Vai dar ruim…

Tem coisas que simplesmente não sabemos.

Vai dar ruim…

Depois da pesada crise de 2008 e do risco real de deflação nos EUA, muito se falou que o país entraria em uma década perdida, similar à do Japão. Era óbvio que essa era uma tendência mundial. Mas os fortes estímulos colocados pelo Fed levaram aos poucos o país para o caminho do crescimento.

Depois, em 2011, foram as milhares de teses de fim da Zona do Euro, com o combustível da crise grega que poderia contaminar toda a Europa. Mas eles conseguiram sobreviver e, aos poucos, também com aumento de estímulos, melhoraram sua economia.

Em 2014 começou o burburinho do tão temido “hard landing” na China. Ela estava muito alavancada, ninguém entendia direito como a economia funcionava e certamente iria explodir alguma hora. Mas o país conseguiu apertar seus botões de economia planejada e centralizada e reduziu o crescimento de forma coordenada.

Em 2016 veio o Brexit, que contaminaria toda a Zona do Euro novamente, e ela novamente não sobreviveria a mais esse golpe.

Juntamente com isso, a vitória de Trump elevou o risco de um maluco ser eleito por aí, e todas as eleições seguintes passaram a ser acompanhadas com lupa, afinal, era um “fenômeno mundial”. Mas a França elegeu Macron, e o mundo respirou aliviado.

Recentemente, os EUA provocariam uma fuga de capitais no mundo com uma alta fortíssima nos juros, pois atingiram o pleno emprego rápido demais, e isso gera inflação. Mas nada de a inflação vir, e cada passo mais austero de Yellen foi devolvido pelo mercado com valorização do dólar, que, por sua vez, reduz a pressão inflacionária.

O mercado tem uma capacidade enorme de entrar em ondas de medo por coisas que “certamente vão acontecer”, mas não acontecem…

Os analistas tendem a buscar padrões, principalmente olhando o passado, e traçar paralelos, causas e consequências, para os acontecimentos que lhes fogem do controle.

Tem coisas que simplesmente não sabemos.

Sabemos se a China vai quebrar ou não? De forma alguma! Não sabemos. Ela tem seu lado ruim, alavancado, planejado demais, parece uma bolha. Mas ela tem também uma capacidade anormal de planejar seu caminho de volta. Se o gigante asiático der certo, atribuirão o sucesso à capacidade de planejar. Se der errado, claro que a alavancagem passará a ser óbvia para todos. Mas não conseguimos de jeito nenhum antecipar isso.

Sabemos por quanto tempo os EUA conseguirão manter um crescimento econômico com inflação baixa (beneficiando o Brasil)? Não! Por um lado, já era para a inflação ter subido, e isso pode significar um novo normal. O excesso de liquidez mundial, alavancagem do balanço do Fed, alteração do comércio mundial e principalmente o fator câmbio, podem estar alterando o papel da inflação da moeda do mundo. Por outro, ela sempre poderá subir depois, e neste momento será obvio que ela iria subir mesmo.

A Coreia do Norte vai atacar alguém? Como vamos saber? Sem chances nem de tentarmos entender. Mas depois de feito, se feito, certamente será obvio que iria acontecer, dados os recentes testes de mísseis (como os de sábado).

A Zona do Euro continuará unida? Não sei. As milhares de diferenças entre os países que lá se juntaram poderiam tornar a aliança um fracasso, mas o benefício de baratear o custo de captação para os amigos da Alemanha também é um fortíssimo apelo para a continuidade. E claro que será obvio que ambos os resultados vão acontecer.

O que quero dizer para você investidor, tirado dos ensinamentos de Nassin Taleb, é que não podemos desconsiderar o caráter aleatório do mundo. Não podemos viver (e investir) como se tudo tivesse causa e consequência conhecidas — como as leis da física. A economia tem um enorme peso de aleatoriedade.

Depois de dar cara ou coroa, nós, analistas, tendemos a construir explicações de causa e consequência rebuscadíssimas e técnicas. Depois nos torna óbvio. E isso nos dá a mais falsa sensação que podemos explicar e prever os próximos passos de tudo.

Mas não podemos…

Isso significa que vamos jogar fora tudo que aprendemos sobre economia, todos os nossos modelos vão para a lata de lixo e vamos desligar na cara de todo analista político que encontrarmos do outro lado da linha?

Segundo Taleb, sim!

Segundo eu, não!

Se é que posso discordar do mito…

Os modelos e as análises funcionam às vezes. Tudo mais constante, um processo de alta de juros parece controlar a inflação. O sistema de metas de inflação, por exemplo, provocou melhoras estelares por onde passou. E hoje defendemos políticas ortodoxas para o nosso país, porque algum dia os modelos econométricos já estudaram inúmeras evidências das consequências positivas dessas políticas.

Então como poderíamos jogar tudo isso fora e só considerar o aleatório?

Também não dá!

O melhor que podemos fazer, na minha humilde opinião, é criar carteiras que consideram as correlações históricas, mas que também incorporam que esta mesma relação pode se quebrar.

Se a tendência se mantiver, você ganha muito, e se ela quebrar, você perde pouco. Ou seja, a famosa carteira antifrágil.

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Adivinha se eu sei se o governo passará ou não a reforma da Previdência? Não sei! Mas eu sei que a atividade fraca pressiona a inflação para baixo, que por sua vez permite um ciclo grande de queda de juros. E posso operar em cima disso. Desde que a minha carteira não quebre caso isso não aconteça.

Eu tento ensinar como funciona cada título de renda fixa e como se beneficiar dos ciclos econômicos para ganhar altos retornos no meu livro Renda Fixa não é fixa!

Adivinha se eu sei que as eleições vão resultar em um presidente reformista ou não? Não faço ideia. Mas eu sei que quando os juros caem muito, empresas e famílias se sentem mais estimularas a consumirem e produzirem, gerando forte crescimento, e aumentando muito o valor da Bolsa. Para quem quer se posicionar para esse momento, caso essa correlação se mantenha, criamos o Combo Extreme Stocks Millionaire.

Ibovespa já abriu o dia subindo 0,4 por cento, em linha com o otimismo do final de semana.

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