes, tínhamos gestores famosos operando isso muito bem. Agora, ninguém. Lá fora, a gente vê o Ray Dalio defendendo publicamente o ouro como melhor instrumento de proteção para o momento. Aqui, não há viv’alma.

O que vamos comprar de moeda forte?

Dólar? Com Trump em tremenda dificuldade de se acertar com o Congresso e mesmo com o partido republicando, com uma bomba-relógio no Twitter?

Euro? Na marca de 1,20 contra o dólar, seu maior patamar desde 2015, mesmo diante de problemas estruturais e insuperáveis da Europa, em que pese uma recuperação econômica momentânea?

Iene? Com míssil passando por perto e com o BoJ ainda sendo o único Banco Central relevante a injetar dinheiro na economia?

Eu estaria short em todas essas moedas. E também não iria para moedas emergentes num momento de aversão a risco. O problema é que shortear moeda é sempre um trade relativo. Se estamos pessimistas com todas elas, a alternativa pode ser mesmo o ouro.

Curiosamente, talvez a própria concepção de moeda fiduciária esteja em risco. Na noite da véspera, a capitalização de mercado de todas as moedas digitais marcou novo recorde histórico, em 160 bilhões de dólares. Hoje, o ethereum sobe mais 4 por cento. Estamos bastante focados em estudar as moedas digitais. Aproveitando mais uma vez uma ideia de Ray Dalio, eu gostaria de poder lhe apresentar o Vinicius Bazan – temos aqui um verdadeiro intelectual navy seal, pronto para guiar-lhe na batalha de alto risco, mas muito retorno e potencial de verdadeira multiplicação, do mundo das criptomoedas.

Precisamos sempre estar abertos ao novo, sob o risco de sermos atropelados e ficarmos mortos no passado. Como diria Woody Allen mais uma vez: “não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer.”

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Em dia de maior aversão a risco, Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,44 por cento, dólar se move pouco contra o real e juros futuros buscam definir tendência.

Agenda norte-americana traz preços de moradias e confiança do consumidor. Por aqui, temos déficit do governo central e votações de destaques da TLP e da nova meta fiscal.

PS.: Conforme prometido, Sergio Oba acaba de publicar aquilo que considero talvez o melhor relatório já feito sobre a indústria de shoppings no Brasil. Daí decorreu uma oportunidade de lucro bastante quente. Vale a pena acompanhar.

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