Peru, espumante e bitcoin

Bitcoin virou tema na mesa de fim de ano do brasileiro, mas participantes da indústria financeira tradicional não podem ter opinião independente sobre o tema.

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Peru, espumante e bitcoin

Volto depois de um breve intervalo para as festas de fim de ano.

Na verdade, estou no processo de volta. A família ainda está na casa do interior, aqui próximo de São Paulo. Estou indo e voltando todos os dias, aproveitando o alívio no trânsito do começo de janeiro. Menos de uma hora e meia – o que não é nada de extraordinário para padrões paulistanos – separa a Faria Lima dos encantos da vida bucólica do interior.

Os dias de descanso foram espetaculares. Curtição com a filharada, sonecas vespertinas, livros e séries do Netflix, esporte (o meu golfe nível iniciante começa a ficar divertido), churrascos diários apesar da chuva intermitente. Vida dura, enfim.

E fim de ano é época de estar com família e amigos. Os tradicionais papos de ceia de Natal giram em torno dos “trending topics” do momento.

Política continua sendo relevante, a exemplo dos anos mais recentes. A dinâmica dos grupos e discussões ficou mais complexa, porém, indo agora muito além da bipolaridade coxinhas versus petralhas.

Investimentos nunca foi um tema popular na mesa de fim de ano do brasileiro. Desta vez, contudo, observamos um fenômeno com a explosão das moedas digitais. Segundo artigo recente da “Folha de S.Paulo”, há mais de 1 milhão de CPFs cadastrados nas plataformas brasileiras de negociação de criptomoedas, ou seja, os brasileiros investem duas vezes mais em moedas digitais do que diretamente em ações.

A Empiricus fala de criptomoedas, assim como das diversas classes de ativos financeiros. Por conta disso, fui alvo de questionamentos de amigos e familiares. “E esse Bitcoin aí, Caião, é pra valer mesmo?”

Entre uma mordida na coxa de peru e uma golada no espumante, tento repetir as mesmas coisas que estamos dizendo aqui nas nossas newsletters. Por um lado, há oportunidades espetaculares de ganhos. Por outro, tais oportunidades são compensadas por uma quase total incerteza sobre o que vai acontecer no futuro, mesmo que ele seja tão próximo quanto o Carnaval, que já está quase aí. E concluo a resposta com o meu exemplo pessoal, afirmando que montei uma posição pequena, a qual pretendo carregar por um tempo indefinido.

Por ter trabalhado em bancos por mais de 15 anos, tenho muitos amigos no mercado financeiro. Um dos mais próximos, diretor de private banking de uma instituição de renome, participou de uma dessas conversas de fim de ano, com a presença de outros casais de amigos. A mesma pergunta foi direcionada a ele, e a resposta foi diametralmente oposta. Reconhecendo os méritos da tecnologia do blockchain, meu amigo private banker “desceu a lenha” no Bitcoin. Com uma argumentação técnica impecável, esse amigo foi taxativo em vedar qualquer tipo de investimento em moedas digitais.

Ao ouvir a bem embasada argumentação, Larissa, minha mulher, levemente alterada pela segunda taça de prosecco, não se conteve: “Mas é óbvio que você não gosta de bitcoins, você trabalha em banco!”.

É isso.

Como alguém, participante da indústria financeira tradicional, pode ter uma opinião independente sobre criptomoedas? Desde Jamie Dimon (CEO do JPMorgan Chase) até a sua gerente do Personnalité, todos estão completamente conflitados em suas recomendações sobre moedas digitais, cujo eventual sucesso está inversamente relacionado à importância dos bancos no nosso futuro financeiro.

A mídia tradicional também vai por esse barco. Afinal, os bancos são anunciantes relevantes em emissoras de TV, rádio, jornais e revistas. Tratar de um tema subversivo pode ter consequências comerciais indesejáveis.