Voltando à normalidade

Na semana que vem, completaremos o sétimo mês da presença confirmada da Covid-19 no Brasil. O primeiro caso foi anunciado no dia 24 de fevereiro, quando um homem de 61 anos deu entrada do Hospital Albert Einstein, recém-chegado de uma viagem à Itália.
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Na semana que vem, completaremos o sétimo mês da presença confirmada da Covid-19 no Brasil. O primeiro caso foi anunciado no dia 24 de fevereiro, quando um homem de 61 anos deu entrada do Hospital Albert Einstein, recém-chegado de uma viagem à Itália.

De posse dos dados e informações coletados ao longo do período, acredito que já seja possível avaliar a efetividade das medidas tomadas no início da pandemia, até porque algumas delas vêm sendo mantidas até os dias de hoje.

No princípio, sob intensa névoa da guerra, não restava outra saída aos governantes senão a tomada de providências drásticas de isolamento, sob risco do colapso do sistema de saúde e o espectro de milhões de vítimas.

Gradualmente, fomos entendendo os fatores de risco e desenvolvendo melhores protocolos de tratamento (enquanto a vacina não chega).

Atrapalhando o entendimento, uma duelo de narrativas entre os defensores e os críticos das medidas de isolamento foi sendo travado, especialmente nas redes sociais. Tais embates foram tomando tons progressivamente agressivos, temperados por interesses políticos e enfrentamentos ideológicos. 

Na Europa, onde viu-se a mais intensa batalha contra o vírus, países foram forçados a agir rapidamente contra a contaminação. Enquanto a maioria tomou medidas rígidas de isolamento, a Suécia destacou-se em sua opção por um caminho distinto, delegando aos seus cidadãos a responsabilidade de tomar decisões individuais de proteção. 

Olhando para trás agora, seria já possível eleger qual estratégia foi mais bem-sucedida em lidar com o vírus?

A pergunta parece ter sido respondida pelo brilhante analista Louis-Vincent Gave, fundador e CEO da respeitada casa de análise Gavekal. O francês comparou dados de cinco países com estratégias diversas. De um lado, Suécia e Suíça, que optaram por medidas mais brandas. Do outro, Dinamarca e França, que adotaram lockdowns restritos. No meio, os EUA, onde cada Estado escolheu uma rota específica.

Como a própria contagem das vítimas de Covid pode gerar polêmica, já que pode haver mais de uma causa mortis, Gave olhou para o número total de óbitos em cada país e comparou com os anos anteriores. Assim, ficaria claro onde as mortes em excesso aconteceram com mais intensidade.

França e EUA mostraram os piores números. Do outro lado, Dinamarca foi a mais bem-sucedida, seguida por Suíça e Suécia. A conclusão parece ser de que a adoção de lockdowns só fez sentido quando adotada cedo, como feita na Dinamarca, diferente do que foi feito na França, que fechou quando a contagem de vítimas diárias chegava a centenas.

 

O interessante porém aparece nos pontos mais recentes do gráfico. Todos os países apresentam os números mais baixos de óbitos dos últimos dez anos. Tal informação parece indicar que parte das vítimas do primeiro semestre, na sua imensa maioria idosos, foram de certa forma adiantadas, já que sua expectativa de vida média já era bastante curta. 

Louis-Vincent Gave também analisou as mortes através dos anos por faixa etária, mais precisamente na França, país da amostra com mais mortes em excesso. A conclusão é de que as mortes estão concentradas nas faixas mais idosas da população, acima dos 60 anos.

Pois bem. Se os números mostram que as potenciais vítimas de Covid-19 estão amplamente concentradas em pessoas já próximas do fim do seu ciclo de vida, por que ainda insistimos com medidas que restringem toda a população?

Louis-Vincent Gave apresenta algumas possíveis explicações.

A primeira passa pela não representação política dos mais jovens, especialmente dos menores de idade. A absurda insistência na manutenção das escolas fechadas parece corroborar isso. Os pequenos estão sendo sacrificados, tolhidos do direito à educação adequada e do convívio social, pois não têm canais para pressionar por seus legítimos interesses.

Gave também cita o aproveitamento político eleitoral das medidas de compensação contra a crise econômica. A subida da popularidade do nosso presidente, apoiada na distribuição da ajuda mensal à população menos favorecida, é um dos exemplos de como autoridades se beneficiam da manutenção do estado atual de exceção.

Por fim, Gave traz a explicação favorita, de que a cabeça dos políticos é essencialmente dura e, assim, eles têm imensa dificuldade em mudar de posição, admitindo falhas e equívocos em medidas anteriores. Como parece ser impossível declarar a vitória definitiva sobre o vírus, as autoridades seguem defendendo a manutenção das políticas adotadas no momento de pânico quando do início da crise, por mais equivocado que isso seja.

Completando nosso sétimo mês de pandemia, e diante dos dados e evidências a que temos acesso, não vejo outra saída senão uma rápida normalização das nossa atividades, passando aos indivíduos a decisão pessoal de a que riscos querem ou não se expor. 

Não consigo enxergar o benefício em delegar indefinidamente ao Estado a melhor maneira de conduzir as nossas vidas. 

Deixo você agora com os destaques da semana.

Boa leitura e um abraço.
Caio