Muito além do entendimento

Se uma pessoa bem sucedida está em contato com o deus moderno, o sucesso financeiro, de imediato forma a convicção de que tudo que não pertence àquele caminho não é adequado e deve estar errado.

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Muito além do entendimento

Almocei com o Luiz Felipe Pondé na semana passada. Foi um deleite. Acho mesmo um privilégio. Pondé tem um mérito raro nos dias de hoje, sobretudo entre os intelectuais. Ele pensa com a própria cabeça. Gosto do seu sarcasmo, do tom provocador e politicamente incorreto, da influência de Nietzsche e, claro, da proximidade com o ceticismo grego, que me remete ao Sextus Empiricus. Fiquei feliz em saber da inclusão do Taleb entre as suas referências bibliográficas…

Sinto um pouco de vergonha em dividir uma mesa com pessoas muito mais inteligentes do que eu. Felizmente, a frequência desses encontros é baixa: de segunda a domingo. Às vezes, penso gozar de uma interlocução que não merecia. A parte boa é que posso ouvir muito mais do que falar, embora as pessoas da mesa insistam em me passar a palavra. Controlo meus ataques de fúria, falo uma ou outra coisa e já emendo subitamente uma pergunta – também estou ensinando o João Pedro a passar de primeira, principalmente com a canhota.

No almoço, falamos bastante da vitória da ética do individualismo e do egocentrismo, o ego individual no centro. Sem falar explicitamente, era no fundo uma conversa permeada pelas ideias do belo livro dele A Era do Ressentimento, que trata justamente de potenciais exageros em torno do individualismo e do narcisismo. Ninguém mais fala na ética aristotélica (das virtudes) ou dos imperativos categóricos (de Kant). Só há o ego individual – e tudo bem.

Há implicações importantes sobre o investimento quando se elevam o narcisismo e o individualismo à condição de superioridade. Imagine uma pessoa bem sucedida. Se está em contato com o deus moderno: o sucesso financeiro. De imediato, se ele encontrou o caminho, forma a convicção de que tudo que não pertence àquele caminho não é adequado e deve estar errado.

Se eu “venci na vida”, sou tomado como conhecedor do funcionamento das regras do mundo. Ora, se “vencer na vida” é o grande e quase único desejo atual, aqueles que o fizeram são elevados a uma espécie de pessoa capaz de falar sobre qualquer coisa.

Daí decorre que, se essa pessoa não conhece um determinado outro caminho, coisa ou investimento, essa alternativa não presta. Se eu não domino algo e eu sou bem sucedido, então este algo pertence aos maus sucedidos. Como só o meu ego está no centro, aquilo que não me pertence ou que eu não compreendo não serve.

Você pode ver isso todo dia. O ar de superioridade dos “vitoriosos” e o desprezo, o preconceito e o julgamento inadequado daquilo que não se conhece. If you are so rich, why aren’t you so smart? (se você é tão rico, por que você não é tão inteligente?), perguntaria o também provocador Nassim Taleb invertendo a ordem clássica do ditado americano.

A própria Empiricus já passou por isso. Ainda passa, pra falar a verdade, embora tenha sido muito pior no passado. Se eu não entendo, é ruim. Critique primeiro, compreenda depois.

Evidentemente, estamos diante de uma falácia lógica clássica, mas quem é mesmo que liga pra lógica?

O desprezo pelo desconhecido ou pelo caminho alternativo dos gloriosos esquece-se de que a “vitória na vida” pode ser apenas fruto de um entendimento particular sobre uma determinada atividade – e não sobre o funcionamento do mundo todo e de todas as coisas do mundo. O escopo daquilo em que você se deu bem é um subconjunto das possibilidades em que alguém pode se dar bem. É como se o Neymar achasse que o único jeito de se realizar profissionalmente, para qualquer pessoa, fosse pelo futebol.

O fato de ser competente numa atividade particular não lhe confere a autoridade para falar de qualquer assunto do Planeta Terra, embora a conta bancária por vezes funcione como um excelente argumento de autoridade.

Isso assumindo, claro, que o sucesso necessariamente guarda relação com a competência naquela determinada atividade. Pode nem ser isso. Pode ter sido apenas sorte. Você estava no lugar certo, na hora certa e, de repente, ficou rico. Em ambientes de muita incerteza e aleatoriedade, por exemplo, exatamente como é o mercado financeiro, o acaso cumpre um papel muito mais importante do que nossa tendência ao determinismo gostaria de supor.

Dois corolários interessantes do argumento inicial:

1 – Não é porque você não entende que é ruim. O exemplo atual mais emblemático talvez sejam as criptomoedas. A maior parte das pessoas (eu incluído) não faz a menor ideia do que seja o bitcoin, o blockchain ou Satoshi Nakamoto. A conclusão imediata da maior parte delas é: bolha, pirâmide, farsa, entre outros atributos igualmente carinhosos. Pode até ser que seja tudo isso ai mesmo. Mas o ponto é que o julgamento parte em muitas vezes, e eu mesmo já presenciei algumas delas, de pessoas sem a menor capacidade para classificar o negócio de bolha, pirâmide ou coisa parecida, porque a tal pessoa sequer sabe o que é bitcoin.

Nassim Taleb endereçou com brilhantismo a questão do entendimento mostrando como o foco na compreensão pode ter resultados deletérios sobre a construção de patrimônio a longo prazo. Em muitas vezes, você não precisa entender a coisa em si, até porque isso pode ser impossível – basta você entender a matriz de payoff (as possibilidades de retorno potencial), o que pode ser muito mais fácil. Ainda não vi ninguém que tenha, de fato, entendido a vida, mas, ainda assim, já encontrei uma porção de gente viva por ai. Não é porque você não entende o amor que você não possa amar. Troque amor por investimento – na frase, claro; continue amando por aí. Vale ler: Understanding is a poor substitute for convexity.

2 – Certo ou errado (de novo, não importa, pois o relevante é a matriz de payoff), aquilo que é fácil de entender negocia com prêmio. Lembro de uma reunião na Tempo Participações há duzentos anos, em que, depois de perceber minha demora pra entender a companhia, o diretor de RI emendou: negociamos com “desconto de complexidade”.

Por que o valor de firma de Rumo é de R$ 30 bi e CZZ vale somente R$ 8 bi? Porque gringo entende o primeiro caso fácil, você conta a história em dois minutos, como um pacote de infraestrutura, com peg na potência agrícola brasileira e um duration de longo prazo num País que caminha para conviver com juros menores, sendo um monopólio com demanda garantida e gigantesca, vantagem competitiva contra o modal rodoviário e ativos irreplicáveis. Pronto, acabou.

Por que Biotoscana negocia a apenas 14x lucros projetados para o ano que vem com ROIC de 35%? Não parece ter razão objetiva, financeira. É porque ninguém consegue explicar o negócio em duas linhas.

Persio Arida e Deirdre McCloskey (ela estará no Brasil agora; aproveite!) já mostraram a importância da retórica na Economia. Parece que ninguém leu na Faria Lima. A turma insiste no Damodaran.

Pra mim, antiético mesmo é achar que valuation é um driver mais relevante do que uma boa história.

Antes de partir para as coisas frívolas do dia, um adendo muito rápido sobre Sanepar. Como havia levantado aqui a questão dos problemas de governança e dos esforços de acionistas ativistas em prol de maior alinhamento de interesse entre todos os stakeholders, me sinto no dever de pontuar o avanço na Assembleia de sexta-feira. Há mais sobre o assunto na nota abaixo, do Ruy. A questão central é que a coisa avançou bem e agora a ação me parece pronta para voar. Vale a menção particular aos gestores da XP Gestão, que conduziram com brilhantismo a situação.

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