S02E24 – A Miopia de Romeu

Romeu não enxergava as coisas boas do mundo além dos muros de Verona. Será que a miopia de Romeu não é a mesma que você tem em relação a diversificação de investimentos? Quantos por cento da sua carteira está alocada em ativos brasileiros?

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S02E24 – A Miopia de Romeu

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“Mundo não pode haver fora dos muros de Verona, mas dores, purgatório, o próprio inferno.
Estar daqui banido, é banido também estar do mundo, e semelhante banimento é a morte”.

Romeu, o da Julieta, não conhecia nem valorizava o mundo fora de Verona. Ser banido da cidade natal, se afastar dos amigos, da família e dos lugares que frequentou a vida toda era tão ruim quanto a morte.

Por mais que tenha enxergado toda a beleza de Julieta à distância, era um míope. Não enxergava, literalmente, um mundo de oportunidades fora de sua convivência. Caso grave de “home country bias” – incapaz de dar valor a Paris, Tóquio ou Pequim.

Nunca fui a Verona, mas imagino que Milão, Roma, Turim e Florença sejam tão boas quanto e, provável, com outras Julietas, Lucias, Giulias, Chiaras… Qualquer coisa, dá uma passada em Londres, toma uma boa cerveja, pede um “fish and chips” (concordo que a comida fica devendo) e se apresente à primeira Kate ou Elizabeth que vir pela frente. Vai por mim, tem bastante coisa boa no mundo além dos muros de Verona.

Se está rindo da ingenuidade de Romeu, pense se você não faz o mesmo com seus investimentos.

Quanto de sua carteira está alocada em Brasil? Imagino que 99% das quatro pessoas que leem esta newsletter tenham 100% da carteira alocada em ativos brasileiros.

É uma mistura de poupança com Tesouro Direto, um CDB capenga de um bancão e duas ações da Petrobras, aquelas que você comprou com o seu FGTS há uns 15 anos e te deram mais dor de cabeça do que misturar Catuaba com Martini paraguaio.

Olha que bonito: de 1989 para cá, elegemos quatro presidentes. Dois não terminaram o mandato, um acabou de ser condenado a 12 anos de prisão e o outro é, no mínimo, suspeito de diversas relações pouco republicanas durante seu período no Planalto.

O atual presidente – interino, diga-se de passagem – foi pego em gravação com empresário bandido (pode chamar réu confesso de bandido, produção?) pedindo para “manter” o bom relacionamento com o ex-presidente da Câmara preso por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Tem senador enrolado com o mesmo empresário bandido, numa tentativa estranha de vender apartamento da mãe (esse está lá, cumprindo o mandato e não a pena). O STF não condena ninguém e o Judiciário tenta legislar, enquanto tem juiz famoso recebendo auxílio-moradia em dobro (tudo dentro da lei, claro).

E o que dizer de senadores que desafiam decisões de desembargadores conclamando desobediência civil, ou de um outro que simplesmente se recusou a acatar liminar do Supremo e se manteve presidente do Senado à revelia da mais alta corte do país? Bonito, isso – me recuso a pagar o IPTU neste ano, será que rola?

Depois do 7 a 1, nem futebol dá mais, né? Até tem uma galera bacaninha no surfe, mas quem quer saber de surfe?

O Brasil, amigo, é uma bagunça.

É engraçado como você se sente confortável em comprar LFTs garantidas pelo Tesouro Nacional de um país com dívida explosiva e sem nenhuma estabilidade institucional, mas, se eu falar para investir em papéis russos, turcos e/ou chineses, vai me olhar como se eu fosse louco (sim, eu sou) e dizer que isso aí é arriscado demais. Mas, claro, não vê problema algum em confiar no Temer.

Veja, não estou aqui querendo estragar o clima de euforia – também acho que estamos em um bull market cíclico. A Bolsa vai bombar e a economia tem muito ainda para andar, aquela coisa toda de capacidade ociosa, inflação baixa e juros nas mínimas (compra, compra, compra!). Mas será que não convém tirar os olhos da Maria só um pouquinho e dar uma olhada ali para o lado e ver o que a Kim está aprontando na Coreia (a do Sul, por favor)?

O que mais me incomoda nessa história toda é que a própria CVM, que deveria incentivar a diversificação e o investimento em países desenvolvidos, dificulta muito o processo – fundo de investimento “internacional” só pode para investidor qualificado (aqueles com mais de 1 milhão de Temers aplicados) e mesmo assim com um monte de regrinha chata e burocrática.

Se o fundo quiser ter a liberdade de investir quanto quiser lá fora, piora – aí só para os investidores profissionais, galera humilde, com 10 milhões de Temers investidos, no mínimo.

Basicamente, o que o regulador brasileiro está te falando é que quem tem pouca grana pode comprar OGX à vontade, mas se quiser comprar Apple ou Alphabet (Google) tem que ser rico ou ir atrás de um fundo que invista em BDRs (se tiver três no mercado, é muito). Não sei para você, mas para mim isso é um despropósito – está mais fácil comprar bitcoin do que ações da Microsoft.

Só que não há nenhum impedimento legal para que você abra uma conta em uma corretora lá fora. É fácil, prático e não precisa de muito – só de 10 mil dólares, que costuma ser o valor mínimo para fazer a remessa (ainda é uma boa grana, mas bem menos do que 1 milhão de reais!).

Com isso, você pode investir da melhor forma que entender em ações de companhias americanas, inglesas, chinesas e japonesas. Pode comprar títulos mexicanos, italianos, sul-coreanos e australianos. Dá até para comprar bonds venezuelanos (sim, acredite) sem muita dificuldade.

E por que ninguém te conta isso? Em parte, porque é mais rentável para todo mundo (e por todo mundo, digo os bancos), que você mantenha sua grana lá parada na poupança, rendendo pouco. Em parte, porque a CVM acha que a pessoa física brasileira é uma criança, incapaz de estudar e aprender sobre finanças e está fadada, eternamente, a investir em produtos (brasileiros) ruins.

Uma das missões da Empiricus é democratizar o conhecimento financeiro. É permitir que advogados e veterinários invistam tão bem quanto os “profissionais” da Faria Lima e do Leblon. E se você quiser olhar além dos muros de Verona e investir nas maiores e melhores empresas do mundo, bate um papo com o João, que entende (e muito) do assunto.