A humilhação dos analistas

Escrevo este texto na sexta-feira pela manhã, poucas horas antes da partida das quartas de final entre Brasil e Bélgica. Entre mim e você (leitor) […]

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A humilhação dos analistas

Escrevo este texto na sexta-feira pela manhã, poucas horas antes da partida das quartas de final entre Brasil e Bélgica.

Entre mim e você (leitor) existe um abismo epistemológico.

Do meu lado, o resultado do jogo está na boca da esfinge, “decifra-me ou te devoro”. Há para mim uma absoluta impossibilidade de conhecer o resultado da partida. Isso a despeito das horas que passei ontem à noite assistindo a múltiplas mesas-redondas esportivas simultaneamente.

Para você, o resultado é mero dado histórico, informação sem valor, pois já está disponível para qualquer um que se importe (e mesmo para quem não liga a mínima para isso).

Justamente na transição do presente ao futuro, do desconhecido ao conhecido, que reside toda a capacidade de criação de valor dentro do universo dos investimentos. Os técnicos chamam isso de “alfa”, a capacidade de gerar retornos acima dos riscos previamente assumidos.

E é exatamente nessa transição temporal que há um encontro entre resultados esportivos e retornos financeiros.

E dentre todos os esportes populares, o futebol é aquele que apresenta maior proporção de resultados surpreendentes. Estudos indicam que a “zebra” é mais comum no esporte bretão quando comparado a outras modalidades coletivas como basquete, vôlei, rúgbi, handebol, etc.

Por conta dessa aleatoriedade é que o futebol e suas estatísticas tornaram-se objeto de obsessão nas cada vez mais populares plataformas de apostas. A alta volatilidade das probabilidades faz a diversão dos traders, permitindo ganhos (e prejuízos) rápidos e volumosos.

No momento em que escrevo, isto é quanto está se pagando para quem acertar o vencedor da Copa:

No afã de tentar o impossível, leia-se prever o futuro, analistas de investimento resolvem passar vergonha em público a cada quatro anos.

Desde os tempos em que trabalhava em bancos de investimento, testemunho estudos e relatórios sendo publicados às vésperas da Copa do Mundo nos quais profissionais de Wall Street resolvem usar seus modelos para cravar quem vai vencer o Mundial.

Apenas para exemplificar, o respeitável banco suíço UBS publicou, no fim de maio, um relatório cravando a Alemanha como vencedora da Copa do Mundo. O estudo foi fruto do esforço de uma equipe de 18 analistas e editores, que realizaram, por meio de modelos computacionais, 10 mil simulações do resultado da competição.

Detalhe: quatro anos antes, o mesmo UBS e seu notável time de especialistas marcou o nosso Brasil como vencedor da Copa de 2014.

Realmente me foge à compreensão o porquê desse exercício público de auto-humilhação por parte dos financistas. Mas o que me surpreende de verdade é como são levadas a sério as previsões dos mesmos especialistas para um tema tão ou mais aleatório que o futebol: investimentos.

A imprensa especializada, e o mercado em geral, dá uma enorme bola para os tais cenários econômicos e preços-alvos elaborados pelos mesmos modelos que cospem o vencedor da Copa do Mundo.

Os tais modelos do Banco Central cospem previsões para níveis de inflação para três, quatro, cinco anos à frente. E com precisão de casas decimais! Aí vem uma greve de caminhoneiros, embaralha todas as peças do tabuleiro e altera em graus de magnitude maior a inflação do mês seguinte.

Portanto, desconfie dos modelos e das “cravadas” dos analistas. O futuro é “opaco”, como repete sempre o Felipe. Adote estratégias de investimento robustas, idealmente antifrágeis, preparadas para enfrentar o desconhecido e, se tudo correr bem, ganhar com elas.

Trate o seu portfólio como um bom técnico monta sua equipe, com disciplina e respeito. Não há garantia de título, como não há certeza de ganhos, mas o preparo faz a diferença.