Os invejosos querem estar no controle

Ninguém quer viver num mundo que não entende, em que reconhece-se a possibilidade de, subitamente, acontecer algo que nenhum de nós espera, com capacidade de alterar para sempre a vida de todo mundo.

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Os invejosos querem estar no controle

Dizem que os economistas têm inveja dos físicos. Não dá pra julgar, né? A inveja é um dos mais elementares sentimentos humanos. Fazer o quê?

Na academia, há uma espécie de ar superior das ciências naturais e exatas, em detrimento às sociais. As primeiras seriam mais ligadas ao formalismo, à matematização, à dedução e às conclusões, em tese, apenas derivadas das séries de dados; enquanto as outras ficariam associadas a narrativas, construções retóricas e históricas bem contadas.

O primeiro grupo, portanto, estaria supostamente (e esse supostamente deveria ser escrito em maiúsculas) blindado dos vieses do pesquisador, alheio às ideologias; seu rigor científico permaneceria protegido pelo formalismo.

Tentando afastar-se da história e das demais ciências sociais, portanto, a Economia teria adotado o formalismo como importante argumento retórico. A ciência jovem seria alçada, de novo supostamente, a uma condição de pretensa superioridade ao aproximar-se da matematização típica das ciências exatas.

 

Para essa caminhada em direção ao formalismo, duas hipóteses foram essenciais. A primeira delas é da ergodicidade. Desculpem o palavrão a esta hora da manhã. Palavra difícil para explicar uma coisa fácil. Se a realidade é ergódica, as séries de dados (como as variáveis macroeconômicas ou os preços dos ativos financeiros), preservam suas propriedades estatísticas ao longo do tempo. Em sendo o caso, a realidade pode ser representada por um modelo simplificador de uma maneira razoavelmente fiel.

E a segunda delas apoia-se na ideia da expectativas racionais, de que os seres humanos não comente erros sistemáticos ao fazer previsões sobre o futuro. Na média, os agentes econômicos acertariam suas estimativas sobre o que vai acontecer.

Com essas duas coisas, a Economia pode construir seus modelos matemáticos, que, em teoria, seriam capazes de representar adequadamente o mundo, sem que, ao tentar simplificar a realidade, se jogasse fora o bebê junto com a água do banho. Ou seja, não haveria risco de se perder o essencial ao adotar um arcabouço simplificador do mundo material, capaz de ser descrito por regras muito mais simples.

E se o mundo pode ser descrito fidedignamente por equações simplificadas, esse mesmo modelo pode nos ajudar a saber o que vai acontecer amanhã. Se ele nos descreve com propriedade o passado e o presente, também será o útil para prescrever o futuro.

Dai derivam coisas como o Modelo da Escolha Racional, Mercados Eficientes, VaR, CAPM, Markowitz – esses outros palavrões, sem qualquer significado prático pra gente aqui, que costumam usar por aí.

O fenômeno aconteceu de fato na linha do tempo da ciência jovem. Só discordo de que a motivação tenha sido a inveja da física. Quer dizer. Sendo mais preciso, até concordo que possa ter havido algo assim. Mas a motivação primeira me parece ser outra: um desejo egóico e narcísico de estarmos no controle.

Se a aplicação da luz da razão (a expectativa racional) nos permite entender o funcionamento do mundo, condensá-lo num modelo simplificador e, a partir daí, projetar as condições à frente, estamos no controle da situação. Estamos empoderados da capacidade de, na média, antever o futuro. Ficamos muito menos suscetíveis ao acaso e à aleatoriedade, cujas ocorrências apenas resultariam em ruídos estatísticos, sem qualquer impacto concreto relevante.

A vida se torna muito menos perigosa se estamos dotados de um superpoder. Ninguém quer viver num mundo que não entende, em que reconhece-se a possibilidade de, subitamente, acontecer algo que nenhum de nós espera, com capacidade de alterar para sempre a vida de todo mundo.

A razão é uma grande emoção. É o desejo de controle.

A todo momento, estamos tentando encaixar o mundo, as coisas e as pessoas em caixa. Estampadas com um rótulo na testa, elas se tornam, supostamente (terceira vez), mais previsíveis, estáveis, controladas e… menos impertinentes, no sentido de que pertencem a um arranho conhecido, concernem apenas ao assunto que há conhecemos e dominamos, sem espaço para tergiversar da rota.

Somos apropriados para as regras mentais que nós mesmos definimos, assim como é a realidade, que, nessa construção, não poderia nos surpreender, nem nos desviar do caminho planejado.

Ao conversar com um superpoderoso consultor financeiro, seja ele real, virtual ou representado pela figura do agente autônomo (que nem poderia prestar o serviço de consultor), uma das primeiras perguntas que você vai ouvir é: “Mas qual seu perfil: conservador, arrojado?”

Seguida das variações: “E o senhor tolera riscos? Gosta de ações? Quer gerir o próprio patrimônio ou contar com nossos excelentes serviços de carteira administrada? É trader ou investidor de longo prazo?”

Agora ainda temos as versões mais descoladas, meio hipster e amada pela imprensa e pelos millenials: “qual seu objetivo financeiro: fazer uma viagem, comprar um carro, tirar um sabático?”

Com todo respeito aos louváveis esforços de suitability, mas eu não gosto dessa abordagem. As pessoas não podem caber numa determinada caixa, como se estivessem dentro de uma armadura rígida incapazes de se libertar. Podemos fazer mais do que isso e transbordar para toda complexidade e ambivalência humana.

Embora existam mesmo pessoas que sejam totalmente conservadoras/arrojadas, ou que sejam 100% traders/investidores de longo prazo, integralmente investidoras de imóveis/ações, a maior parte é tudo ao mesmo tempo.

Mesmo o maior investidor de longo prazo deixa separado uma gavetinha de trading, em que ele usa ali, sei lá, 5 a 10% do seu dinheiro para tentar capturar tiros de curto prazo em Bolsa. Emprestei o termo “gavetinha de trading” do Rodolfo, que a usa brilhantemente em seu PRP.

O maior apaixonado do mundo por imóveis pode ter três bilhões em ativos imobiliários, mas também tem lá uma carteirinha de ações.

E sobre os objetivos financeiros, então, a coisa é ainda mais infantilizada. O investidor não quer ganhar dinheiro para comprar um carro. Ele quer ganhar dinheiro. Caso contrário, fica aquela coisa: “olha, meu objetivo era ganhar dinheiro para comprar um carro. Como eu já comprei, dispenso qualquer lucro adicional. Grato.”

A função utilidade do investidor normalmente está correlacionada positivamente com lucros (mais dinheiro) justamente porque a grana lhe permite comprar qualquer coisa, um carro, uma bicicleta, um lugar no céu, um casamento – tem louco pra tudo.

Só uma minoria é univocamente orientada. Ninguém quer ter só ações, só imóveis, só dinheiro para comprar um carro. Também não tem essa abordagem “carteira administrada” ou “administração feita por si mesmo”. O cara quer gerir, e ter parte gerida. Sem preconceitos, topa ser ativo e passivo, gestão discricionária ou não. O que é a questão de gênero hoje em dia, não é mesmo?

O caso do sujeito que responde “conservador” ao questionário é de chorar. Bom, no Brasil, conservador é o cara que come criancinha, quer matar os gays e tem uma suástica desenhada no tríceps. O conservadorismo tradicional inglês nada mais é do que o ceticismo na capacidade da razão produzir modelos mentais adequados para a descrição da realidade – tem tudo a ver com o que estamos falando aqui, sendo uma espécie de antagonista ao Iluminismo.

Mas deixa isso pra lá. Se o sujeito se diz conservador, ele fica alijado da possibilidade de participar de alguns mercados. É como se falar de ações e opções para ele fosse uma heresia. Deveria ser ao contrário! Ai que ele tem de saber mesmo.

Primeiro por uma questão direta: opções são fundamentalmente instrumentos de hedge. Esse negócio acabou sendo distorcido ao longo do tempo e ganhando uma conotação negativa, mas foi feito mesmo é pra proteger o portfólio e permitir apostas em que se sabe o quanto vai perder, com a contrapartida de lucros potenciais infinitos.

Mais importante ainda é que o conservador precisa diversificar, saber de todos mercados, investir da forma mais plural possível, pois isso vai reduzir seu risco. Só ter imóveis é mais arriscado do que ter imóveis, renda fixa, câmbio e ações.

Enquanto quisermos limitar a pessoa física ao maniqueísmo do preto e branco, certo e errado, conservador e moderado, ativo e passivo, estaremos condenando o investidor individual a uma prisão de poucas possibilidades, risco concentrado e retornos aquém do razoável.

Com a Selic indo a 6,5% ao ano, até o mais conservador, acostumado à tradição de lucros de 1% ao mês sem risco, vai ter que se mexer. A moda agora tem 50 tons de cinza.

Sexta-feira se inicia com mercado digerindo agenda pesada. Relatório de Emprego nos EUA apontou fechamento de 33 mil pontos de trabalho, contra expectativa de criação de 80 mil vagas. Taxa de desemprego caiu para 4,2%, frente a projeções de 4,4%. Assustando um pouco mais, ganhos por hora cresceram 0,5%, acima das estimativas, o que alimenta preocupação com a inflação e, por conseguinte, com juro básico norte-americano.

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