O paradoxo de Warren Buffett

Para Warren Buffett, presidente da Berkshire Hathaway, “Investir é a atividade em que o consumo hoje é postergado pela tentativa de se conseguir um maior consumo numa data futuro... ". Mas, como investir pensando no longo prazo com a velocidade que as coisas mudam hoje? Qual capacidade de planejamento podemos ter? Qual a empresa do futuro? Você está preparado para os próximos 20 ou, na melhor das hipóteses, 10 anos?

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O paradoxo de Warren Buffett

No sábado, saiu a carta mais recente aos acionistas da Berkshire Hathaway, escrita por Warren Buffett. Desde então, só se fala disso entre os financistas, todos eles apaixonados pelo megainvestidor. Gestor de ações, principalmente no Brasil, é pior que santista: só fala no Pelé de Omaha.

Sim, sim, os mesmos gestores de ações que estão tentando antecipar o próximo ciclo eleitoral ou o resultado trimestral a ser anunciado na próxima quarta-feira debruçam-se sobre os ensinamentos de Buffett, destilados em palavras escritas de forma clara e coesa no documento. É muito bonito colocar-se como “preocupado com a geração de retorno absoluto de maneira consistente ao longo do tempo, independentemente do comportamento dos índices”. Na prática, porém, fica bem mais difícil realmente viver isso. Com o rali de bancos, Petrobras e Vale, muita gente está com medo de ficar para trás em 2018. Desnecessário dizer o quanto isso fere a essência do value investing de Buffett, mas deixemos esse paradoxo de lado. Cobrar coerência seria uma exigência muito feroz. Há outro ponto bem mais interessante para tratarmos hoje.

Antes de atacá-lo diretamente, destaco dois pontos bem interessantes da cartinha. O primeiro deles ligado à definição de risco. Nas palavras do bom velhinho: “Investir é a atividade em que o consumo hoje é postergado pela tentativa de se conseguir um maior consumo numa data futuro. ‘Risco’ é a possibilidade de esse objetivo não ser atingido”. Nada a ver com volatilidade no meio do caminho, mas com perda permanente do capital e queda das possibilidades de consumo intertemporal. Seu rol de escolhas potenciais de consumo lá na frente foi reduzida por algo que deu errado durante o processo.

A segunda coisa legal se refere às observações sobre a aposta feita em 2007 com a Protégé Partners. Para quem não acompanhou a discussão à época, a Protégé Partners escolheria cinco fundos de fundos que teriam de superar o S&P 500. Buffett, por sua vez, estaria na ponta oposta, apostando passivamente no benchmark.

Resumindo o desfecho, Buffett ganhou de lavada, num argumento empírico em prol da gestão passiva. Como ele mesmo resume: “Performance vem, performance vai. As taxas nunca falham”. Os custos de transação e as taxas de administração e performance são adversários importantes no longo prazo, muito embora o próprio Buffett seja um praticante da gestão ativa e também não tenha batido o mercado no horizonte em questão, o que talvez nos levasse ao segundo paradoxo do dia, mas deixemos também esse de lado.

Vamos ao que realmente interessa. Mais uma vez pegando as palavras da carta, numa tradução livre, e certamente muito ruim feita por este redator que mal fala português: “A Berkshire, em si, oferece um exemplo vívido de como a volatilidade de curto prazo dos preços das ações pode obscurecer o crescimento de valor no longo prazo. Durante os últimos 53 anos, a companhia criou valor reinvestindo seus lucros e permitindo que a mágica dos juros compostos fizesse seu trabalho. Ano após anos, nós nos movemos para frente. Ainda assim, as ações da Berkshire sofreram quatro grandes quedas, detalhadas na tabela abaixo”:

Ainda nos dizeres de Buffett: “Simplesmente não há maneira de se dizer o quanto as ações podem cair no curto prazo”. Investir em ações, como a compra de um pedaço de uma empresa sob os ensinamentos do value investing, é algo necessariamente de longo prazo.

Então chegamos à essência do paradoxo que quero tratar. Como investir pensando no longo prazo com a velocidade que as coisas mudam hoje? Qual capacidade de planejamento podemos ter? Qual a empresa do futuro? Você está preparado para os próximos 20 ou, na melhor das hipóteses, 10 anos?

Como está resumido no Organizações Exponenciais, “algumas décadas atrás, era possível (e importante) planejar em longuíssimo prazo. As empresas faziam investimentos estratégicos pensando em uma década ou mais no futuro, e o plano quinquenal servia como um documento único que descrevia os detalhes dessa implementação. No entanto, em um mundo exponencial, o plano quinquenal não é apenas impraticável, como seriamente contraproducente.”

Em outras palavras, como investir pensando no longo prazo se o longo prazo é impensável? Receio de que estejamos usando um instrumental analítico de um mundo linear (anterior ao advento do big data e da inteligência artificial, dos drones, da computação em nuvem e dos computadores que andam chamados de Tesla) para um arcabouço exponencial. Se for o acaso, olhamos para um mapa errado à procura de uma direção. Era melhor não dispor de mapa algum.

O próprio Warren Buffett, historicamente contrário a posições em tecnologia e empresas aéreas, hoje detém 3,3% da Apple e 7,4% da Delta Airlines. Ele está se sofisticando, enquanto nós estamos lendo o “Security Analysis” atrás de insights de como escolher ações.

Não sei dizer qual será a empresa do futuro, mas suspeito de algumas coisas, entre elas:

  • Suspeito que quem não tratar informação de forma rápida e abrangente ficará para trás;
  • Desconfio que os bancos terão um papel bem diferente e que talvez suas funções mais triviais sejam desempenhadas por Amazon e Facebook (veja por exemplo o quanto Mercado Livre está financiando diretamente seus clientes, criando para si um importante diferencial competitivo);
  • Acredito que empresas de educação podem se destacar profundamente se derem o tratamento moderno, digital e exponencial ao ensino em longa distância, transformando uma ameaça em grande oportunidade; 
  • Pontuo que há modernidade em empresas que menos esperamos, com siderúrgicas brasileiras monitorando estoques a partir de drones altamente eficientes.

Hoje a disrupção é a norma. Se queremos mesmo nos preparar para os próximos 20 anos, precisamos mudar o enfoque das empresas que possuem muitos ativos, desconto sobre o patrimônio (foco de Benjamin Graham) para outras velozes, ágeis, que se beneficiem da capacidade de explorar o que lhe é externo, como computação em nuvem, comunidade, externalidade de rede. Se antes altas barreiras à entrada eram muito privilegiadas, e essas eram em grande medida marca, ativos, patentes e capital, agora a capacidade de adaptação ao novo e a agilidade interna possivelmente sejam os grandes diferencias do atual value investing. Não há mais o que se preservar. É tudo mudança.

Depois de uma longa sequência de ganhos, mercados brasileiros abrem a terça-feira realizando lucros, enquanto aguardam discurso de Jerome Powell, do Fed. Alguma cautela diante de sinalizações sobre futuro da política monetária nos EUA impede uma postura mais propensa a risco.

Agenda nos EUA reserva, além do pronunciamento do chairman do Fed, encomendas de bens duráveis e confiança do consumidor. À noite, temos dados industriais na China.

Internamente, IGP-M apontou inflação de 0,07%, levemente acima do esperado. Para hoje, são aguardados indicadores fiscais do governo central.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,3%, dólar está perto da estabilidade sobre o real e juros futuros mostram ligeira alta.