S02E03 – The Sound of Silence

S02E03 – The Sound of Silence
Trilha da semana
Sounds of Silence – Simon & Garfunkel

20 de junho. Já passava do meio-dia e eu corria para terminar o finado M5M.

Começaram a pipocar mensagens por todos os lados: “Comissão do Senado rejeita relatório da reforma trabalhista por 10 votos a 9”.

Sangue, suor e lágrimas.

“Barata voa” no mercado – em cinco minutos o real afundou 1 por cento; a Bolsa demorou um pouco mais, 30 minutinhos, mas também despencou 1 por cento. Nos juros, o DI 21 abriu 17 bps em 12 minutos!

Os profetas do Apocalipse bradaram que confiar nas reformas de Temer era loucura, que o Brasil estava fadado a dar errado – não há Meirelles que dê jeito. O país foi para o buraco.

Quem parou, respirou e pensou viu: a composição da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) já apontava uma batalha dura, e a rejeição do texto em nada atrapalhava a aprovação da reforma em plenário alguns dias depois.

Dito e feito!

No último dia 11, o Senado aprovou a reforma com folga: 50 votos a favor, 26 contra. Acho que nem preciso falar como estão Bolsa, dólar e juros, né?

Quem “panicou” no fatídico 20 de junho perdeu dinheiro.

Se você está pronto para atirar primeiro e perguntar depois, vai se dar mal – em tempos de informação infinita e abundante, o que não falta é ruído.

Quantas vezes não te mandaram aquele whatsapp falando que, se você não lavar o feijão com vinagre, o papagaio vai morrer, seu vizinho vai comprar uma bateria e vai chover todos os dias das sua férias?

Em pouco mais de dois meses, Temer já renunciou umas três vezes; toda semana o Senado enterra a Lava Jato; e eu já perdi as contas de quantas vezes o “Lula foi preso amanhã”.

Sempre tem o papinho do amigo que ouviu a irmã falando com o padeiro no banheiro da escola: “Vai subir o preço da farinha, vende M. Dias Branco”.

Não dá para acreditar em tudo que se ouve, nem dar razão a toda sorte de argumentos. Há que se separar o joio do trigo, amigo.

Se você quiser ser um bom investidor, vai ter que filtrar ruído do que é sinal. Vai ter que captar informações relevantes em um mar de barulho, de teses, pseudo-fundamentos, dicas quentes, boatos e certezas absolutas.

No limite, tudo é ruído e (só) o que importa é: qual ação vai subir, e qual vai cair.

“Compre o que vai subir; venda o que vai cair.
Se for cair, não compre; se for subir, não venda”

Sem chegar a extremos, mas tentando facilitar a sua vida, resolvemos estrear uma seção que vai aparecer por aqui de vez em quando – o que estão te falando que não é bem isso? Qual a pegadinha da vez?

Bora reduzir esse ruído todo!

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Noise Reduction

Acho que todo mundo aceita bem o conceito de prêmio pelo risco – quem corre mais risco, leva maior retorno, certo?

Faz sentido intuitivamente e acaba se materializando na prática: investimentos mais arriscados carregam uma taxa de desconto maior, e investidores estão dispostos a pagar menos por eles.

É por isso que os Estados Unidos pagam juros menores do que o Chile, que paga juros menores do que o Brasil que, bem, ninguém paga juros maiores do que o Brasil (pelo menos ninguém que conte).

Da mesma forma, espera-se que o investimento em ações pague mais do que em bonds – quando uma empresa quebra, os “bondholders” (credores) têm preferência sobre os acionistas, que são os últimos da fila a receber alguma coisa e, geralmente, acabam recebendo poucos centavos por cada real investido.

Em contrapartida, se a companhia prospera, cresce e engorda os lucros, quem tem ações se dá bem, seja via recebimento de dividendos maiores, seja pela valorização dos papéis, que pode ser, literalmente, ilimitada.

Já os credores têm direito apenas aos juros pré-estabelecidos e a uma modesta valorização no mercado secundário, assumindo que os papéis não tenham sido comprados já com enormes descontos para seu valor de face.

Essa diferença de retorno para as ações se chama “equity risk premium” (prêmio pelo risco das ações, em uma tradução literal) – se é mais “perigoso” investir em ações, elas têm que dar mais retorno, senão a gente fica só no bond mesmo, certo?

Será que, na prática, esse prêmio se materializa?

Aswath Damodaran é o nome da criança: professor e geninho das finanças, ele concluiu que, nos EUA, de 1928 a 2016, as ações pagaram, em média, 4,62 pontos percentuais a mais do que os títulos de longo prazo do governo norte-americano.

Olhando para o mercado brasileiro, vira e mexe surge o papinho de que não existe o equity risk premium por aqui – comparando o desempenho do CDI com a Bovespa, a coisa fica feia mesmo pra quem gosta de investir em ações: desde que o país fez a maxidesvalorização do real, em janeiro de 1999, o Ibovespa rendeu 715 por cento contra 1.085 por cento do CDI.

Mas, a verdade é que o Ibovespa está longe de ser um bom proxy para as ações no Brasil – passar por diversas alterações de metodologia e ser muito concentrado são duas das principais críticas que se pode fazer sobre o índice. Hoje, Ambev, Bradesco, Itaú, Petrobras e Vale juntas representam 45 por cento do índice, que tem só 55 empresas em sua composição (sendo três holdings de empresas que estão no próprio índice).

Faz muito mais sentido olhar, por exemplo, para o IBX-100, composto pelas 100 maiores empresas da Bolsa. Desde a máxi, o índice rendeu 1.714 por cento, provando-se bem mais rentável do que o CDI.

Desempenho Ibovespa, CDI e IBX – Jan/1999 a Jul/2017

Fontes: Empiricus Research e Bloomberg

Para se ter ideia, quem investiu 1 mil reais em 1999, teria hoje 18 mil reais se tivesse aplicado no IBX, 11,8 mil reais se fosse para o CDI e menos de 8 mil reais se tivesse apostado no Ibovespa.

O equity risk premium existe, sim, no mercado brasileiro.

Você só tem que olhar direito e investir no lugar certo.

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