O bitcoin é uma bolha?

Para Warren Buffett é bem provável que a "bolha bitcoin" não termine bem, e quando ele fala temos que respeitar. Vamos encarar a realidade: é bem provável que sim. Mas o que não é? Essa, pra mim, é a questão relevante

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O bitcoin é uma bolha?

Warren Buffett tem quase certeza que a história das criptomoedas não vai terminar bem. Ele diz também que, se pudesse, compraria puts (opções de venda) de cinco anos sobre cada moeda digital existente, embora tenha admitido não manjar nada da coisa.

Breve nota técnica antes de prosseguir – talvez você possa pular este parágrafo se estiver com pressa, sem qualquer perda de entendimento sobre o todo: repare como comprar puts é diferente de estar short (montar uma posição vendida). Ambas são apostas na baixa, mas muda bem a matriz de payoff e você não está exposto a uma perda potencial infinita. Por mais pessimista que você esteja sobre um determinado ativo cuja assimetria da distribuição de retornos está à direita, jamais monte uma posição short estrita naquilo. Aposte centavos para ganhar dólares, nunca aposte dólares para ganhar centavos.

Quando Buffett fala, temos de respeitar. O bitcoin é uma bolha?

Vamos encarar a realidade: é bem provável que sim.

Mas o que não é? Essa, pra mim, é a questão relevante. Os bancos centrais têm injetado dezenas de trilhões de dólares de dinheiro no sistema há oito anos, distorcendo todo e qualquer preço de ativo financeiro no mundo. Não se trata de uma bolha local. É tudo uma grande bolha. Até quando a bicicletinha vai pedalar não sabemos…

Temos hoje alguma coisa em torno de 233 trilhões de dólares (!) no mercado de dívida, o que corresponde a mais de 300% do PIB mundial, sendo que aproximadamente 11 trilhões de dólares estão rodando a juros negativos – ou seja, desconsideradas situações especiais, o investidor que compra esse bond está aceitando a priori ter um retorno negativo.

Olha o nível a que chegamos. Isso não pode ser sintoma de um sistema financeiro saudável.

Vamos colocar as coisas em perspectiva. Temos 11 trilhões de dólares em juros negativos e a grande bolha global está no bitcoin, cujo valor de mercado não passa de 70 bilhões de dólares? Isso faz algum sentido?

O que escapa a algumas pessoas é que, em alguma medida, o comportamento recente estelar das criptomoedas resulta justamente da descrença no sistema financeiro tradicional, do caminhão de dinheiro que foi introjetado no sistema e do nível de dívida assumido pela maior parte dos países.

Sinceramente, nem acho que as criptomoedas sejam o novo safe haven, aqui aplicado como o melhor hedge (proteção) contra a desconfiança sobre a moeda fiduciária clássica. Pra mim, haverá um momento – e eu não sei quando isso vai acontecer; talvez demore uma década – em que tudo isso precisará ser reconciliado e retomaremos o ouro como grande reserva de valor, mesmo que momentaneamente.

A distorção de preço dos ativos provocada pelo tanto de dinheiro distribuído de helicóptero nos últimos anos é generalizada, sem exceção. Escolha a bolha em que você quer acreditar. Esse é o ponto.

Para ser um pouco mais preciso, nem é tanto uma questão de acreditar. Corrigindo: escolha a bolha a que você quer se expor. Seguros são os mercados de dívida, é isso? Pagando juros negativos ou próximos de zero?

Olhe o perfil de retornos a que você está se expondo nesse caso. Já estando negativos, para onde mais podem ir esses juros, meu Deus? Não seria mais racional apostar no contrário, ou seja, que poderemos estar na iminência de uma grande abertura de juros global? Aí sim a assimetria estaria a seu favor.

Quanto você pode perder e quanto você pode ganhar aplicando num título soberano de um país desenvolvido? E quanto você pode perder e quanto você pode ganhar comprando moedas digitais? Esse é o jogo, sabe?

Você acha o bitcoin é uma farsa, simplesmente por que não tem lastro? Sólido mesmo é o real (ou qualquer outra moeda que você quiser citar), com este nosso déficit fiscal e este Estado completamente falido, né?

O que é a realidade? Ela existe sozinha? Ou é tudo uma grande fantasia, com cada um dando à realidade a sua própria interpretação mitológica?

Tenho quase certeza de que esse ciclo de impressão cavalar de dinheiro, supressão da volatilidade e bancos centrais comprando até bonds perpétuos da Empiricus não vai terminar bem. Aliás, o bull market nunca termina bem. Assim como o bear market nunca termina mal. Eles se revezam, na mais consagrada manifestação do caráter maníaco-depressivo dos mercados, que vivem ciclos alternados de “boom and bust”. O que mais me preocupa? O fato de que lá fora vive um estágio bem avançado do ciclo, com possibilidade material de uma abertura dos yields (juros dos títulos) que venha a reduzir o apetite por risco. Essa, pra mim, é a grande bolha.

Depois do tombo da véspera, mercados esboçam tentativa de recuperação na quinta-feira. A escalada dos yields em nível global vista ontem foi interrompida depois que a China negou a intenção de reduzir a compra de Treasuries, devolvendo tranquilidade aos mercados. As variações, no entanto, são bastante comedidas e mais uma vez empurradas pela valorização de commodities.

Inflação doméstica voltou a surpreender para cima, com IGP-M marcando alta de 0,75% na primeira prévia de janeiro, contra expectativa de 0,65. Agenda internacional traz inflação ao produtor norte-americano e pedidos de auxílio-desemprego nos EUA.

Ibovespa Futuro abre em ligeira alta de 0,10% contra o real, dólar sobe marginalmente contra o real e juros futuros avançam reagindo ao IGP-M.

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