S02E22 – Welcome to Hipsterland

Seria muito interessante se a externalidade, positiva e negativa, de medidas públicas fosse analisada e devidamente apresentada à população.

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S02E22 – Welcome to Hipsterland

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Em economia, chamamos de externalidade o efeito indireto que uma ação tem sobre indivíduos que não participaram dessa determinada ação.

Exemplo: uma indústria joga detritos no rio e torna aquelas águas impróprias para o banho. A comunidade ribeirinha, que nada tem a ver com a empresa poluente, é privada de se banhar no rio por uma ação alheia à sua vontade e/ou participação.

Uma externalidade também pode ser positiva: quando você recicla o seu lixo, toda a população ao seu redor é beneficiada pela menor produção de detritos em sua cidade. Quando você pinta a sua casa, seus vizinhos moram em uma vizinhança mais bonita sem pagar nada por isso.

Externalidades não trazem ônus nem bônus para quem as gerou, mas acabam por ser um custo ou benefício para terceiros que não estiveram envolvidos no processo – por isso mesmo, é muito comum que só sejam resolvidas mediante intervenção do Estado. É preciso multar quem polui, incentivar a reciclagem e, de alguma forma, impedir que seu vizinho toque bateria depois de uma certa hora.

Muitas políticas públicas geram externalidades maiores do que o problema original que elas buscavam solucionar – é comum que as questões de uma minoria organizada e barulhenta sejam atendidas em detrimento dos interesses de uma maioria difusa e silenciosa.

Recentemente, estive em Seattle, capital mundial dos hipsters. Sede da Amazon e da Microsoft, tem muita gente jovem que ganhou dinheiro, vive sob as leis do politicamente correto e adora fazer cerveja em casa.

Além do tour grunge – passei pelo bar onde Kurt Cobain teve sua primeira overdose e conheci um cara que já recolheu o cocô do cachorro do Vedder – um dos motivos da viagem era para que a Alice (quem realmente manda em casa) reencontrasse as amigas de intercâmbio.

Chegamos na casa de Emily e Matt, duas das pessoas mais gentis e interessantes que conheci na vida, mas são clichês ambulantes: trabalham três dias por semana na fazenda de maconha de um amigo (legalizada no estado de Washington) e moram no porão da casa que Emily ganhou da mãe. A casa em si está alugada para três jovens estudantes – com o dinheiro do aluguel, os dois complementam a renda e passam a maior parte do tempo tomando vinho e ouvindo música.

Entre uma taça de vinho e um copo de cerveja, comentei que havia tomado uma multa de estacionamento no centro da cidade – acabei pagando o parquímetro errado porque, bem… turista, né? Matt contou que tomou uma multa de velocidade em zona escolar num bairro pobre da cidade – mais de 200 dólares foi o custo da brincadeira.

Comentou como era injusta uma multa tão alta em lugar como aquele – as multas deveriam ser menores em bairros pobres, argumentou o bem-intencionado hipster enquanto me servia uma cerveja de 10 dólares numa terça-feira à tarde.

Eu não falei nada na hora – não convém destratar o cara que está te servindo brócolis, amendoim e witbier – mas imagens de playboys com Camaros e F-250 fazendo corridas clandestinas nos bairros pobres de Seattle começaram a pipocar na minha mente quase que instantaneamente.

Será tão difícil perceber que, ao discriminar o valor da multa, você gera um incentivo para que moradores de outros bairros façam besteira em ruas pobres, enquanto os bairros ricos permanecem seguros e protegidos?

Qual seria a reação de Matt e Emily ao abrirem o “Seattle Times” e descobrirem que a filha de Jeff Bezos atropelou uma criança pobre com a Ferrari que ganhou de Natal do pai?

Em novembro do já distante 2017, um texto de autoria do PT e do PTB, que proíbe o acúmulo de funções de motorista e cobrador de ônibus, foi aprovado na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Na prática, o texto implica que ônibus e micro-ônibus devem voltar a ter a figura do cobrador para coletar o dinheiro e dar o troco aos passageiros.

Em vez de lutar pelo aumento da bilhetagem eletrônica, que agiliza o processo e ainda reduz a circulação de dinheiro nos ônibus (menor risco de assaltos), os partidos, que se dizem estar ao lado dos trabalhadores, cederam a pressões de uma minoria organizada (os cobradores) em detrimento dos interesses da maioria desorganizada (usuários de ônibus).

É claro que mais funcionários implicam em maiores custos e, lógico, pressão sobre as tarifas. Quem usa transporte público? Justamente a população de menor renda.

Não cabe aqui discutir a idoneidade das empresas de transporte, envolvidas em escândalos recentes. O ponto central é que é possível reduzir o custo e melhorar a qualidade do serviço se modernizarmos o processo.

Algo muito semelhante se deu na discussão da reforma da Previdência. Servidores públicos, com remuneração bem acima da média e muito bem organizados, juntaram-se contra as medidas mais duras da proposta original do governo. Na batalha por votos na Câmara, o Planalto acabou cedendo a pressões e “limpou a barra” de diversas categorias.

Sob a narrativa de “perda de direitos”, a conta maior ficou para a população que está sob as condições gerais da Previdência – uma massa enorme de trabalhadores com baixa representatividade e sem voz nenhuma com partidos de esquerda, direita ou centro.

Seria muito interessante se medidas públicas, todas elas, fossem analisadas com isenção – coisa rara na mídia brasileira hoje em dia – e as externalidades, positivas e negativas, fossem devidamente apresentadas à população. É necessário que o debate público seja mais claro e menos ideológico: quem ganha e quem perde com as propostas? A quem interessam determinadas medidas?

Imagino que Matt tinha as melhores intenções quando propôs a multa diferenciada pelos bairros de Seattle, só foi incapaz de antever as consequências. Não posso dizer o mesmo sobre os vereadores cariocas e deputados em Brasília. Acredito que saibam muito bem os impactos de suas propostas – o que importa para eles é capitalizar votos com medidas populistas e se aproveitar da desinformação da maioria dos eleitores brasileiros.