Esta pode ser a última janela para você comprar Bolsa abaixo dos 70 mil pontos

Esta pode ser a última janela para você comprar Bolsa abaixo dos 70 mil pontos

Eu me apaixonei pelo Marcos Lisboa em 2010. Amor à primeira vista. A Empiricus era algo um pouco pior e menor do que uma borracharia; mesmo assim, ele topou falar em nosso evento de aniversário de um ano. Crescemos um pouco desde então, estamos nos institucionalizando. A essência, porém, ainda é a original – sempre que podemos, convidamos o Lisboa para falar aos nossos leitores (acho que já foram três ou quatro vezes, sendo que as últimas custaram-me algumas caixas de lenços).

Não foi só a generosidade do aceite e a disposição ao diálogo que me encantaram – certamente também o motivo não foi estético, com todo respeito. Ali vi um economista brilhante preocupado com questões micro, fugindo da tendência monotemática brasileira de discutir apenas câmbio e juro. Sempre só se falou disso. Parecemos esquecer de que nosso profundo problema de produtividade dos fatores decorre, em grande medida, de nós setoriais, burocracias particulares, subsídios aos amigos do rei sem qualquer medida de avaliação, etc.

Desenvolvimentista escreve em jornal dizendo que, com o câmbio tão apreciado, é mesmo impossível para nossa indústria concorrer por ai. Então, o dólar sai de 2 para 4 reais e a indústria continua parada.

“Ah, mas o problema é o juro. É ele que segura a indústria.” A Selic vai para 7,25 por cento e, de novo, nada acontece. Quer dizer, até acontece: as coisas pioram e geram mais destruição de valor intertemporalmente.

Parêntese rápido: é curioso ver parte do empresariado brasileiro criticando a nova matriz econômica. À época, foi essa mesma turma que foi lá pedir subsídio, crédito barato, campeões nacionais, corte de impostos e desoneração de imposto. Aplaudiram o desenvolvimentismo de quermesse e agora pagam de bastiões da ortodoxia. Ninguém quer pagar o pato que ajudou a criar.

Retomo o ponto central.

Mais recentemente, à dupla sertaneja câmbio e juro se juntou um terceiro elemento: a reforma da Previdência. Não quero subdimensionar a importância desse power trio. Não tenho dúvida de que o juro é muito alto no Brasil e que a reforma da Previdência se faz absolutamente necessária; sem ela, não há trajetória crível para a dívida pública, tampouco um orçamento da União minimamente razoável – com a PEC do teto de gastos, se não ajustarmos as regras, logo logo a Previdência, crescendo em ritmo superior às demais despesas, vai representar 125 por cento do Orçamento.

A questão é que há outros drivers para as ações além da tríade sob constante escrutínio público. Aproveito o início da temporada de resultados trimestrais, com bons números de Localiza ontem à noite, para clamar pela importância das questões idiossincráticas, que me parecem negligenciadas pelo consenso de mercado.

As empresas estão hoje muito mais enxutas e eficientes. Mera questão de sobrevivência. Ademais, a tendência histórica brasileira a formar bons monopólios e oligopólios foi intensificada nos últimos anos. Os menos eficientes morreram no meio do caminho, outros foram comprados em significativos processos de consolidação setorial.

Os esforços de enxugamento de custos e despesas não transitaram ainda devidamente pelos balanços, estando as empresas agora prontinhas para surfar uma bela onda de alavancagem operacional. Veja que a temporada de resultados corporativos do primeiro trimestre já trouxe surpresas bastante interessantes e foi guia para muitas das ações de empresas listadas. Algo semelhante me parece pronto para acontecer.

E se a reforma da Previdência é fundamental para a trajetória da dívida pública e, de maneira mais imediata, para os investimentos em renda variável, no curto prazo a trabalhista é inclusive mais importante para os resultados das empresas. Ela reduz dramaticamente eventuais contingências trabalhistas e confere às companhias grande flexibilidade para contratar, com impacto direto sobre as margens.

Aqui entra outro elemento importante, que resolvi chamar de “efeito-base”. Diante da tragédia recessiva dos últimos anos, as margens corporativas estão cerca de 30-40 por cento da média histórica. Então, o incremento de margens tem um efeito brutal sobre a última linha. Uma coisa é sua margem líquida sair de 20 para 22 por cento. Outra, completamente diferente, é pular de 2 para 4 por cento. No primeiro caso, seu lucro cresceu 10 por cento. No segundo, dobrou. Ações aparentemente caras podem subitamente ficar baratas em cenários assim.

Para reforçar o argumento, há ainda o efeito importante sobre os resultados financeiros da redução da Selic – com a taxa básica saindo de 14,25 para casa de 10 por cento ao ano, as despesas financeiras caem muito, novamente catapultando lucros, atualmente muito depreciados. Com muita gente boa já esperando o juro básico de 7 por cento, tem mais coisa pra vir daqui, o que pode ensejar nova pernada dos bond proxies – Rumo (RAIL3) pra mim é uma aposta convicta. No Palavra do Estrategista, comentei sobre um outro tiro certeiro visando o balanço do segundo tri. Aproveito para lembrar os assinantes do evento ao vivo que faremos hoje 10h30 com o Lucas Aragão, para comentar política e seus impactos sobre mercados/investimentos. Clique aqui para participar.

Weg e Localiza já deram boas amostras do que pode ser essa temporada. Percebo uma melhora notável nas prévias das incorporadoras também. Não gosto do setor, mas é um grande beta. Se as coisas melhorarem, pode ter coisa voando aqui. Não serve como investimento de longo prazo. Mas construtrolhas podem abrir espaço para um tiro curto.

Institucional ainda está totalmente leve em Bolsa. Com juro a 7 por cento, essa migração em direção à renda variável parece inexorável. Ninguém ainda valoriza muito os drivers micro – a verdade é que a capacidade de análise de empresas por essa turma caiu muito nos últimos anos. Quando aparecer de fato nos resultados, não haverá mais como ignorar. Talvez valha a pena sair na frente. A janela de oportunidade está se fechando. Logo, logo o William Bonner anuncia novo recorde nominal para o Ibovespa – o que, convenhamos, nem terá sido grande coisa.

Mercados iniciam a sexta-feira monitorando especial comportamento do dólar. Índice da moeda norte-americana tem quarto recuo na semana e marca seu menor nível em 11 meses, com dificuldades de Trump caminhar com sua agenda e tensão diplomática com Rússia. Afirmações de Mario Draghi ontem, de que BCE vai reavaliar política monetária até o final do ano, também pesam.

Ações de exportadoras são destaque de queda na Europa com fortalecimento do euro. Commodities em baixa também arrastam bolsas para o vermelho, mas variações são razoavelmente modestas.

Agenda norte-americana traz relatório Baker Hughes, com potencial para mover o petróleo, e PMI Markit preliminar de julho. GE solta resultado pela manhã.

Por aqui, atenção com alta de impostos maior do que a esperada. Alíquota de PIS/Cofins sobre combustíveis veio mais salgada do que se imaginava e economistas correram para revisão projeção para inflação oficial em 2017, agora em torno de 3,5 por cento. Dados do setor externo completam a agenda macro. Na cena corporativa, Localiza faz teleconferência e Biotoscana tem suas ações apreçadas no âmbito do IPO.

Ibovespa Futuro abre em leve baixa de 0,2 por cento, enquanto dólar cede 0,1 por cento contra o real. Juros futuros registram queda predominantemente, na esteira da queda do dólar e da percepção de que a inflação continua domada mesmo com imposto maior, o que, por sua vez, enseja alívio fiscal na margem e comprometimento com orçamento.

Terminamos a semana com o convite especial para conhecer o Combo Upside Essencial. Se estivermos certos sobre a Bolsa, este pode ser de uma ajuda incrível.

Conteúdo relacionado