Você merece um presente

É uma quarta-feira especial, que eu gostaria muito de passar com pessoas verdadeiramente especiais.

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Você merece um presente

João Pedro faz seis anos hoje. Isso significa que ele acaba de ultrapassar a idade mental do pai.

É uma quarta-feira especial, que eu gostaria muito de passar com pessoas verdadeiramente especiais. Alguns lenços já ficaram pelo caminho. Para quem chora até em propaganda do Bradesco, aniversário do único filho implica risco de desidratação. Se estiver num momento pessoal delicado, então, Virgem Maria…

A paternidade é algo muito caro pra mim.

Talvez por conta da morte precoce do papai, e da culpa que isso enseja em mim. Há aquela dúvida persistente: “será que não poderíamos ter feito alguma coisa a mais?” Ou ainda: “não demoramos demais para descobrir a gravidade da doença?”

Não consigo perdoar-me por não ter falado tudo que queria e não ter podido mostrar algumas coisas no devido tempo – o Ramiro adoraria os olhos de jaboticaba do João. Um pouco pior é a frustração por não ter conquistado admitida e publicamente a aprovação paterna enquanto podia – fui saber depois dos elogios a terceiros e de um suposto orgulho que ele confidenciava apenas aos amigos mais próximos.

Talvez tenha relação com o próprio João. Tenho medo de não conseguir, por todo tempo, ser o pai que ele merece ter. Sei que deveria temer apenas o correr da luta, mas as fraquezas, o cansaço, a rotina, a obstinação pela leitura, a paixão, os 180 mil clientes fazem com que joguemos menos futebol do que eu gostaria. Acima disso, porém, estão meus mecanismos culpógenos.

Como a família lá em casa era muito unida e tradicional, carrego um desconforto pessoal em insuperável, latente e sempre presente lá no fundo, apenas fingindo-se quieto, em descumprir com a presença diária (embora o leve para a escola todos os dias) e por não dormir no quarto ao lado todos os dias (o que faço sempre às segundas e quintas, além de alguns finais de semana; nos demais, ele fica com a mãe). A relação é ótima e, olhando de fora, esses monstros apenas psíquicos, mas terrivelmente verdadeiros, parecem não existir. Fato é que 12 anos de colégio jesuíta mais uma mãe católica fervorosa e um pai rígido exigem mais do que dois anos de psicanálise para superar o perfil penitente.

Da verdade do universo à prestação que vai vencer, dos elementos psíquicos mais profundos e do lado negro da força às questões mais frívolas, o que dar de presente?

Se você espera uma resposta ortodoxa, correta e rigorosa de “uma boa carteira de ações, combinada com títulos públicos, cotas de um bom fundo multimercado e um pouco de moeda forte”, desculpe, mas esse não é o perfil do redator. Confesso: se o Stuhlberger abrisse o Verde para a captação, daí eu poderia ceder ao discurso… Mas como ainda não estamos sonhando, vamos de nova camiseta do Corinthians, bola da Champions League e PES 2018 (ah, sim, eu também preferiria o Fifa 2018, mas ainda não lançou no Brasil, ao menos que seja de meu conhecimento). Nada mais cafona do que dar presente de adulto para criança. É aquele pai que cria os filhos para si mesmo, dá presentes para poder na sequência contar para os amigos no Clube Paulistano sobre o quanto é disciplinado e diligente.

Mas fiquei pensando: se eu fosse dar valores mobiliários para ele, pensando numa carteira a longo prazo, quais seriam?

Começaria com um bocado de NTN-B 2050 (Tesouro Indexado IPCA). Entre os principais objetivos do investimento, está preservar poder de compra ao longo do tempo. Evidentemente, os títulos indexados à inflação, que se ligam obviamente àquilo que se convencionou chamar de portfólio de mínimo risco, cumprem papel importante nisso. Ademais, flutuações de mercado à parte, assumindo o carrego até o vencimento (e não faz sentido montar um portfólio para o filho se não for pensando a longo prazo), juro real de 5% ao ano é bom em qualquer lugar do mundo.

Então, compraria uma carteira diversificada de ações, daquelas bem tradicionais, de olho na respeitável tendência brasileira à formação de oligopólios. Montaria algo como Itaú, B3, BR Properties, CVC, Hypermarcas, Guararapes (normalmente, as pessoas falariam Lojas Renner, mas eu prefiro Guararapes), Cosan, Ultrapar, WEG, Lojas Americanas. Essas coisas bem clássicas.

Dai temperaria com uma posição razoável em ETFs de small caps, para capturar a convexidade típica desse negócio. E adicionaria algumas coisas aparentemente exóticas, um pouco mais desconhecidas, como (desculpe por falar muito em listas, talvez você não goste, mas alguns dos meus defeitos são insuperáveis e vai que mudá-los implica desmoronar o edifício inteiro):

i) Rumo: acho que este negócio vai voar depois do aumento de capital. Papel sofreu no dia do anúncio e não acompanhou fechamento recente da curva de juro. Discordo frontalmente da interpretação. Acho até que aumento não é dilutivo, porque melhora muito estrutura de capital. Agora, com dívida líquida de 2,5x EV/Ebitda, Rumo pareia sua alavancagem com pares globais e não haverá mais motivo pra negociar com desconto sobre peers, principalmente porque cresce mais.

ii) Aliansce: operacionais melhorando muito, management fazendo um trabalho brilhante na gestão de lojas e dos ativos em geral. Pode ser um player bem ativo na consolidação setorial e isso tem sido negligenciado pelo mercado. Negocia com desconto muito grande sobre pares (exceção feita a Sonae, por razões óbvias) e merecia negociar em outro múltiplo com operacionais melhorando.

iii) Sanepar: barata, pagando dividendo e com muita desconfiança sobre governança. Merecidamente, eu sei. Mas pensando a longo prazo vamos precisar resolver isso. Não há alternativa se você pensa num governo efetivamente reformista e pró-mercado a partir de 2018.

Então, também compraria um pouco de bolsa americana, porque esse negócio sobe 7-8% em dólar há dois mil anos. Se o capitalismo funciona em algum lugar, é ali. Isso posto, a longo prazo, as empresas tendem a ir bem. E se as empresas vão bem, as ações seguem ao final.

Vamos adicionar um pouco de moeda forte também: pounds, franco suíço e dólar, porque, afinal, ele vai viajar mais do que o pai e precisa proteger o poder de compra em nível global. Além disso, estamos no Brasil, temos memória curta e, não demora, logo o PT volta pro poder.

Pra encerrar, um cheirinho nas criptomoedas. Alguma coisa entre 0,5 a 1% da carteira dele em ethereum e bitcoins. Aqui é o dinheiro da pinga, aquele que se pode perder, sabendo que, sim, pode ser uma bolha e há uma enormidade de riscos. Ao mesmo tempo, pode ser também o futuro do mundo e, em 18 anos, talvez isso se multiplique por 18x.

Ainda preferiria o Fifa 18 ou o novo uniforme completo do Neymar, mas está bom diante dos recursos escassos com os quais lidamos na classe média.

Em dia marcado pela expectativa em torno da reunião do Fed, mercados demonstram alguma tranquilidade. O prognóstico predominante é de que o Banco Central dos EUA sinalize alta do juro básico em dezembro e início do processo de redução de seu balanço já em outubro.

Commodities voltam a subir no exterior depois de alguns dias ruins, empurrando para cima moedas de países emergentes.

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Internamente, destaque para arrecadação de agosto, nova deflação medida pelo IPC-Fipe (-0,04%) e fluxo cambial semanal. Expectativa por Relatório Trimestral de Inflação e IPCA-15 amanhã já influencia sobretudo juros futuros. Nos EUA, além da reunião do Fed, saem vendas de casas usadas.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,1%, dólar cai contra o real e juros futuros apresentam ligeira tendência de queda.

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