Ecos de 1987? Ou de 1759?

Há pouco mais de 30 anos, o S&P 500 caiu mais de 20% num único dia, quando os mercados vinham subindo, a economia se expandindo e as taxas de juros de mercado começavam a subir. Qualquer relação com o comportamento recente de volatilidade da Bolsa talvez não seja mera coincidência.

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Ecos de 1987? Ou de 1759?

Na “Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith coloca que os homens querem mesmo ser admirados pela sua conduta e seus princípios éticos e morais. Lembra um pouco da ética aristotélica das virtudes.

O problema dessa proposta, segundo o próprio, é a dificuldade de manter-se na retidão e não se desviar do bom caminho. Somente quando percebe as adversidades de manter-se fiel às virtudes sem tergiversar, o homem passa a querer a admiração pelo acúmulo de bens e patrimônio. Disclosure necessário às vésperas do Carnaval: ao falar “o homem”, obviamente me refiro ao ser humano, em todas as suas orientações sexuais ou de gênero. Na festa da carne ou em qualquer outra, respeito à diversidade.

Ninguém dá muita bola para a Teoria dos Sentimentos Morais. Somente 17 anos mais tarde veio “A Riqueza das Nações” e a formulação clássica: “Quando um proprietário de terras, um tecelão ou um sapateiro tem mais lucro do que precisa para manter sua família, ele usa o excedente para empregar mais assistentes, a fim de aumentar seu lucro. Quanto mais lucro tiver, mais assistentes pode empregar. Daí decorre que um aumento no lucro dos empreendedores privados é a base para o aumento na riqueza e propriedade coletivas”. O egoísmo é altruísmo, pragmaticamente. Se parar para pensar, acaba sendo as bases para o Primeiro Teorema do Bem-Estar.

Mas vamos em frente. Só no Brasil o lucro empresarial é visto com maus olhos.

Cada pessoa tem sua motivação pessoal, aquilo que atina sua alma. Só você sabe a quais deuses ou demônios obedece, aqui no sentido de sua própria intimidade e seus elementos mais viscerais.

George Soros é um dos maiores investidores de todos os tempos – para mim, é o maior. Uma das pessoas mais ricas do mundo. Dispenso o chororô pela sua atuação política. Estou falando de outra coisa. Apesar de multibilionário e de obviamente gostar de dinheiro, Soros passou a vida inteira atrás de respeito intelectual. Em sua biografia, está clara a frustração por não ter suas ideias admiradas por Karl Popper, que nunca deu muita bola para o Soros-filósofo.

Estou com vergonha do que vou escrever na próxima frase. Mas preciso discordar de Popper nesta. Acho George Soros um pensador formidável e encontro grande aplicação para sua teoria da reflexividade neste momento, com expectativa e realidade se influenciando reciprocamente num processo dialético.

Depois de anos suprimida, a volatilidade voltou ao jogo nessa semana. Não há outro assunto neste momento.

Veja como as coisas são curiosas. Investidores decidem sua alocação a partir do nível da volatilidade de mercado, que é percebida como um medidor do nível de risco dos ativos. Quanto menor a vol, mais empurrados para a ousadia. Então, a volatilidade aumenta de súbito, exatamente como agora por conta da preocupação com os juros nos EUA.

A maior volatilidade emite um sinal sobre a necessidade dos investidores de reduzirem suas posições de risco. Esse processo de venda de posições impulsiona ainda mais a vol, que fornece uma nova indicação em prol da necessidade de vender ativos de risco. Cria-se um ciclo vicioso reflexivo, tal qual brilhantemente descrito por Soros e que representava a essência da Alquimia das Finanças.

Acho o Soros muito mais brilhante intelectualmente do que o Buffett. O problema é que o primeiro escreve muito mal, com livros bastante confusos – a obra de Robert Slater sobre o megainvestidor mostra o quanto os próprios amigos não entendiam nada das redações de Soros. Buffett é o contrário nesse aspecto: escreve super bem e de forma clara, inclusive classificando a capacidade de redação como um dos melhores atributos de um gestor.

A relação entre a volatilidade e a reflexividade não foi percebida por mim, claro. Em carta de outubro do ano passado, a Artemis Capital Management já havia escrito sobre Volatility and the Alchemy of Risk – Reflexivity in the Shadows of Black Monday. Aliás, aí está um sujeito brilhante intelectualmente e também escrevendo.

O documento apresenta um possível paralelo curioso entre os ecos da Segunda-Feira Negra de 1987 e o momento atual. Há pouco mais de 30 anos, o S&P 500 caiu mais de 20% num único dia, quando os mercados vinham subindo, a economia se expandindo e as taxas de juros de mercado começavam a subir. Segundo a Artemis, “o aumento da inflação foi a ignição original para o fogo de 1987, com os traders de computador servindo de nitroglicerina explosiva para transformar o incêndio normal numa explosão cataclísmica”.

Qualquer relação com o comportamento recente dos mercados talvez não seja mera coincidência.

Talvez você esteja à espera de uma resposta um pouco mais pragmática sobre minha visão do sell-off recente. Não me furto a atendê-lo, ainda que o momento não nos permita dizer com convicção os reais fatores por trás da magnitude da queda de Wall Street, tampouco precisar quando pararemos de cair.

No geral, porém, não vejo a volatilidade dos últimos dias, ao menos por enquanto, como ruptura de tendência. Parece-me mais uma correção natural dentro de um bull market estrutural do que qualquer outra coisa.

Primeiro pelas lições da própria Artemis:

“A volatilidade como um conceito é amplamente mal compreendida. Volatilidade não é medo. Volatilidade não é o índice VIX. Volatilidade não é uma estatística ou um desvio-padrão, nem qualquer outro número derivado de uma fórmula abstrata.

A volatilidade nos mercados não é diferente daquela da vida cotidiana.

Independentemente de como é medida, a volatilidade reflete a diferença entre o mundo como imaginamos e o mundo como ele realmente existe.

Nossa única chance de prosperar é se perseguirmos de forma incansável nada além da verdade. Do contrário disso, a verdade acabará nos encontrando por meio da volatilidade.”

Outro argumento importante aparece em coluna de hoje publicada no jornal “Valor Econômico”, em que se recupera a obra-prima “Desta Vez É Diferente”, de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart. Os autores identificam quatro fatores comuns subjacentes a todas as crises financeiras, a saber: bonanças de capital, inovação financeira, booms de habitação e liberalização financeira, sendo que somente o primeiro elemento parece estar presente agora.

Se dessa vez não é diferente, ainda não estamos na hora de uma grande crise. Segue o bull market. E seguem as correções grandes e típicas de um bull market. Carnaval sem volatilidade não tem a menor graça.

Mercados brasileiros buscam definir tendência na manhã de sexta-feira. De um lado, há busca por oportunidades criadas pelo sell-off e também uma injeção de ânimo com aprovação do projeto orçamento pela Câmara dos EUA, acabando com o shutdown do governo. Em contrapartida, a volatilidade dos últimos dias ainda gera tensão, bem como a cautela diante do feriado de Carnaval. Commodities no vermelho geram algum desconforto para mercados emergentes.

Por aqui, vendas ao varejo decepcionaram ao recuar 1,5%, enquanto prévia do IPC-Fipe mostrou inflação um pouco abaixo do esperado. Nos EUA, saem estoques no atacado e relatório Baker Hughes, do setor de petróleo.

Ibovespa Futuro, dólar contra o real e juros futuros estão perto da estabilidade. Talvez ainda não seja a hora de sair comprando feito louco. Nunca pegue uma faca caindo. Ou fundo do poço tem porão. Mas certamente é o momento de investigar as Melhores Ações da Bolsa.