Meu último Day One antes do Natal e você não pode ser o peru

Há uma prática usual da indústria de confundir ausência de evidência com evidência de ausência, de achar que um determinado padrão na história será repetido no futuro e, mais especificamente, de achar que a falta de volatilidade representa ausência de riscos.

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Meu último Day One antes do Natal e você não pode ser o peru

Miguel se casou com Ana em 12 de fevereiro de 1987. Tinham uma relação linda. Brigavam muito pouco, fruto da personalidade estável e discreta de Ana. As raras discussões resultavam da imposição de que o marido comparecesse aos churrascos na casa da cunhada em Itu, com frequência bimestral. Carne bem passada, picanha sem gordura, cerveja quente e a presença da cunhada – não havia como manter o bom humor. Transavam com boa frequência e obediência ao calendário – sempre às quartas e aos sábados; bom, ao menos eu acho uma boa frequência, feita a comparação pessoal. Tudo era calmo e tranquilo.

Na semana passada, de súbito, se separaram. Miguel descobriu que Ana era uma ladra. Por décadas, pertenceu a uma quadrilha de criminosos especializados em pequenos furtos. Alguns alegaram que era doença e Miguel poderia perdoá-la. “Crime é coisa séria. Como ela pode me esconder por tanto tempo?”, rebateu. Não conseguiu lidar com a surpresa. Miguel está arrasado. Vai viajar para o interior com o filho em busca de um recomeço.

Jorge foi padrinho de casamento de Miguel. Conheceu Maria Eduarda na tal festa de 12 de fevereiro de 1987. Ela discutia fervorosamente com sua amiga Heloísa, que, muito bêbada, acabou não resistindo às investidas de Henrique, um antigo affair – e até então a verdadeira paixão – de Maria Eduarda. Jorge nunca lidou bem com mulher chorando. Além disso, sempre foi um pacifista, contra a guerra. Jamais imaginou que se envolveria com M.E. posteriormente. “Imagina, uma mulher louca deste jeito…” Resolveu intervir: “eu tenho certeza de que as senhoritas têm algo muito sério a resolver, mas reparem só um negócio… está tocando Barry White e isso é um clássico dos casamentos. Eu acho que poderíamos interromper brevemente essa Terceira Guerra Mundial. Está tocando My First My Last My Everything e, me desculpem, isso merece um armistício. Partiu, pista.”, conclamou, já puxando as duas pelos punhos.

Deu sorte. M.E. amava o Barry White e teve a certeza imediata de estar diante do amor da sua vida, daqueles que atropelam qualquer coisa de forma avassaladora. Tente entender, leitor. Maria Eduarda tinha personalidade forte, era instável, buscava um amor de verdade depois da frustração com Henrique, que, àquela altura, já parecia uma formiga perto do encantador Jorge. Maria Eduarda e Jorge fizeram amor loucamente já naquela primeira noite. Brigaram muito tempo também já na primeira noite. Jorge não sabia lidar com a bipolaridade de ME, que, por sua vez, não entendia os demônios que Jorge escondia discretamente dentro de si.

Até hoje brigam pelas mesmas coisas. Transam com ótima frequência. Três a quatro vezes por semana, sem olhar o dia e com a mesma intensidade da estreia. Iam passar o Natal separados, fruto da última briga – Jorge chegou bêbado do futebol e encontrou um dragão espumando em casa. Ouviu xingamentos do mais baixo nível, aprendeu palavrões novos, decorou as posições certas para dormir no sofá sem sofrer de torcicolo na manhã seguinte. Não levou a sério, pois sabia da personalidade da esposa. Deveria ser a milésima briga, se conheciam com profundidade e não havia espaço para surpresas. Fizeram as pazes ontem. Estão felizes há 30 anos, ainda apaixonados.

Este é meu último Day One antes do Natal. Outras pessoas, bem melhores, vão escrever nos próximos dias. Sem querer, sou dragado para um assunto velho. Já falei disso algumas vezes e não queria soar repetitivo. A força das circunstâncias e a importância do negócio exigem fazê-lo.

Também não quero estragar a newsletter da Luciana de hoje à noite. Ali você encontra todos os detalhes, com muito mais profundidade. Eu me preocupo com o conceito. Talvez essa seja a coisa mais importante da ciência, sendo inclusive a raiz do problema do Cisne Negro, o tema central de Nassim Taleb, nossa maior influência.

Estou me referindo especificamente ao Guia de fundos da Exame, em parceria com a FGV. Eu quero dizer que este é um mapa errado. E não ter mapa é sempre melhor do que dispor de um mapa errado.

Por quê? Basicamente, porque ele estimula o problema da indução, de extrapolar casos particulares para o geral. Veja: não se trata de um problema específico com o guia de fundos da Exame. Refere-se a uma prática usual da indústria, de confundir ausência de evidência com evidência de ausência, de achar que um determinado padrão na história será repetido no futuro e, mais especificamente, de achar que a falta de volatilidade representa ausência de riscos.

O tal guia premia fundos de boa rentabilidade com baixa volatilidade. Não tem grande novidade nisso. A teoria das Finanças Modernas, esse monte de coisa que a gente aprende na graduação e depois no Mestrado, se liga ao tal Sharpe Ratio, que é uma forma de ponderar retorno e volatilidade, essa última como uma medida de risco. De maneira um pouco mais sofisticada, aparecem os conceitos de Mean Preserving Spread e Dominância Estocástica, que no fundo também combinam a ideia de média (retorno) com medidas de dispersão (variância, volatilidade).

Estamos claramente diante da falácia do peru de natal, de Bertrand Russell, apropriada por Taleb, ou também conhecida por problema do granjeiro, para usar o termo de Eduardo Giannetti em Trópicos Utópicos. Uma família alimenta um peru durante 360 dias no ano, sem nenhuma volatilidade. Todos os dias, a mesma ração, no mesmo horário. Se medíssemos o risco de vida do peru pela volatilidade de sua saúde ou de sua alimentação, teríamos confiança crescente de que ele estaria vivo no 24 de dezembro. A verdade, porém, é outra. Quanto mais perto o bicho está da morte, mais confiante ele mesmo estava de que seria alimentado no 24 de dezembro. Subitamente, ele vira o próprio jantar.

O tal peru inferiu, a partir do passado, de que o padrão seria replicado no futuro. Tomou-se a baixa volatilidade pregressa como um sinalizador de que a volatilidade continuaria baixa no futuro. De repente, o peru descobriu que aquela família, tão boazinha, era uma farsante, um bando de assassinos de seus animais de estimação!

O guia da Exame é tão absurdo, e honestamente é constrangedor que a FGV tenha participado desse absurdo metodológico, que seleciona os fundos de crédito a partir desse critério. Ocorre, porém, que muitas vezes os fundos de crédito se deparam com ativos ilíquidos, sem mercado secundário, forçando o gestor a marcar as cotas na curva. Isso obviamente retira volatilidade da cota ao longo de todo processo. Quanto mais ilíquido, maior o risco e mais marcado na curva, implicando menor volatilidade – até que, lá no final, no vencimento do crédito…..boom! Explode de uma vez. Você está sendo guiado em direção à explosão, a partir de um caminho limpo, claro e devidamente pavimentado.

Proponho a completa inversão de valores. Diante de dois fundos de igual retorno, escolha aquele de maior volatilidade histórica. Há duas vantagens.

Nesse, os riscos são conhecidos. Ele sabe exatamente com qual bicho está lidando. A volatilidade revela os problemas. A ausência dela mascara as ameaças e aumenta o risco de cauda – aquele desconhecido, que a gente não vê e para o qual está mais despreparado.

Além disso, o gestor que já lidou com situações de volatilidade e stress no passado certamente estará mais preparado do que aquele que jamais se viu diante de uma adversidade. Aquilo que não mata fortalece. Nosso corpo, nossos músculos, nossa mente e nosso gestor precisam de estressores para crescer.

Em 2018, tenho uma meta principal: sobreviver. O resto é conversa fiada. Para isso, preciso não ser eu mesmo o peru de Natal.

Depois do tombo da véspera, mercados iniciam a quarta-feira tentando recuperação. A aprovação de pacote fiscal de Donald Trump no Senado dos EUA e a liberação de compulsórios por aqui estimulam a disposição a risco.

Banco Central brasileiro reduziu compulsório de depósitos à vista de 45 para 40%, e de depósitos a prazo de 36 a 34%. Na véspera, arrecadação federal surpreendeu positivamente ao mostrar alta de 12,6% em novembro.

Hoje, nota do setor externo e fluxo cambial mensal completam a agenda local. Nos EUA, temos dados de hipotecas, vendas de casas existentes e estoques de petróleo.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,4%,  juros futuros recuam e dólar cai ligeiramente contra o real.

Antes de sair de férias, faço um convite para que você nos ajude a desenhar o Mapa de Investimentos do Brasil e dos leitores da Empiricus. É uma parceria nossa com a FIA para pesquisar a forma com que a pessoa física investe por aqui, de modo a posteriormente ajudar de alguma maneira no desenvolvimento do mercado de capitais.