Eu tive um sonho, vou te contar

Se você quer realizar um sonho, precisa se manter firme no propósito. Meu sonho, tento transformar em realidade todos os dias a partir de muito esforço.

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Eu tive um sonho, vou te contar

O Beto (CMO da Empiricus) e a Bia (COO) têm uma piada interna já tradicional aqui: “Lá vem o Felipe com aquele papo de vocação e educação jesuíta”. A parte boa é que eles falam na minha frente. As partes ruins são duas: i) talvez/com certeza, eu seja um sujeito muito repetitivo; e ii) fico imaginando o que eles falam por trás.

Tenho mesmo essa coisa comigo desde criança. Por mais que tente desviar-me do chamamento, está assentada a memória da Companhia de Jesus e o magis de Santo Inácio de Loyola segurando-me no que acredito ser uma missão.

Parecia coisa de criança, mas agora me vinguei deles. Nos mais avançados cursos de gestão e no já clássico “Organizações Exponenciais”, que virou uma espécie de necessidade básica de leitura para pagar de descolado no mundo das fintechs, obviamente transformando-se num grande clichê disfarçado de inteligente, está lá: sem propósito, nada feito. Da ética judaico-cristã para um imperativo empresarial… quem diria!

O mercado financeiro clássico ainda resiste um pouco à disseminação da ideia. No livro da Luciana Seabra com os gestores de ações brasileiros, me lembro só do Zeca (Tarpon) chamando atenção para a necessidade de um propósito – e aqui faço o registro de meus mais sinceros votos de sucesso na nova fase da gestora, bem descrita em matéria de hoje do Valor. Neste tema, também preciso mencionar os esforços do Daniel Izzo da Vox Capital em seus fundos de impacto e o bom fundo da Azimut, que pude conhecer por meio da ponte feita pelo Marcelo Elaiuy, a quem preciso agradecer desde que tenho cinco anos de idade.

Qual é o nosso propósito transformador massivo? (Sim, eu também me rendi e sou leitor clichê da turma da Singularity.)

Pensa o seguinte: há uma família típica de classe média alta (ou se quiser, razoavelmente rica). O marido João é engenheiro da Petrobras, a esposa Maria dá aulas na pós-graduação do Ibmec. Juntos, dispõem de uma renda familiar de 50 mil reais por mês. Poderia ser menos, tudo bem. Não importa muito, basta que sobre alguma coisa depois de descontados os gastos mensais. Varie as cifras sem qualquer perda de generalidade. O patrimônio em liquidez da família monta a 3 milhões de reais.

Eles sabem das necessidades de investir bem esse dinheiro acumulado, além da sobra mensal. Estimulado pelo chefe mais rico, João procura uma gestora de patrimônio, cujo “modelo é mais limpo e transparente, sem conflito de interesses”, nas palavras de seu diretor.

Infelizmente, esbarra em seu patrimônio ainda baixo para os padrões das grandes gestoras de fortunas. Tenta uma, duas, três. Sem sucesso, decide recorrer ao banco mesmo. Ele já vai com desconfiança para a primeira reunião. Aquela mesma instituição que anos atrás havia lhe oferecido PIC, título de capitalização e fundos próprios poderia realmente agora ter mudado e passado a propor recomendações alinhadas ao interesse do cliente, ou somente do próprio banco?

Os conflitos de interesse são um tanto óbvios. João quer investir seus 3 milhões de reais para gerar resultado para si, não para a instituição financeira de que é correntista.

Deixe-me lhe explicar rapidamente de forma mais clara sobre a importância dos conflitos de interesse usando o exemplo das agências de classificação de risco.

Imagine que uma empresa precise levantar dinheiro para fazer uma nova fábrica. Para isso, ela vai tomar uma dívida no mercado. Se esse crédito vier acompanhado de uma nota dada por uma agência de classificação de risco, a empresa poderá pagar uma taxa de juros menor. Logo, ela contrata uma dessas agências de rating. Agora, qual a chance de a agência de rating dar uma nota ruim para a qualidade do crédito da tal empresa se é essa empresa que está pagando a agência de rating? No meu mundo, zero.

Se o vendedor da loja pudesse escolher qual e quantas roupas você compraria ali, você acha que a conta ficaria barata ou cara?

O banco, ao oferecer produtos para o cliente, vai tentar maximizar os resultados do próprio banco ou do cliente? Se ele mantém negócios com a empresa X, por exemplo, qual recomendação seus analistas darão para as ações e os títulos de renda fixa dessa companhia X? E para os títulos do governo, cuja relação com o sistema financeiro é umbilical?

João não é bobo e sabe disso. Então, ele decide abandonar a alocação proposta pelo banco. Além dos conflitos de interesse, percebeu que a história de “plataforma aberta” é na verdade “semi aberta”, ou seja, de que a oferta de outros produtos é escassa e por vezes restrita a patrimônios maiores. Por fim, as taxas são bem altas e o que ele vêm pagando de corretagem simplesmente come boa parte de seus retornos – num mundo de taxas de juro de 6,75% (quem sabe 6,5%), qualquer economia faz diferença no final do dia.

Então, ele decide por abrir conta numa corretora, no que, diga-se, acho um movimento bastante acertado. E o que encontra?

Hoje, no Brasil, há dois modelos: i) um totalmente self direct, em que o investidor precisa escolher onde colocar o dinheiro sem assessoria de um profissional de investimento; e ii) outro em que a ponte do investidor com suas aplicações é feita por um agente autônomo, sem uma pesquisa profunda e isenta do que seriam as melhores recomendações para aquele sujeito em particular – a remuneração do agente autônomo varia de acordo com essa ou aquela aplicação feita pelo investidor; de novo, estamos com os incentivos distorcidos.

A tendência humana é de maximizar as alocações naqueles ativos que conferirão maior remuneração para o próprio agente autônomo. O conflito de interesse, de onde ele fugiu originalmente ao sair do banco, continua presente. Não se trata de um problema específico com o agente autônomo. É do ser humano, que simplesmente luta por um prato de comida e pelo leite das crianças. A estrutura do incentivo está errada. Como resumiu Dan Ariely, se você expõe o sujeito ao conflito de interesse, ele vai cair, cedo ou tarde.

Então chegamos ao nosso propósito. Servir ao João e à Maria as melhores recomendações de investimento possíveis, de forma isenta e totalmente transparente, sem qualquer conflito de interesses. Acertar no mercado financeiro já é difícil pra caramba. Se você quer acertar os melhores investimentos e, ao mesmo tempo, obedecer a uma agenda oculta, as chances de sucesso são muito baixas.

Meu sonho, que tento transformar em realidade todos os dias a partir de muito esforço, é fazer com que esse casal possa transformar esses 3 milhões de reais em muitos outros, de maneira segura e alinhada aos próprios interesses.

Se eu fosse a Maria, que certamente cuida bem melhor do que o João das finanças da casa, eu separaria esses três milhões da seguinte forma:

Passo 1: começaria pensando que as coisas podem dar errado, pela simples razão de que elas efetivamente podem. Então, separaria algo entre 5 a 10% do dinheiro para a compra de seguros tradicionais. Dólar, iene, franco suíço e ouro são alguns dos seguros tradicionais. A Luciana Seabra tem uma bela recomendação de fundo cambial para a Maria.

Passo 2: separe alguma coisa entre 50 e 60% para aplicações de renda fixa no Brasil, com peso grande para os indexados à inflação. Lembre-se de que a família precisa preservar seu poder de compra ao longo do tempo e as NTN-Bs estão aí para isso. A Marília escolheu as melhores para comprar em seu Tesouro Empiricus.

Passo 3: cerca de 10% pode ir para o setor imobiliário por meio dos FIIs, que estão atravessando um momento fantástico agora. Servem de proteção contra a inflação, oferecem uma renda mensal interessante e gozam também de potencial de ganho de capital. Daniel Malheiros é hoje a principal referência do setor e tem os melhores selecionados para você.

Passo 4: o restante pode ir para ações. Você escolhe se faz de maneira direta (comprando em seu home broker) ou indireta (via fundos). Se for o primeiro caso, Bruce Barbosa tem uma relação de Melhores Ações da Bolsa. Se for o segundo, a Luciana de novo pode lhe ajudar.

Algumas vezes, é preciso fechar os olhos, para não morrer e não se machucar. Tampo os ouvidos com cera para não escutar cantos de sereias. Se você quer realizar um sonho, precisa se manter firme no propósito.

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