É o Apocalipse

Temos indícios de um crescimento mundial mais forte do que o esperado, sem inflação e ainda com muita liquidez.

É o Apocalipse

“A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome.”

Está escrito lá em Apocalipse, capítulo 13, versículos 16 a 18. Diante da escalada dos bitcoins e da possibilidade de que a moeda digital unificada globalmente seja a marca sobre a mão direita de todos, há mesmo gente preocupada com o fim dos tempos. Vai saber, né? Se for, não teremos muito como escapar. Então, eu, que não sei de nada, acho melhor, na dúvida, pedir uma pizza de Catupiry da Margheritta para saborear com o João Pedro – ao menos morro feliz.

Estou mais preocupado com o fim do mês. Duas verdades se misturam: a verdade do universo, a prestação que vai vencer. Não é o salário que é curto, agosto que é longo.

A gosto de Deus, o mês vai terminando como um marco importante na trajetória dos ativos de risco, em especial brasileiros, entre os líderes da valorização global.

Conforme o sábio e ídolo Riobaldo, “o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço ! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.” Não deixa de ser uma versão para o ditado clássico de que a Bolsa sobe de escada e desce de elevador.

Talvez ninguém tenha percebido, nem o Congresso da B3 em Campos do Jordão, mas o Ibovespa caminha para encerrar o mês com valorização acumulada em torno de 8 por cento, levando os ganhos no ano a quase 18 por cento. Não é pouca coisa, principalmente num mundo de juro ainda excepcionalmente baixo.

Agosto consolidou uma nova fase do que estamos colocando como um bull market estrutural. Depois do que escrevi ontem, é um pouco triste ver o private banking do Credit Suisse chamando conference call para também defender “a manutenção da posição comprada em Bolsa, com proteções.” Viramos mainstream. Preferia que não fosse assim, mas ainda não consegui superar o paradoxo de discordar de mim mesmo.

Estamos numa fase interessante do bull market em que as coisas sobem quase sem a gente notar. Ele vai indo, se economizando, na lei do mansinho. Quando você assusta, pronto! Está lá uma alta de quase dois dígitos em apenas um mês. E assim vamos navegando, numa espécie de velocidade de cruzeiro.

Recuperando os ciclos de boom and bust tão estudados por George Soros, você tipicamente nota um início marcado por uma grande derivada positiva, uma enorme inclinação para cima. Então, chegam alguns testes importantes e todos pensam que a tendência de alta está acabada. Qualquer relação com a realidade e o acontecido em 18 de maio é mera coincidência. “O governo acabou”, “A Previdência já era”, “Ele vai renunciar e o Lula volta”, etc. Poucos meses depois, estamos na máxima do ano, flertando com recorde histórico nominal.

Conforme me lembra sempre o brilhante Pedro Cerize, com quem aprendi e sigo aprendendo um montão de coisa, para uma tendência de alta se consolidar ela precisa passar por provações, por testes do modelo. Se você recuperar a definição estrita de uma tendência de alta, está lá: picos e vales ascendentes. Não se trata apenas de picos ascendentes. Está incompleta a definição dessa forma. Precisamos dos fundos também.

Então, superada a fase inicial de um grande boom para cima, mais caracterizado pela entrada do smart money, entramos numa segunda, mais longa e suave, em que as coisas vão indo sem grande alarde. Aí vai o grande público entrando. Até uma terceira etapa, em algumas situações chamada de melt up, em que supostamente todos os testes foram superados, a volatilidade sumiu e damos uma grande porrada adicional para cima. Obviamente, o resultado final é o estouro da bolha e uma grande queda.

A economia global tem emitido sinais importantes de uma forma melhor do que todos esperavam. O PIB dos EUA ontem mostrou crescimento vigoroso de 3 por cento, enquanto foram criados 237 mil postos de trabalho no setor privado norte-americano, contra estimativas de apenas 185 mil. Mais impressionante, a inflação, medida pelo núcleo do PCE, esteve em 1,5 por cento em bases anuais, ainda muito aquém da meta informal de 2 por cento.

Na China, o PMI industrial marcou 51,7 pontos em agosto, acima dos 51,1 pontos de julho e dos 51,3 pontos esperados. Há tempos, tenho alertado para desequilíbrios estruturais na China e minha preocupação com excesso de liquidez e crédito por lá. Devo, no entanto, dar o braço a torcer e assumir o quanto, ao menos até agora, estive errado sobre isso. A economia chinesa vem me surpreendendo a cada trimestre e dissipando, ao menos na margem, minha preocupação com commodities.

Em resumo, temos indícios de um crescimento mundial mais forte do que o esperado, sem inflação e ainda com muita liquidez. Ambiente bastante favorável a ativos de risco e a mercados emergentes como um todo.

Enquanto escrevo essas tortas linhas, lá vai o bitcoin bater novo recorde histórico, acima de US$ 4.700. Estou terminando meu cadastro na plataforma e hoje devo comprar um bocado disso. Se vai ou não subir, eu não sei. Mas estou destinando o dinheiro da pinga pra esse negócio convexo. Não confundir com o Côncavo e Convexo ali na Avenida do Estado. Fiquei empolgado com nossa série de criptomoedas, que lhe convido para conhecer.

As coisas podem não estar baratas, mas não há muita alternativa. Como acaba de dizer Warren Buffett, introjetando otimismo nos mercados, está mais difícil achar barganhas, mas não faz sentido algum comprar bonds nestes preços, sendo as ações ainda mais atrativas e o que se deve comprar.

Se esta é a cara do fim do mundo, não me parece tão ruim. Só estou em dúvida sobre o que escolher para o meu futuro. Como ponderou Mark Twain, “prefiro o céu pelo clima, mas o inferno pela companhia.”

Mercados iniciam a quinta-feira estendendo otimismo recente. Fala de Buffett e otimismo com indicadores de atividades elevam disposição a risco. Internamente, governo aprovou texto-base para nova meta fiscal, mas destaques ficaram pendentes.

Na agenda, PNAD contínua mostrou desemprego de 12,8 por cento, um pouco abaixo das estimativas. Nos EUA, temos pedidos de auxílio-desemprego, venda de casas pendentes, ISM industrial, renda e gastos dos norte-americanos e PCE mensal.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,2 por cento, dólar está praticamente estável contra o real e juros futuros buscam definir tendência.

Ps.: Ainda dá tempo de pegar a excelente recomendação do Sergio Oba, neste incrível relatório de shoppings. Mas a janela está se fechando, pois pode haver movimento societário logo, logo.

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