Um único ciclo pode fazer a diferença

O argumento de hoje é que você não precisa passar décadas em Bolsa para mudar de paradigma financeiro. Um só bull market vigoroso pode levá-lo a um nível que nem sequer podemos conceber a priori.

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Um único ciclo pode fazer a diferença

“Hoje eu acordei
Com saudades de você
Beijei aquela foto
Que você me ofertou
Sentei naquele banco
Da pracinha só porque
Foi lá que começou
O nosso amor…”
Ronnie Von

Sou um homem de cisnes negros.

Tenho poucos amigos. Aqueles que realmente fazem a diferença são raros, mas mudam tudo. Nascem do imprevisto e, de repente, estão ao seu lado em qualquer momento, em especial quando mais se precisa. Desses, jamais esquecerei.

As pessoas verdadeiramente diferentes são percebidas de súbito. Uma única informação a seu respeito pode ser suficiente para refutar anos e anos de teoria em prol da distribuição gaussiana dos atributos físicos, intelectuais e morais entre os diversos seres humanos.

Gosto de poucas coisas também. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim, a mesma pizza de catupiry da Margherita, a picanha com arroz biro-biro do Rodeio. Para que tanta opção, se somente a singularidade pode oferecer algo realmente especial? Se um montão de coisa é extraordinário, tudo vira ordinário, não é mesmo?

Já escrevi aqui como poucos dias fazem a diferença no mercado financeiro. Se você retirar o melhor ou o pior retorno diário de cada ano do Ibovespa ou do S&P 500, chega a resultados assustadoramente diferentes para o acumulado de um longo período.

Também já narrei o quanto uma única ação pode fazer a diferença no seu portfólio. Se você comprou ações da Amazon lá atrás, isso bastou para mais do que compensar vários e vários erros. Não precisamos ir muito longe. Uma única Magazine Luiza na sua carteira aniquilaria uma porção de equívocos e levaria seu resultado consolidado a bons ganhos. A convexidade é o último almoço grátis disponível.

Essa é a grande ideia da minha vida – não que seja original, que fique claro. Não fui eu quem a propôs, evidentemente. Mas, assumindo que ela é boa, uma ideia original no mercado paga rigorosamente o mesmo do que uma outra copiada.

Da mesma forma, um único ciclo favorável faz toda a diferença. O argumento de hoje é que você não precisa passar décadas em Bolsa para mudar de paradigma financeiro. Um só bull market vigoroso pode levá-lo a um nível que nem sequer podemos conceber a priori.

Deixe-me recuperar um pouco do passado.

A história da Bolsa brasileira, sintetizada em nosso principal índice de ações, oferece cinco grandes ciclos de valorização.

O gráfico abaixo descreve o comportamento do Ibovespa em dólares desde a década de 60. Veja a magnitude do que estou falando:

O primeiro ciclo percorre a segunda metade da década de 60 e vai até o início dos anos 70. É o período do famigerado Milagre Econômico Brasileiro, em que colhemos os frutos do Plano de Ação Econômica do Governo, um conjunto de medidas liberais e reformistas impetradas por Campos e Bulhões. Resultado: 2.931% de lucro em apenas seis anos.

Depois, teremos um segundo ciclo breve, mas bastante intenso, no começo dos anos 80. O mundo saía da segunda crise do petróleo, já começando a flexibilizar a política monetária dos EUA depois da expressiva subida das taxas de juro na era Paul Volcker. Por aqui, era o período do afrouxamento da ditadura e mudança do espectro político. Acumulado: 1.573% de alta em três anos.

Daí vieram as mazelas da Década Perdida, moratória, Plano Cruzado, Collor. Um desastre. Teríamos o terceiro ciclo somente no começo dos anos 90, colhendo alguns benefícios da abertura da economia e de certas medidas liberais colocadas no governo Collor, além, claro, do otimismo gerado com o Plano Real e com a melhoria institucional colocada pelo governo FHC. Em seis anos, 3.415%.

O fim dos anos 90 é mais complicado. Crise da Tequila em 95, dos Tigres Asiáticos em 97, da Rússia/LTCM em 98/99, maxidesvalorização brasileira em janeiro de 99. O comecinho do novo século também não foi fácil. Lulômetro, estouro da bolha pontocom nos EUA, aquela coisa horrorosa.

Flertamos com a explosão e, então, chegaram a Carta aos Brasileiros, Lulinha Paz e Amor, Palocci/Meirelles, ciclo explosivo de commodities, colheita dos benefícios advindos da melhoria institucional no governo FHC. No quarto grande ciclo, seis anos de alta, com resultado final de 2.051%.

Voamos até a crise de 2008, quebra do Lehman Brothers, crise da periferia europeia e, principalmente, nova matriz econômica, o Fim do Brasil. Mais um período tenebroso, até que chegamos ao impeachment da presidente Dilma, mudança do espectro político em direção à direita-liberal, reformas, retomada do crescimento econômico, juros caindo, inflação caindo, cenário externo altamente favorável. Boom!

E aqui estamos nós. Demos uma parada no quinto ciclo, à espera da definição do cenário externo diante de juros subindo nos EUA e das eleições brasileiras.

Onde vamos parar?

Peço atenção ao gráfico abaixo:

Em todos os ciclos anteriores, o Ibovespa em dólares tocou a linha superior do canal de alta (o traço ascendente de cima em preto na imagem). Se os ciclos se repetem – e imaginamos que eles se repetem –, vamos buscar novamente este “teto do canal”. Isso pode implicar algo como 270 mil pontos em dólar para o Ibovespa.

Claro que soa como exagero. Sempre parece exagero quando dito ex-ante. Se alguém lhe falasse em 1964 que 10 mil reais poderiam ser transformados em 300 mil reais em apenas seis anos, certamente seria chamado de louco. Também receberia a mesma alcunha se falasse que, de 83 a 85, você poderia multiplicar por 17x. Quem sabe por 35x em seis anos no terceiro ciclo? Ou 21x no quarto ciclo?

Os ciclos vão e vêm. É da natureza da economia e dos mercados. Participar de um único deles de forma adequada muda a vida do cidadão. Multiplicar por 30x é colocar 100 mil e tirar 3 milhões, em seis anos. Não é apenas legal, é mudança de paradigma, entende?

Por isso, lhe convido a ouvir nossa tese sobre o Sexto Ciclo. Para narrá-lo em detalhes, temos um reforço de peso (sem trocadilhos): Ronaldo Fenômeno vai contar o que pensa do hexa que realmente pode interessar a você.

Algumas últimas palavras sobre ciclos. É fundamental que você entenda este aspecto para poder aproveitar com propriedade o movimento projetado para a Bolsa. Mesmo dentro de grandes bull markets, as trajetórias não são lineares. Grandes correções acontecem. Depois que passam, viram meras perninhas quase imperceptíveis dentro do processo, mas quando estamos atravessando a tempestade parece que vamos morrer.

Entre 94 e 95 por exemplo, o Ibovespa em dólares passou por uma correção de 62,73%. Em 2004, chegou a cair 27,70%. Em poucos meses de 2006, cedeu 21,33%. Dentro do ciclo de 2002 a 2008, houve outras quatro correções superiores a 10% (-18,36 em 2003; -11,35 e -16,73 em 2007; e -18,17 em 2008).

Recado final: estamos num grande ciclo de alta da Bolsa brasileira. Ele pode ser muito maior do que todos supõem a priori. Para subir o morro, porém, vamos de farda preta. Roupa preta é uma das poucas coisas de que eu realmente gosto. Para mim, deveria ser tipo elogio: “Sua roupinha preta…”.

Mercados brasileiros iniciam a quarta-feira ajustando-se ao tombo dos ADRs na véspera, quando foram afetados pelo recuo das commodities. Dia é de alguma cautela, com reunião do Fed e dados do emprego privado nos EUA. Ainda que o banco central americano não deva mudar seu juro básico nesta quarta-feira, pode sinalizar outros três aumentos neste ano.

Por aqui, agenda reserva IPC-S, PMI/Markit industrial, fluxo cambial, balança comercial e indicadores da CNI.

Ibovespa Futuro abre em queda de 0,4%, dólar registra alta contra o real e juros futuros também sobem.