S02E28 – Garota Interrompida

A mulher tem condições de sair do escuro nos investimentos, inclusive contando com o apoio de outras mulheres

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S02E28 – Garota Interrompida

Trilha da semana
Cindy Lauper – She’s So Unusual

 

Acordei hoje cedo com a Lu, filha da Alice, vestida toda de preto e um batom vermelho na cara – “hoje é, na verdade, um dia triste. Mulheres morreram queimadas enquanto lutavam por direitos iguais. Em protesto, todas as meninas vão à escola de preto e com batom vermelho”.

Eu voltei à minha rotina de homem branco elitista opressor e pensei de que forma poderia homenagear as mulheres tão presentes em minha vida – hoje, dentre minhas dez pessoas preferidas no mundo, nove são mulheres. Foi aí que me lembrei: semana passada, estive em uma conferência, e Roberto Rigobon, um gênio venezuelano com Ph.D. em Economia pelo MIT, discursou para nós durante o almoço. O tema: Big Data.

O cara tem uma empresa de análise de dados e passa a vida medindo sinais para antecipar movimentos de variáveis de mercado. Coisas do tipo: compara preços de milhares de artigos de consumo em diferentes lojas online, em diferentes países pelo mundo, e define qual seria a taxa de câmbio mais justa – um índice Big Mac na era da Internet das Coisas.

Uma das demandas que ele busca atender é avaliar se existe, de fato, diferença no mercado de trabalho entre homens e mulheres. Em uma das pesquisas que fez, avaliou o comportamento de diversos grupos e chegou à conclusão de que, em média, homens interrompem as mulheres sete vezes mais do que interrompem outros homens.

Com essa informação, não acho que teria nada mais justo do que eu “ser interrompido”.

Com vocês, Victória Mantoan.

“Será que eu dou conta?”

Eu chutaria que todas as mulheres já ouviram essa frase ou variações muito semelhantes em algum momento da vida. Ouviram de outras mulheres, de amigos receosos ou inseguros, mas, principalmente, daquela voz insistente dentro da nossa própria cabeça que sempre levanta as questões mais perniciosas. Eu, pessoalmente, me pergunto isso o tempo inteiro.

Será que eu dou conta de cumprir a tarefa que a Bia Nantes me deu de ajudar a cuidar dos assinantes dentro da Empiricus?

Será que eu consigo dar alguma contribuição relevante para o clube de assinatura de livros sobre economia e finanças que o Rodolfo quer colocar de pé?

A mesma coisa aconteceu essa manhã, quando o Alexandre me perguntou “Quer escrever a news de hoje?”. “Não sou especialista em investimentos, muito menos extremos, nem estudiosa de questões de gênero”. Mas logo me dei conta: faço parte de dois conjuntos populacionais com intersecção muito pequena, o de mulheres e o de investidores – para ser justa, não faz muito tempo que habito o segundo conjunto.

Como nem todas as questões são perniciosas, comecei a pensar, enquanto almoçava com outras três mulheres incríveis e muito competentes da Empiricus, o quanto do número ainda pequeno de mulheres investidoras não é resultado desse autoquestionamento constante, dessa insegurança quase padrão. Questionamento que pode aparecer na forma de “Não terá alguém mais bem preparado para fazer isso?”

Então terminamos delegando os investimentos que são nossos para os homens da nossa vida: pais, namorados, maridos, amigos-supostamente-mais-entendidos-que-nós. Em muitos casos, diria que o único mérito que eles teriam sobre nós no quesito investir é o de serem homens.

Ao menos para mim, mudar esse cenário demorou mais de 20 anos e não foi fácil. E o medo de errar e perder tudo? Minha tia Cristina é funcionária pública aposentada e deixa todo o dinheiro guardado na poupança. Uma das minhas melhores amigas, Mariana, é jovem e aventureira, mas na hora de lidar com dinheiro faz exatamente a mesma coisa, vai tudo para a caderneta. As duas já foram alertadas sobre o que vai acontecer com o dinheiro delas se continuarem lá: descer pelo ralo.

Mas eu reconheço o medo no olhar delas quando vislumbram fazer um movimento diferente. Volta o “Será que eu vou dar conta?”

“Eu vou ter condições de escolher uma corretora? Nunca nem ouvi falar de nenhuma.”

“Que preparo eu tenho para escolher a melhor para mim?”

A verdade é que ninguém tem preparo para tomar uma decisão sobre o completo desconhecido. Eu não tenho, você não tem. Ah, e os homens também não, tá?

O que a gente tem é condições de sair do escuro, inclusive contando com o apoio de outras mulheres. E aí entra o conteúdo da Empiricus e o trabalho de traduzir temas complexos para o português. Conteúdo que toda mulher pode e deve consumir. Ele não é feito para homens e muito menos apenas por homens. Os incentivos da Beatriz Cutait junto com a Luciana Seabra, hoje pela manhã no Day One, são a prova disso. Duas analistas incríveis, que você pode ler em combo.

Foi com a ajuda desse conteúdo que eu abri minha primeira conta em corretora com (bem) mais de 20 anos na cara. Ufa, nem foi tão difícil assim.

Foi com a Empiricus que comecei a ler sobre os fundos DI baratos de que a Luciana fala, e a colocar dinheiro neles. Foi por esse caminho que gostei da ideia de colocar uma parte do meu dinheiro em ações, como a Bia Cutait sempre pede que os assinantes dela façam.

E foi assim que eu terminei ligando pro meu pai pra dizer que achava que ele devia tirar o dinheiro dele do fundo ruim em que estava aplicado em um banco (recomendado pelo gerente, é sempre bom lembrar).

Não só não foi ruim como foi ótimo, tem sido ótimo.

Mas foi quando eu lembrei e me reconheci nesse medo que as mulheres sentem de tratar de investimentos que eu vi sentido em falar sobre algo tão básico quanto tomar as rédeas do próprio dinheiro e abrir conta em uma corretora em um espaço dedicado a ideias extremas de investimento.

Extremo é aquilo que é distante, que foge ao habitual ou à regra. Minha sugestão extrema de investimento para toda mulher, então, é essa: faça você mesma.

Tem coisa mais extrema do que isso?

Um abraço,

Victória Mantoan

P.S. O clube de assinatura de livros não só foi colocado de pé como é incrível e se chama Empiricus Books. Você devia conhecer.