O Fim está próximo

O Fim está próximo

Trilha da semana
A-Ha – Hunting High and Low

“Things change all the time – abruptly, unpredictably, and often for no good reason.”
(Tom Perrotta, The Leftovers)

Quem teve a oportunidade de assistir à belíssima “The Leftovers” (já aviso que não cai bem para quem tem pouco estômago), série pouco badalada mas maravilhosa da HBO, se deparou com um tratado brilhante sobre o imprevisível.

De uma hora para a outra, 2 por cento da população mundial desapareceram, sem nenhuma explicação e de forma absolutamente arbitrária: pessoas de todas as raças, idades, credos, formação e aspirações ideológicas.

Astros de TV, atletas, criminosos e políticos (incluindo políticos criminosos), cientistas, prostitutas e rabinos. De forma absolutamente aleatória, todos sumiram ao mesmo tempo e, puf!, nunca mais se ouviu falar deles.

Que tipo de arrebatamento leva assassinos e crianças sem distinção?

Sem respostas, os anos passam e o mundo muda.

Se o fim pode chegar a qualquer momento e sem avisos, para que poupar, se planejar e/ou parar de comer fritura?

É cada um por si e ninguém por todos.

Novas religiões, novas ciências e, claro, pseudociências pipocam para todo lado.

A busca por explicação cessa para alguns, que tocam suas vidas e tentam viver da melhor forma possível nesse “admirável mundo louco” No meio disso tudo, muita gente perde a cabeça, larga a família e vai buscar iluminação nos cantos mais diversos do planeta.

De acordo com Damon Lindelof, que, junto com Tom Perrotta, co-criou a bagunça toda, o show é um ensaio de como eventos aleatórios acontecem o tempo todo e de como as pessoas lidam com isso de formas e em tempos diferentes.

Simplificando e tentado evitar spoilers, quem não consegue aceitar a aleatoriedade do mundo e da vida, acaba surtando. Os que se dão melhor são aqueles que aceitam que as coisas acontecem sem muita razão ou sentido.

O mundo é aleatório. Ponto.

Shit happens. All the time.

 

Imagine o papo-cabeça que não sai de uma conversa dos dois com o Taleb.

Há anos, o matemático/filósofo/escritor/trader mais ranzinza da humanidade vem escrevendo livros sobre a aleatoriedade do mundo – como fatos imprevisíveis, repentinos e inesperados acontecem e mudam tudo de uma hora para a outra.

Da invenção da roda ao atentado nas Olimpíadas de Munique em 1972, a História é escrita em grandes saltos aleatórios (a definição em português deixa a desejar, se puder, leia a versão em inglês).

Se já é difícil entender como e por que as coisas acontecem DEPOIS de ver um cisne negro se materializar, como, então, saber o que vai acontecer nos próximos anos? Faz sentido “planilhar” e projetar os resultados de uma empresa nas próximas décadas se nem sabemos se vai chover ou não na semana que vem?

Que raios é “margem de segurança” se, das 500 empresas listadas na “Fortune 500” em 1955, só 60 aparecem novamente na lista em 2016? Isso mesmo, só 12 por cento ainda fazem parte do grupo.

Muitas faliram, foram fagocitadas ou, simplesmente, perderam relevância – alguém aí já ouviu falar na Hines Lumber ou na Pacific Vegetable Oil? E o que dizer da Kodak, a 43ª maior em 1955 e, hoje, bem, há quanto tempo você não leva um filme para revelar?

É verdade que houve mudanças na metodologia para a construção da lista em 1995, mas, mesmo assim, de 1995 para cá, apenas 188 empresas (37,6 por cento) permanecem na lista.

E tudo tem mudado cada vez mais depressa: as componentes do S&P 500 em 1965 ficaram no índice por 33 anos, em média. Em 1990, a média caiu para 20 anos. Em 2012, 18 anos…

Sabendo disso, você pode aceitar o fato de que, nos próximos 20 ou 30 anos, as coisas vão mudar e não há nada que você possa fazer a respeito. Ou você pode tentar encaixar a realidade em seus modelos e planilhas.

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Quando hipertensão e diabetes tornam-se doenças endêmicas, dá para cravar que, em 2050, as pessoas ainda vão consumir litros e litros de Coca-Cola mundo afora? Nada impede que todos passem a matar sua sede com aquele suco  “delicioso” (sqn) de chia com cupuaçu – tudo bem vai, acho que a Bela Gil não leva essa.

Conhecer muito bem um negócio, indústria ou empresa faz alguma diferença em um mundo que muda mais rápido do que se pode soletrar “destruição criativa”?

Será que confiar no fluxo-de-caixa-trazido-a-valor-presente-por-uma-taxa-de-desconto é mais racional do que deixar de fazer o seguro porque você é um motorista prudente e a revisão do carro está em dia?

Confiar na sua capacidade de prever o futuro é loucura maior do que cruzar o Outback australiano fazendo a dança da chuva para tentar impedir o segundo dilúvio.  Será que não faz mais sentido aceitar que não sabemos nada e  montar nossas carteiras de acordo?

Não é melhor ter uma carteira bem diversificada, correr atrás de convexidade e encher a mão de seguros, do que acreditar que, daqui a 20 anos, uma empresa cuja tecnologia nem existia há dez ainda vai estar por aí vendendo telefones pelo mundo?

Não estou aqui falando para você largar mão de qualquer estudo ou análise. Só duvide muito de todas as suas certezas.

Sempre.

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