Engenharia reversa para seus investimentos

Ao comprar proteções agora, num momento de calmaria e em que as proteções estão mais baratas, se dá um passo aparentemente para trás, em busca de um objetivo de maior lucro no futuro. Uma pequena desvantagem agora (gasto para se adquirir a proteção, uma saída de caixa), em busca de uma grande vantagem no futuro.

Engenharia reversa para seus investimentos

Não entendo muito de golfe – aliás, não entendo nada -, mas a coisa foi mais ou menos assim…

No British Open de 2006, Tiger Woods surpreendeu a todos quando iniciou suas jogadas dispensando o driver, o taco usado para levar a bola branca mais longe. É assim que tradicionalmente se começa. Você está muito distante do green, o objetivo final. Então, pega o instrumento capaz de dar a maior porrada na bolinha e levá-la o mais longe possível.

Woods inverteu o processo mental de um jogador de golfe comum, ao recorrer ao Ferro 4 e 5 para iniciar os trabalhos. Ninguém entendeu aquilo. Mas havia uma clara estratégia, que somente os verdadeiros gênios poderiam implementar. 

A ideia era inverter o processo. Em vez de pensar qual seria a melhor forma de começar já se aproximando do green, ele fez uma engenharia reversa. “Em qual posição devo estar na minha última tacada para maximizar as chances de arremate final certeiro?” Estabelecido isso, onde preciso chegar na penúltima rodada para aproximar-me mais facilmente do local adequado para o último movimento? Então, respondida essa pergunta, como faço a antepenúltima tacada? E vamos assim, recursivamente até definirmos o primeiro passo.

Era um processo contraintuitivo e aparentemente contraproducente quando olhado somente em suas primeiras tacadas, que seria batizado posteriormente de Green-to-tee, uma referência a se começar pelo final (green) e ir caminhando até o início (tee). Os primeiros tiros eram meros meios de se conseguir uma vantagem para as últimas tacadas, e não um fim em si.

A estratégia está descrita em detalhes no livro Hannibal and Me: What History’s Greatest Military Strategist Can Teach Us About Success and Failure, de Andreas Kluth. Talvez a ideia central poderia ser resumida na frase do grande estrategista militar Carl von Clausewitz: “o objeto da guerra, assim como de qualquer atividade criativa,  é empregar os meios disponíveis para para um predeterminado fim.”

Você não precisa avançar a cada rodada. Esse é o ponto. Há alguns passos que, em si, parecem ruins, mas pertencem a uma abordagem holística, tomada a partir da leitura da profundidade do campo. A analogia com investimentos é óbvia e oferece grande ressonância no momento atual.

A carta aos cotistas recém-publicada do mitológico fundo Verde termina assim: 

“Podemos ter alguma calmaria nos próximos meses, mas é a calma que precede a tempestade, visto que a eleição de 2018 tende a ser bastante aberta, complexa e incerta. (…) Nesse sentido, temos iniciado uma busca por proteções para o portfólio, que sejam baratas e assimétricas caso vejamos um aumento de aversão ao risco em relação ao Brasil por conta das eleições. Esse trabalho está apenas no início e será relevante na nossa gestão ao longo dos próximos dezoito meses pelo menos.”

Recentemente, a Luciana Seabra, que faz um trabalho brilhante na cobertura dos fundos de investimento, esteve com o Fábio Okumura, gestor da Gauss, e ele também estava comprando proteções para as eleições. Eu sou cotista do fundo e grande admirador da profundidade epistemológica com que ele toca seu fundo, pra mim, o mais deliberadamente talebiano dos gestores brasileiros.

Os movimentos são a demonstração do reconhecimento da profundidade do campo. Ao comprar proteções agora, num momento de calmaria e em que as proteções estão mais baratas, se dá um passo aparentemente para trás, em busca de um objetivo de maior lucro no futuro. Uma pequena desvantagem agora (gasto para se adquirir a proteção, uma saída de caixa), em busca de uma grande vantagem no futuro.

Não se olha o próximo movimento. Pensa-se no tabuleiro como um todo.

É provável que os mercados continuem subindo no curto prazo. Com o bull market lá fora, o juro caindo para níveis próximos às mínimas históricas, as reformas passando (ou algumas reformas passando, com a previdência minguada, mais suficiente para animar investidores momentaneamente) e as empresas mostrando, no geral, bons resultados, não seria surpreendente vermos novo recorde histórico para o Ibovespa antes do que todos supõem.

Mas as coisas não vão ficar tranquilas para sempre. Quando elas parecem tranquilas é que são, na verdade, bem capciosas, pois a falta de volatilidade aumenta o risco de cauda, pela supressão das ameaças para debaixo do tapete.

A parte boa desses momentos de euforia e tranquilidade é que você pode embolsar parte dos lucros recentes e comprar as proteções, que estão baratas pela percepção de ausência de riscos. Depois de dar vários passos à frente com os ganhos dos últimos meses, você pode dar alguns passos atrás, olhando uma posição muito mais vantajosa no futuro, para quando as coisas não estiverem mais tão favoráveis.

Na Carteira Empiricus, por exemplo, eu acabo de comprar 0,3 por cento do portfólio em proteções, bastante assimétricas (infelizmente, confesso, nem tão baratas, dado o subdesenvolvimento do mercado brasileiro para hedge). A esta altura, pode parecer uma tentativa de copiar o mito supracitado – com a sinceridade característica, eu não teria nenhum problema em fazê-lo se achasse necessário; se você se acha original, você apenas não leu o suficiente. A ordem cronológica das coisas, ao menos dessa vez, me serve de álibi. A sugestão foi dada ontem  de manhã para proteger a Carteira diante dos ganhos simplesmente fantásticos dos últimos tempos: ela oferece 205 por cento do CDI no ano e avança quase 2 por cento somente neste início de agosto. É motivo de orgulho, mas também de responsabilidade. Vamos atrás de uma vantagem maior para o futuro. O objetivo é pensado lá na frente.

Mercados iniciam a terça-feira demonstrando alguma cautela. A pressão pela realização de lucros, associada ao recuo de commodities metálicas no exterior depois de dados decepcionantes da balança comercial chinesa e a dúvidas quanto a trajetória fiscal brasileira, leva Ibovespa Futuro ao vermelho, com perdas de 0,3 por cento neste momento em que escrevo. Dólar e juros futuros estão perto da estabilidade.

Exportações chinesas subiram 11,3 por cento, contra prognóstico de alta de 17,3 por cento. Importações também decepcionaram ao avançar 14,7 por cento, frente a projeções de incremento de 23 por cento. Minério de ferro cedeu em reação ao anúncio e também à alerta de bancos estrangeiros sobre possível queda até o final do ano.

Petróleo, por sua vez, mostra pequenas oscilações, à espera do término da reunião da Opep.

Por aqui, IGP-DI apontou deflação de 0,3 por cento, contra estimativas de recuo de 0,45 por cento. Atenção redobrada sobre dificuldades para cumprimento de meta fiscal, com notícias sugerindo criação de nova faixa para imposto de renda, entre 30 e 35%, e tributação sobre lucros e dividendos.

Nos EUA, saem relatório Jolts de tendência do emprego e otimismo das pequenas empresas.

Conteúdo relacionado