Dá pra viver de Bolsa? Mas quais os meios de pagamento?

A atividade empreendedora pertence aos sobreviventes, não aos heróis. Isso tem implicações importantes para você selecionar ações da Bolsa para comprar.

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Dá pra viver de Bolsa? Mas quais os meios de pagamento?

Saindo do evento do IFL ontem, um tradicional e conhecido grafista me abordou: “quero te mandar minha análise do bitcoin. O gráfico mostra claramente como isso pode buscar US$ 100 mil.”

Não acredito em bruxas nem em gráficos, mas que elas e eles existem, existem. Ambos sempre foram considerados vodoo science. Até onde eu sei, o primeiro grupo ainda não conseguiu seu upgrade. Já os gráficos, ao menos por enquanto, escaparam da fogueira da Santa Inquisição com a ajuda do trabalho de Andrew Lo – se o papa do MIT encontrou fundamento estatístico para a análise técnica, a academia, tão flexível quanto os fundamentalistas (religiosos?), baixa a guarda e começa a respeitar.

Volto ao grafista de ontem. Suspeito que o sujeito não saiba mas tenho um sentimento carinhoso por ele. Fui apresentado à Bolsa a partir de um terminal Enfoque. Era por volta de 1998, nos anos em que papai tradava Tele Centro Oeste Celular e Globo Nabo alavancado.

No quarto do casal lá em casa, havia quatro coisas tangíveis: um terminal Enfoque, uma calculadora HP 12c, folhas de termo e maços de Galaxy. Entre as intangíveis, disputavam espaço a fumaça dos cigarros e o mau humor da minha mãe, alimentado pelo tabagismo do cônjuge. Eu não julgo. Com o marido termado em TCOC4, não havia muito como se manter bem humorada – se o dinheiro não entra pela porta, o amor voa pela janela.

Fiquei com os tais US$ 100 mil para o bitcoin na cabeça. Hiperbolicamente, eu havia feito referência a esse valor durante o painel que participara com Sergio Rial e João Canhada. Era meramente ilustrativo, mas fui tomado de um receio de que as pessoas tivessem levado aquilo a valor de face.

Meu argumento para comprarem bitcoin era tão simples quanto: “isso tem muita volatilidade e a distribuição é assimétrica à direita. Pode ir a zero e pode ir a US$ 100 mil. Como tem muita vol, é provável que vá a US$ 100 mil ou a zero mesmo. Se for a zero, você perde 100%, mas se for a US$ 100 mil você faz 20x. Por isso que você deve ter um tequinho, coisa como 1% do portfólio, desse negócio. Eu não sei nada de bitcoin, mas acho que você tem que comprar.”

A reação da plateia à última frase foi de riso, o que me deixou verdadeiramente preocupado. Eu falava sério, eles gargalhavam. Fico com medo quando me expresso mal. Tenho vontade de me punir pela minha má comunicação. Sou tomado por um desconforto, disparado pela motivação que posso despertar no ouvinte a partir de uma palavra mal empregada ou de uma metáfora mal conduzida.

No fundo, eu tentava lhes explicar que X não é F(x). Você não precisa entender a coisa em si, mas pode entender como aquilo lhe afeta (o lucro ou o prejuízo que a coisa pode lhe proporcionar). Na dúvida, contrate um bom advogado. Essa é a melhor atitude que você pode tomar na sua vida. Há várias coisas ruins que podem lhe acontecer, e ninguém tem muito ideia a priori quais são elas. Independentemente das tragédias futuras, lá estará um bom defensor pra você. O efeito de algo negativo, seja lá o que for, vai ser bem menor.

Num primeiro encontro, você não conhece a pessoa com quem está saindo. Ela pode ser imaculada, no sentido bíblico, com o qual, me desculpem, eu não concordo… Mas você não sabe disso. Na dúvida, use preservativo. Entender/conhecer e (inter)agir são coisas bem diferentes. As pessoas entendem isso fácil, mas resistem à mesma ideia quando se trata de investimentos.

Antes era mais fácil circular nos eventos. As pessoas me perguntavam coisas mais óbvias: “estou pensando em largar o trabalho e viver de Bolsa. O que você acha?”

“Por experiência própria, por favor, não faça isso. É o caminho mais rápido pra você quebrar. Depender do dinheiro de Bolsa vai jogá-lo no abismo em 3,2,1…”

É curioso como hoje me abordam com uma pergunta diferente: “estou pensando em largar o trabalho e empreender. Quero montar uma fintech; tenho ótimas ideias para uma empresa de meios de pagamento…”

Pergunta boa é aquela que a gente sabe a resposta. Não sei o que falar. Não posso recorrer ao “por experiência própria”, mas fato é que a probabilidade não está a favor. Noto confiança excessiva. Acho que as pessoas duvidam pouco de si, se beliscam pouco, não são confrontadas com antíteses às suas teses.

Joseph Raffiee e Jie Feng fizeram um estudo interessante a respeito do empreendedorismo. Em “Shoud I quit my job? A Hybrid Path to Enterpreneurship”, fizeram a seguinte pergunta: quando se começa um novo negócio, é melhor manter ou abandonar seu emprego convencional?

Eles separaram dois grupos: os que mantiveram seus empregos de um lado, e os que abandonaram suas profissões convencionais no outro. Os primeiros claramente eram mais avessos a risco e inseguros, queriam sempre ter um plano B, desconfiavam de si mesmos e pareciam não estar tão convencidos da própria ideia. Os outros representavam o contrário.

A intuição talvez nos leve a acreditar que os mais bem sucedidos ao longo do tempo foram os convictos, aqueles que abandonaram tudo para lutar por um sonho, a perseguição implacável e inquestionável de uma tese, de uma ideia, de uma vocação.

O resultado encontrado na pesquisa desafia a intuição. Os empreendedores que mantiveram seus empregos apresentaram probabilidade 33% menor de fracassar frente aos outros.

A atividade empreendedora pertence aos sobreviventes, não aos heróis. Isso tem implicações importantes para você selecionar ações de empresas para comprar. Por exemplo: a maior parte dos empreendedores que se alavancaram muito quebrou ao longo do tempo.

No universo dos investimentos, também é assim. Aqueles que se beliscam, demonstram alguma insegurança, carregam planos B e C, duvidam da própria capacidade têm maior probabilidade de sucesso ao longo do tempo.

Essa ideia me levou ao que batizei de paradoxo da autoconfiança financeira: os únicos gestores/investidores capazes de bater o mercado no longo prazo são aqueles que se acham incapazes de fazê-lo.

Leia mais: Seja um empresário da Bolsa

Mercados brasileiros iniciam a terça-feira demonstrando bom humor, mas variações são moderadas. Na margem, há um maior otimismo em torno da aprovação da nova Previdência, com evolução na reforma ministerial e artigo de Michel Temer no Estadão mostrando confiança explícita no tema (morro de medo dos muito confiantes, mas vamos em frente…)

Exterior está razoavelmente calmo, com indicadores importantes na China vindo próximos das expectativas. Tanto produção industrial quanto vendas ao varejo estiveram perto das projeções. Da Europa vieram boas notícias, com PIB da Alemanha crescendo acima das estimativas. Nos EUA, hoje sai inflação ao produtor.

Internamente, destaque da agenda é vendas ao varejo, que cresceram 0,5% em setembro, um pouco acima da expectativa de consenso. Na cena corporativa, reação ao balanço de Petrobras chama atenção.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,42%, dólar cai 0,3% contra o real e juros futuros cedem.

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