Tempo Rei

O folgado e inesperado placar da reforma trabalhista volta a trazer a possibilidade de que uma Previdência possa vir também a ser contemplada, com idade mínima acompanhada de uma série de outras medidas infraconstitucionais.

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Tempo Rei

Não me iludo. Tudo permanecerá do jeito que tem sido.

Não acho que a aprovação da reforma trabalhista represente um admirável mundo novo – embora seja importante em si, já estava em grande medida apreçada.

É inegável, porém, que as coisas melhoraram nos últimos dias e hoje se tem um ambiente mais favorável para os ativos de risco brasileiros. Voltamos a conviver com uma direção, mesmo que a velocidade seja menos intensa do que gostaríamos, e a assimetria se coloca quase claramente como convidativa, ao menos o curto prazo. Gosto do À Deriva mas ainda prefiro O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia – felizmente, o odor tem nos sido mais agradável.

O folgado e inesperado placar da reforma trabalhista volta a trazer a possibilidade de que uma Previdência possa vir também a ser contemplada, com idade mínima acompanhada de uma série de outras medidas infraconstitucionais.

Se há algumas semanas a imprensa dava como zeradas as chances de Michel Temer vir a aprovar qualquer mudança nas regras previdenciárias, agora começa a ponderar a alternativa.

Com a equipe econômica rígida e a demonstração de alguma força para caminhar com a agenda liberalizante, cai o temor com o custo-Temer, de que sua permanência acabaria por ter um efeito deletério muito grande sobre o ajuste fiscal. O desdobramento dessa hipótese negativa seria uma sucessão de baixas na equipe econômica, com consequente abertura das torneiras. Ao menos até agora, não parece ser o caso e isso é um alívio para os prêmios de risco locais.

Sem grandes ilusões também. A aprovação da Previdência exigiria mais do que 50 tons de cinza. Pode chamar Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré, filhos de Gandhi, todo o pessoal pra votar. Mas o ponto é que parece prematuro jogar a toalha sobre isso, mesmo com Temer.

E a alternativa é Maia. Sempre que falam dele, eu logo lembro do Maiado, o cavalo que papai comprara pra mim e deixara na casa do meu avô Dácio. Ele fazia minha transição do campo para a cidade. Provocado pelos primos mais velhos e estimulado pelos hormônios da puberdade, saía da Fazenda do Trigo em direção à missa de domingo em Senhora do Porto. Os joelhos estavam sobre o genuflexório, enquanto os olhos se debruçavam sobre as (in)fiéis. Foi minha condução da infância para a adolescência e posterior fase adulta.

Maiado representava a transição do atraso para o novo, era minha espécie de Ponte para o Futuro. Ao recorrer às memórias infantis, vejo em Maia(do) esperança. Acho que ele inclusive aumenta as chances. Ao contrário da ideia de incerteza associada à mudança e atrasos na aprovação das reformas, a troca de governo poderia acelerar o processo e retirar a morosidade da coisa.

Então, com Temer ou Maia, o downside fica baixo, enquanto o upside, que estaria associado à aprovação da reforma da Previdência, num cenário de juros cadentes (cada vez mais) e valuations razoáveis para equities Brasil, pode ser muito interessante.

O risco mesmo é Lula em 2018 – isso se ele estiver solto, claro. Esse parece ser o grande downside para os mercados locais. Ao menos no curtíssimo prazo, porém, as notícias lhe parecem negativas, com iminente condenação por Sergio Moro. Claro que mistério sempre há de pintar por ai. Mas, dados os argumentos, mantenho o otimismo comedido para os próximos meses.

Antes de avançar para as questões mais frívolas da agenda, faço um breve comentário sobre diversificação em Bolsa. Talvez você tenha lido artigo ontem ponderando riscos de um excesso de diversificação. Ou seja, de que a diversificação oferece ganhos até determinado ponto e, a partir dali, acaba tendo pouco efeito, sendo inclusive deletéria na margem por representar aumento dos custos de transação.

Com efeito, o resultado ali encontrado não é novo e o próprio Markowitz, precursor da Teoria Moderna de Portfólio, já o havia formulado.

A questão central sobre diversificação com ações, porém, parece escapar a todos aqueles que escrevem sobre o tema apoiados nos ensinamentos da Teoria Moderna de Portfólio.

Primeiro porque incorrem no erro clássico de confundir risco com volatilidade. Perguntem a esses qual era o risco de seus respectivos portfólios em 17 de maio e terão uma amostra material do argumento.

Mas nem é esse o ponto de hoje. O problema maior é que toda essa construção se apoia no arcabouço média-variância. Ao se concentrar nos dois primeiros momentos da distribuição, os pseudocientistas esquecem-se do mais importante da coisa, que são a assimetria e a curtose.

 

Pela beleza da lei de responsabilidade limitada, as ações oferecem uma assimetria à direita. Você pode perder 100% do capital investido no máximo. Mas pode ganhar 100%, 200%, 500%, 10.000%.

No momento em que você diversifica, o que está fazendo? Você aumenta suas chances de encontrar um resultado muuuuuuito ruim e também a probabilidade de ver um resultado muuuuuuuito bom. A questão é que muuuuuito ruim significa 100% de perda; e muuuuuito bom representa 10.000%. Ignorar o ponto é esquecer-se do que as ações têm de melhor.

Ampliar o número de ações de sua carteira é tentar capturar um cisne negro muito positivo (e, claro, também muito negativo, mas isso será muito mais do que compensado pelo seu super acerto). Se seu instrumental analítico desconsidera, ou seja, não contempla as chances de um evento raro muito positivo (assimetria e curtose), ele simplesmente desconsiderou tudo. Mera aplicação da convexidade ligada às ações, que infelizmente contraria a tendência predominante a raciocínios lineares.

Mercados caminham em direção a mais risco na manhã de quarta-feira. Aprovação da reforma trabalhista com folga, associada a alta do petróleo e de metais lá fora, traz ânimo e empurra investidores ao risk on. Em paralelo, yields de títulos soberanos caem no exterior, trazendo alívio após preocupação recente – Brainard, do Fed, teceu comentários mais brandos sobre futuro do juro nos EUA e acalmou a coisa.

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Agenda do dia traz IPC-Fipe (zerado, contra expectativa de alta de 0,05 por cento), vendas ao varejo, que caíram 0,1 por cento em maio, e fluxo cambial semanal. Nos EUA, saem estoques de petróleo, livro Bege do Fed. Relatório da Opep mexe com mercado de commodities. Fala de Janet Yellen à Câmara concentra atenções.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3 por cento, dólar cai 0,8 por cento contra o real e juros futuros recuam.

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