O bom é inimigo do ótimo, que é inimigo do bom

No ditado popular dos manuais corporativos, o bom é inimigo do ótimo.
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No ditado popular dos manuais corporativos, o bom é inimigo do ótimo.

Ao alcançarmos uma solução razoavelmente boa, adentramos uma zona de conforto que nos impede de seguir adiante.

Satisfeitos com o assoalho do estritamente necessário, falta-nos o combustível para atingir as estrelas.

Pode até ser, identifico várias situações cotidianas que espelham essa ineficiência.

Para citar um fato atual: prefeitos recapeando ruas com asfalto minimamente aceitável, que vai durar apenas os quatro anos providenciais para que tudo seja recapeado uma vez mais, logo antes de cada eleição.

Um super asfalto cimentado que dura 20 anos custa o triplo do asfalto brejeiro que dura quatro anos, mas nenhum político é louco a ponto de tomar uma decisão que seja excelente para a população, se essa decisão, por acaso, puder ser aproveitada por um futuro candidato da oposição.

No entanto - e como quase tudo na vida depende de contexto -, desconfio também que o ótimo é inimigo do bom.

Passamos dez anos discutindo trem bala no Brasil quando poderíamos ter feito dez trens de passageiros simples e incrivelmente úteis, andando em velocidade média entre 100 e 150 km/h.

E, agora na pandemia, o mundo inteiro gastando bilhões em busca de uma vacina "bala de prata" contra a COVID, quando países como EUA, Índia e Brasil poderiam se beneficiar enormemente de um projeto para milhões de testes baratos, rápidos, suficientemente confiáveis, feitos em casa, sem necessidade de prescrição médica.

O mesmo vale para a gestão pessoal de investimentos.

No bom inimigo do ótimo, uma carteira completa em ativos domésticos pode desencorajar a investir em ativos gringos, por exemplo. E a eficácia (incontestável) dos ETFs pode inibir sua aposta em um stock picking específico de microcaps, de assimetria altamente interessante. 

Já no ótimo inimigo do bom, a ânsia por montar o portfólio eficiente do Markovitz neutraliza estruturas triviais e baratas de barbell strategy talebiano, combinando um tanto de CDI com um pouco de SMAL11, por exemplo.

A era do bom inimigo do ótimo - retrato clássico do CDI obstruindo o investimento em Bolsa - está dando lugar a uma nova era no Brasil, em que o risco do ótimo inimigo do bom passa a ser mais relevante.

Comece aos poucos, certo de onde quer chegar em termos de diversificação, mas não se esqueça de começar. 

Nada é mais importante do que montar uma boa estratégia de investimento antes de dar seu salto exponencial.