S02E18 – O Adivinhador do Futuro

Mexer nas regras da Previdência é algo tão profundo que deve ter impacto sobre câmbio, juros, níveis de confiança, resultados das eleições do ano que vem.

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S02E18 – O Adivinhador do Futuro

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Uma das técnicas de análise mais respeitadas é a do fluxo de caixa descontado (DCF, na sigla em inglês). Basicamente, a ideia é estimar quanto caixa um investimento vai gerar daqui até a eternidade e, usando uma taxa de desconto, trazer todos esses fluxos a valor presente.

Na teoria é lindo, e faz todo o sentido.

Mas na prática você precisa estimar quanto a empresa vai vender em 2037!

Isso sem falar na tal “taxa de desconto”. Qual a taxa justa para se descontar essa jaca toda?

Eu acho que o DCF pode causar mais estragos do que ajudar – quando você prepara uma planilha enorme, com centenas de projeções e estimativas, seu nível de confiança vai às alturas e você sai com a certeza de que XPTO3 vale 25,48 reais. Assim mesmo, com duas casas decimais.

Quanto mais certeza você tem, mais riscos corre e, bem, voltamos ao caso do episódio 16. 

Além do risco de “overconfidence”, o DCF envolve uma certa superestimação da sua capacidade preditiva: se eu não consigo nem saber quanta cerveja levar em um churrasco, como vou saber quanto de “Presidente” a Ambev vai vender na República Dominicana daqui a dez anos.

Mas gosto bastante do DCF como ferramenta – é ótimo brincar com os números e linhas do balanço para entender de onde vêm os custos, como a empresa está posicionada, quanto precisa crescer para aumentar a rentabilidade, etc.

Além disso, tem uma outra coisa bem legal para se fazer: o DCF reverso. Ao invés de estimar quanto a empresa vai valer, você pega o preço de tela hoje e tenta descobrir o que está embutido ali.

A ideia é mexer com as premissas de vendas, custos, margens e de taxas de desconto para que a planilha chegue em um valor próximo ao que o mercado tem negociado nos últimos dias. Aí dá para dizer: hoje o mercado está precificando um determinado crescimento de volumes ou um corte de custos de mais ou menos tanto.

É um pouco mais razoável e serve para dar uma ideia se o sentimento é de maior otimismo ou pessimismo. Ainda que seja mais razoável, o processo depende bastante de adivinhação estimativas e, veja, mesmo que você saiba o preço da tela, você nunca vai saber o que cada agente pensa.

O preço é uma coleção de cotações que sai dos movimentos de compra e venda de milhões de pessoas com desejos, inclinações, informação, objetivos e ideologias muito, mas muito, diversas.

Se você conversar sobre o mesmo papel com uns dez investidores diferentes, vai ouvir uma coleção bem eclética de argumentos sustentando compra ou venda. Aliás, é exatamente por isso que existe o mercado: tem uns querendo vender e outros querendo comprar.

Pensando nisso, é bom tomar muito cuidado quando se depara com notícias falando que determinado evento está (ou não) no preço de um ativo.

Digo isso porque virou moda falar que a reforma da Previdência não está no preço e que, se for aprovada, o Natal será mais gordo na Faria Lima e no Leblon.

Mexer nas regras da Previdência é algo tão profundo que deve ter impacto sobre câmbio, juros, níveis de confiança, resultados das eleições do ano que vem e deve até ser decisivo para a força de Temer em 2018.

Chega a ser engraçado. Se já é preciso ter um pouco de imaginação e fé para determinar o que está no preço de uma única ação, como é que esses caras fazem para calcular o que está no preço do mercado todo?

A situação fiscal do Brasil é tão delicada que tem gestor com sobrenome de sucesso falando que não há muito o que fazer – estamos fadados a conviver com uma dívida impagável e um Orçamento apertado até o fim dos tempos.

É um baita exagero e uma incoerência muito grande, visto que o cara está com o fundo lotado de NTNBs relativamente longas (se o Brasil vai falir, por que comprar títulos do Tesouro?). Mas concordo que o problema é sério e, se não for devidamente endereçado, não há mercado que se sustente.

O ponto é: com esse imbróglio fiscal, não temos muito espaço para errar. Quanto mais adiarmos as reformas, mais difícil vai ficando. O mercado, que é louco, mas não é bobo, sabe disso. Um revés definitivo na Previdência deverá nos levar para níveis bem menores do que os de hoje.

Se duvida, dê uma olhada no que aconteceu com a Bolsa agora há pouco, depois que começaram a circular boatos de que Rodrigo Maia estaria mais pessimista quanto à aprovação do projeto:

Fontes: Empiricus e Bloomberg

Da próxima vez que ler ou ouvir alguém falando que alguma coisa está no preço, questione: “No preço de quem?”. Notícia ruim é notícia ruim, e costuma fazer preço sempre.

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