Outubro rosa, novembro azul?

Depois do tombo em outubro, mercados iniciam o mês de forma mais positiva, empurrados por valorização das commodities no exterior e bons resultados corporativos.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Outubro rosa, novembro azul?

Em que representação da realidade o consenso de mercado vai decidir acreditar?

Acho que é um pouco disso, sabe? Penso que o trabalho do analista/investidor/gestor envolve essa capacidade de enxergar não exatamente o que vai ser, mas, sim, qual será a leitura/interpretação média das pessoas daquilo que virá. A notícia em si, o fato estrito, a coisa material dependem menos do que a forma com que os mercados reagem a ela.

Sendo um pouco mais preciso, talvez não seja um ato de “decidir”, conforme a pergunta inicial. Não é o que as pessoas enxergam as várias possibilidades de interpretação da realidade e escolhem deliberadamente uma delas. Elas automaticamente interpretam, sem perceber, a realidade a partir das suas convicções, de seus vieses, de seus medos e da sua própria vivência e acham que aquilo descreve a realidade objetiva.

Somos vividos por poderes que fingimos entender. Falo olhando para dentro. Há muito tempo deixei de ter as ideias para meus textos. São as ideias que me têm. Sou um ser passivo frente às minhas paixões – profissionalmente falando, claro (nada contra).

É um pouco desconfortável admitir a ideia de que não estamos no comando. Viver e ser vivido são coisas diferentes. O cérebro é uma máquina de produzir certezas, quer estar à frente da direção e sentir que pode nos guiar para onde quiser. Não convivemos bem com essas representações, pois elas são mais tênues, menos certas e mais fluídas do que seria a suposição de uma realidade concreta e material. Preferimos acreditar que tudo é sólido e preciso. Nossos valores e nossa visão de mundo são apenas nossas, uma mistura de genótipo e fenótipo, mas insistimos em acreditar que refletem uma reunião de elementos universais. Diante da incerteza e da fragilidade das coisas, queremos logo pular para as conclusões, sair da dúvida e atingir a convicção total.

Infelizmente, as coisas não são como gostaríamos.

Não acho que a realidade objetiva em si forme o preço dos ativos, ou, ao menos, não tanto quanto as pessoas pensam. Não gosto da ideia de valor intrínseco. Penso que os preços e também os valores dependem do viés do observador.

Tem uma relação com a ideia do concurso de beleza keynesiano, em que se vota não na moça mais bonita, mas naquela que os outros vão achar a mais bela. A realidade objetiva (como se ela existisse) sai de cena, para darmos lugar a uma tentativa de elucubração sobre como os outros vão pensar.

Veja a questão do Trump Trade. Ele voltou a assombrar os mercados em outubro. Já assustou, já foi irrelevante, voltou a assustar. Talvez você não tenha percebido, mas o mês passado acabou bastante duro para os ativos brasileiros. Bolsa em ligeira queda, renda fixa sofrendo com a abertura dos juros longos e a moeda brasileira tendo seu pior desempenho mensal desde a eleição de Donald Trump. Os fundos macro, mesmo entre aqueles muito bons, foram uma perdição, com raras exceções.

Muito desse comportamento foi observado em todos os mercados emergentes, cujos yields voltaram a subir vigorosamente e cujos fundos observaram saques recordes. Muito disso se deveu justamente à ressureição do tal Trump Trade. Ok, ok. Não foi só isso. Tivemos também nossas próprias mazelas, notadamente mais uma pesquisa eleitoral apontando ainda ausência de um candidato de centro forte e um possível segundo turno entre Lula e Bolsonaro, além de frustração com a morosidade das discussões sobre a reforma da Previdência.

Só um parêntese sobre a Previdência – todo mundo fala que a Previdência não estava no preço, que ninguém contava com ela. Como pode então a frustração com a Previdência fazer preço pra baixo, se essa já era supostamente a expectativa de todo mundo?

Bom, segue o baile. Volto ao Trump Trade, que em meu humilde entendimento representou a grande catálise para o movimento de correção dos mercados emergentes e brasileiros em particular.

Com avanço da proposta de reforma tributária nos EUA, voltou à ideia de que teremos aceleração do crescimento por lá e repatriação de dólar. Os juros teriam de subir mais fortemente, o que aumentaria a atratividade dos títulos norte-americanos relativamente aos demais. A coisa esquentou com Donald Trump dizendo que não vai haver gradualismo algum, que as mudanças serão feitas de uma vez, e rápido.

Paralelamente, a presidente do Fed Janet Yellen alertou para uma possível volta da inflação à frente, o que também forçaria aperto monetário maior do que supõe o consenso de mercado. Ainda sobre a política monetária, a simpatia de Trump pelo falcão John Taylor foi outro elemento a empurrar os rendimentos dos Treasuries e o dólar para cima – mais para o final do mês, Jerome Powell, mais dovish (brando em relação ao juro), voltou a ser considerado favorito; ainda assim, a indefinição, que possivelmente acaba amanhã, elevou a aversão a risco nos mercados emergentes e disparou ordens de vendas mundo afora.

Mero ajuste pontual ou fim definitivo do momento positivo para mercados emergentes e para os ativos brasileiros especificamente?

Difícil saber. Sempre é. Mas tendo mais a acreditar na ideia de pausa para respirar, e não fim do ciclo.

Primeiramente, precisamos ter em mente que esta deve ser a quarta ou quinta vez que os mercados se assustam com o tal Trump Trade. Nenhuma delas a coisa durou, de fato, a ponto de abalar a trajetória estrutural dos mercados emergentes. Claro que dessa vez pode ser diferente. O passado não explica o futuro, mas a questão objetiva até agora é que Trump falou muito, fez pouco.

Até reconheço que os yields estão muito comprimidos nos países desenvolvidos, tendendo a aumentar à frente. A Europa cresce bem, os EUA também, até mesmo o Japão se recupera. Isso não parece condizente com os atuais níveis de taxas de juro de mercado. Seja como for, o cenário ainda é de ampla liquidez internacional e inflação ainda baixa. Ou seja, ainda que os yields subam, eles devem se manter em patamares reduzidos para o padrão histórico. Nesse sentido, o Brasil, pagando juro real de 5% ao ano na ponta longa e com uma Bolsa em valuation razoável, é uma ilha de retornos convidativos, sem um risco absurdo.

Veja também que, embora haja mesmo elementos para pontualmente nos preocupar com o famigerado Trump Trade, houve outras sinalizações muito interessantes recentemente em prol da continuidade de um quadro de liquidez global.

Shinzo Abe teve uma vitória massacrante nas eleições parlamentares japonesas, flertando com mais Abenomics à frente – ou seja, mais estímulo monetário e fiscal, mais reforma.

Mario Draghi foi dovish em seus comentários subsequentes à reunião do BCE, inclusive surpreendendo geral com a informação de que poderia ampliar o programa de compra de títulos.

E não podemos nos esquecer, por fim, de que, embora não haja certeza alguma, Jerome Powell é hoje o favorito para assumir o Fed no lugar da Palmirinha – ou seja, se confirmado (só pode gritar gol depois que a bola entra), teremos ainda um presidente do Banco Central dos EUA gradualista e pouco agressivo para subir o juro, garantindo o panorama de ampla liquidez internacional.

Essa é a quarta vez que o Trump Trade vem nos assustar e se coloca supostamente como uma possibilidade de mudança estrutural. Nós não o compramos em nenhuma das oportunidades anteriores, o que inclusive nos fez circunstancialmente ficar para trás em determinados momentos. Ainda não será desta vez que mudaremos de opinião.

Mantive a Carteira Empiricus posicionada para a retomada de um momento mais positivo dos mercados emergentes em novembro – conseguimos sobreviver bem em outubro, superando com alguma margem o CDI; no ano, portfólio oferece 216% do benchmark. Há inclusões bem interessantes no portfólio agora, para aproveitar certas oportunidades de compra. Vale a pena conferir.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Com efeito, depois do tombo em outubro, mercados iniciam o mês de forma mais positiva, empurrados por valorização das commodities no exterior e bons resultados corporativos. Expectativa crescente por nomeação de Jerome Powell para chairman do Fed também dispara otimismo.

Agenda é bastante cheia hoje. Nos EUA, temos ADP Employment servindo de boa referência para o payroll na sexta, além da sempre relevante reunião do Fed. Estoques de petróleo, PMI/Markit, ISM e investimentos em construção completam referências norte-americanas.

Por aqui, IPC-S (+0,33%, em linha com projeções), balança comercial de outubro, fluxo cambial mensal e produção industrial ocupam as atenções dos investidores, além da temporada de balanços, com destaque para números do Bradesco.

Ibovespa Futuro abre em alta de 1%, dólar sobe ligeiramente contra o real aguardando reforma tributária nos EUA e juros futuros avançam, na esteira da desvalorização cambial.

Conteúdo recomendado